The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

PÉROLAS & PORCOS

Em busca da paudurescência perdida no Rock Nacional

Lucas Silveira

"Meu pior dia das crianças foi aquele em que eu ganhei uma caixa com 60 Kinder Ovo. O pior de tudo: era exatamente o que eu queria".

O vocalista da "banda" Fresno em entrevista à Rolling Stone Brasil n° 38.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

PENIS DIMENSION - FRANK ZAPPA ( TRADUÇÃO)

Frank Zappa

Frank Zappa (1940-1993) é apontado por especialistas como um músico e compositor genial, cuja extensa obra é caracterizada por romper a barreira entre a música erudita e a popular.

No entanto, tal genialidade não admite, em sua apreciação, meio termo: ou se ama ou se odeia o trabalho de Zappa pois, dependendo da perspectiva, a genialidade caminha de mãos dadas com o bizarro. Os apreciadores da obra de Zappa tendem, em consonância, a confundir genialidade e bizarria, então, está tudo em casa.

Em quase 60 álbuns gravados ( sendo a maior parte lançada como LPs duplos ou triplos), Zappa não só explorou com maestria os limites da música como, acima de tudo, foi extremamente iconoclasta em relação aos valores culturais impostos e/ou aceitos em sua época, os quais eram fulminados por sua causticidade crítica, muitas vezes, em forma de letra de música.

Portanto, ouvir Zappa somente como música, como é possível fazer com o Pink Floyd, por exemplo, ou seja, sem se ater à letra, se mostra tarefa excessivamente enfadonha. Há, em muitas canções, longas introduções ou intermezzos narrativos que, sem o devido entendimento, lembram lições gravadas para uma apostila de aprendizado da língua inglesa ou um noticiário numa rádio americana.

A canção Penis Dimension foi composta por Frank Zappa, gravada e lançada, no ano de 1971, na trilha sonora do filme 200 Motels, produzido e dirigido pelo próprio Zappa. Os nomes Mark e Howard presentes na tradução, indicam as partes narradas pelos vocalistas Mark Volman e Howard Kaylan. 

Em tempo, Frank Zappa, por sua honestidade crítica,  foi um dos primeiros artistas perseguidos por uma associação formada por esposas de congressistas conservadores, durante a década de 1980, o que acabou na lei que obriga discos com conteúdo explícito ostentarem um rótulo de advertência na capa. Vinte anos após a morte de Zappa, é só acessar um site de pornografia, que a quantidade exuberante de anúncios com promessas miraculosas de aumento peniano nos mostra, claramente, a eficácia de um simples rótulo diante de um  dos mais bizarros dilemas humanos. A questão não é resolver e, sim, esconder. Haja hipocrisia!!!


O tão famigerado selo de avertência.

Capa do álbum 200 Motels

"A DIMENSÃO DO PÊNIS"

A dimensão do pênis
A dimensão do pênis
Está me aborrecendo
Não consigo mais dormir
Por causa da dimensão do pênis

Você  se preocupa?
Você  se preocupa um bocado?

Não!

Você  se preocupa?
Você  se preocupa e lamenta
Que o tamanho do seu pau não seja monstruoso o suficiente

Esta é a dimensão do seu pênis
A dimensão do pênis

Mark: E aí, chegados? Sejamos honestos. Vocês já consideraram a possibilidade de seus pênis e, no caso das respeitáveis senhoras, o tamanho de suas tetas, poderem provocar elementos de forte tensão subconsciente? Esquisito, ansiedades desfiguradas que podem forçar o ser humano a se tornar um político! Um policial! Um jesuíta!

Howard: ...?

Mark: Um guitarrista de rock'n'roll! Um apreciador de vinhos! Ou qualquer nome que se dê a isto! No caso das senhoras, aquelas sem condições de dar uma recauchutada com silicone, podem se tornar escritoras de livros eróticos...

Howard ( como se estivesse lendo um livro erótico): "Manuel, o jardineiro, colocou seu falo ardente na fenda estremecida dela."

Mark: Sim, ou se tornam freiras Carmelitas!

Howard: "Gonzo, o guitarrista solo, enfiou seu membro mutante na racha deslizante dela." Ha, ha, ha!

Mark: Oh, ou os jockeys. Não há razão para você e sua amada sofrerem. As coisas já são ruins o suficiente sem que o tamanho do seu órgão traga mais miséria para os PROBLEMAS DO MUNDO!

Howard: Certo! Certo!

Mark: Agora, se você é uma senhora de tetas pequenas, pode se consolar com esta frase dos velhos livros escolares:

Mark & Howard: TUDO O QUE NÃO CABE NA BOCA É DESPERDÍCIO! SIM!

Mark: E esta não é a verdade? E se você é um cara numa festa, tentando ficar numa boa, quer dizer, você está sem cueca, numa boa, aí alguém chega até você, te mede da cabeça aos pés e diz:

Howard: Vinte centímetros ou menos?

Mark: Deixem-me dizer a vocês, irmãos, se não é hora do olhar bem na cara do filho da puta e mandá-lo para o inferno com estas palavras:

Enfiei três pares de meia e uma barra de sabão dentro da minha calça.







quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

ORGASMATRON - MOTÖRHEAD ( TRADUÇÃO)

Capa do álbum Orgasmatron

A canção Orgasmatron foi composta por Phil Campbell, Würzel, Lemmy e Pete Gill e lançada no álbum homônimo da banda Motörhead, no ano de 1986. Cada estrofe fulmina, de forma densa e contundente, os seguintes alvos: religião, política e guerra. 


Eu sou o único, Orgasmatron, a admirada mão estendida
Minha imagem é de agonia, meus servos estupram a terra
Obsequioso e arrogante, clandestino e inútil
Dois mil anos de miséria, de tortura em meu nome
Hipocrisia tornada suprema, paranoia tornada lei
Meu nome é  religião, sadismo, a puta sagrada

Eu manipulo a verdade, mando no mundo, minha coroa é o engano
Eu sou o imperador das mentiras, você rasteja aos meus pés
Eu te roubo e te escravizo, tua ruína é meu lucro
E você ainda me bajula, enquanto me deleito em sua dor
E todas as minhas promessas são mentiras, todo meu amor é ódio
Eu sou o político e decido seu destino

Eu marcho diante de um mundo martirizado, um exército em luta
Eu falo dos grandes e heroicos dias, de vitória e poder
Ergo uma bandeira encharcada de sangue, te exorto à bravura
Te conduzo ao teu destino, te conduzo à tua sepultura
Teus ossos construirão meus palácios, teus olhos enfeitarão minha coroa
Pois sou Marte, o deus da guerra, eu te cortarei.

Motörhead


ANARCHY IN THE U.K. - SEX PISTOLS ( TRADUÇÃO)

Capa do single Anarchy In The U.K.

A música Anarchy In The U.K. foi composta por Glen Matlock, Paul Cook, Steve Jones e Johnny Rotten e lançada como single pela banda Sex Pistols no ano de 1976. No ano seguinte, ela foi incluída no álbum de estreia da banda, chamado Nevermind The Bollocks, Here's The Sex Pistols.

"ANARQUIA NO REINO UNIDO"

Eu sou um anticristo
Eu sou um anarquista
Não sei o que quero
Mas sei como conseguir
Eu quero destruir os passantes

Pois eu serei a anarquia 
E não o cachorro de alguém

Anarquia para o Reino Unido
Uma hora ela virá e talvez
Eu esteja parando o trânsito na hora errada
Seu sonho de futuro é ir às compras

E eu serei a anarquia 
Na cidade

Há muitos jeitos de se conseguir o que se quer
Eu uso o melhor 
Eu uso a sobra
Eu uso o N.M.E.*
Eu uso a anarquia

Pois serei a anarquia
Este é o único jeito

Isto é o M.P.L.A.**
O U.D.A.***
Ou o I.R.A.****
Pensei que fosse o Reino Unido
Ou um país qualquer
Uma outra propriedade do Conselho

Eu quero ser a anarquia
Eu quero ser a anarquia
Oh, que nome
Eu quero ser um anarquista
Ficar fodido e destruir.

*N.M.E.: New Musical Express -- revista britânica semanal sobre música, publicada a partir de 1952.
**U.D.A.: Associação de Defesa do Ulster -- grupo paramilitar protestante, inimigo do I.R.A.
*** M.P.L.A.: Movimento Popular para a Libertação de Angola. partido que lutou pela independência e controla o governo de Angola.
****I.R.A.: Exército Republicano Irlandês -- grupo paramilitar católico, inimigo do U.D.A.


Sex Pistols




VOX POPULI... VOX DEI

Raul Seixas

O texto abaixo foi escrito por Messias Fernando, de Criciúma, SC, e publicado na seção Cartas, na extinta revista Bizz, no mês de janeiro de 2007 sob título ESCREVE RAUL!

"Cadê o Raulzito? Ninguém ainda reclamou desse absurdo? Agora eu vou fiscalizar essa zorra toda, pois no início era o meu pai ( que me deu uma fita K7, em 1988, do Raul) e hoje sou eu. Porque eu sou rock'n'roll, aquele tocado com guitarra country, miado, mas dançante. Então, pergunto: Cadê o canceriano sem lar?" 

IN LEAGUE WITH SATAN - VENOM ( TRADUÇÃO)

A música In League With Satan foi composta por Conrad Lant, Jeff Dunn e Tony Bray, gravada e lançada pela banda Venom no álbum Welcome To Hell, no ano de 1981. É necessário, para evitar pudores interpretativos em relação à letra, a leitura de outro texto publicado aqui, sob o título "O Diabo É O Pai Do Rock".

Capa de Welcome To Hell


"ALIADO DE SATÃ"

Sou um aliado de Satã
Me ergui do inferno
Caminho pelas ruas de Salem
Entre os morto-vivos

Não preciso que me digam 
O que é certo ou errado
Bebo o sangue das crianças
E persigo minha presa na noite

Olhe lá fora
Cuidado quando a lua-cheia brilha alta
De qualquer jeito estou lá
Em cada sombra da noite

O mal aliado a Satã

Sou aliado a Satã
Obedeço seu comando
Junto ao bode preto
Sentado à sua esquerda

Sou um aliado de Satã
Eu amo os mortos
Ninguém rezou por Sodoma
E, sim, fugiram


Olhe lá fora
Cuidado quando a lua-cheia brilha alta
De qualquer jeito estou lá
Em cada sombra da noite

O mal aliado a Satã

Sou aliado a Satã
Sou meu próprio mestre
Bebo o suco das mulheres
Que dormem sozinhas

Sou um aliado de Satã
Ostento o símbolo do demônio
Mato recém-nascidos
Rasgo a carne das crianças

Olhe lá fora
Cuidado quando a lua-cheia brilha alta
De qualquer jeito estou lá
Em cada sombra da noite

O mal aliado a Satã.



Venom





sábado, 6 de dezembro de 2014

VOX POPULI... VOX DEI

Texto publicado na seção Cartas da revista Rolling Stone de agosto de 2014 sob título Inspirações Roqueiras, escrito pelo leitor Arthur Rodrigues, a respeito de uma entrevista da "artista" Pitty.

"É bizarro (ui!) ver a Pitty citando Patti Smith e Queens Of The Stone Age como influências! Só quem nunca ouviu esses artistas vai acreditar nisso... É triste ver uma mulher adulta escrever como uma adolescente emburrada."

E olha que Patti Smith e Queens Of The Stone Age não são lá essas coisas!!!!


Pitty

Patti Smith

Queens Of The Stone Age

ROCK X POP

Existe na cultura nacional, um preconceito romântico que tenta desvincular do rock a condição pop, ou de  sucesso popular.

Rock é um estilo musical, enquanto que música pop implica na aceitação popular  que um determinado estilo, seja ele o rock ou qualquer outro, usufrui.

O equivocado antagonismo rock x pop, presente na cultura musical nacional, é consequência da identificação deste com um outro antagonismo, onde há uma autenticidade latente: underground x mainstream. ( Underground: quer dizer, literalmente, subterrâneo. O termo em inglês é utilizado para definir manifestações artísticas restritas a grupos pequenos e fechados sendo que, muitas vezes, as barreiras de restrição de tais grupos são defendidas de maneira xiita por seus integrantes, sejam eles artistas ou público; Mainstream: significa, também literalmente, corrente principal e se refere a tudo que tem aceitação massiva no mercado cultural). Aí, o rock seria, impreterivelmente, underground  enquanto que o pop, consequente e inapelavelmente, seria mainstream. Tal identificação tem início durante a década de 1970, quando os roqueiros nacionais se assumiram marginais, no sentido de se posicionarem à margem dos mecanismos que garantiam aceitação popular.

Roqueiros brasileiros durante os anos 70 
O rock'n'roll tem suas origens ligadas à busca do atendimento de uma demanda, dentro da segmentação de mercado da cultura de massa, no pós-guerra: satisfazer as necessidades culturais do público jovem, assim como, anteriormente, as race records visavam atender as necessidades de consumo do público negro das grandes cidades, que ainda mantinham conexões com suas raízes rurais, ligadas ao blues do Delta do Mississippi.


Roqueiros nos primórdios.

O rock então, surge como um produto da indústria de entretenimento destinado ao público jovem. Se houve sucesso para alguns artistas, enquanto outros não tiveram o mesmo reconhecimento e tiveram seus nomes restritos a nichos e status cult, nunca foi causa e, sim, consequência dos acontecimentos.

Até meados da década de 1960, o rock era subcultura, manifestação alienada e delinquente para qualquer um que tinha preocupações artísticas "sérias". Tanto que o público jovem de aptidões intelectuais se identificava com o folk e o jazz. Para o bem ou para o mal, tal condição foi suplantada pelos Beatles e por Bob Dylan, na ostensivamente decantada troca de influências entre o artista norte-americano e a banda inglesa. Foi onde, também, começou a vingar a mentalidade quixotesca que identifica fracasso comercial com qualidade cultural.


Dylan & Beatles

Os Beatles pairam unânimes como exceção, pois são apontados por especialistas como estandartes da criatividade artística e ostentam números de venda faraônicos. Seus limites musicais, por assim dizer,  foram aglutinadores, o que contribuiu para a aceitação universal da banda. Os Rolling Stones, a título de comparação, já que são apontados como os eternos vices, possuem limites musicais engessados pela estética da Chess Records e, quando tentaram seguir os Beatles, foram enfadonhos. Mas foram, à sua maneira, assim como os Beatles, comerciais, ou seja, pop.

É engraçado como a aceitação de mercado subverte a lógica analítica da estética musical. Quando o grunge, que tem origem no underground, cai no gosto popular, no início da década de 1990, o hard rock afetado e de pretensões comerciais em sua estética, se recolhe a um nicho underground.

Grunge

80's Hard Rock ou Hair Metal

A não ser nas tendências musicais extremas, oriundas do Heavy Metal e do Punk Rock, tais como o Black e o Death Metal, o Hardcore e o Grindcore, por exemplo, qualquer tipo de rock é virtualmente comercial, ou seja, pode se tornar pop. Há preocupação com a estrutura melódica na música dos Beatles, do Black Sabbath, do Iron Maiden, do Nirvana e há, também, pontos de conexão ligando-os. Não é o fato de uma música tocar ou não no rádio ou na televisão ou, mais na ordem do dia, estabelecer recordes de visualizações na Internet, que a faz ter ou não qualidade. Agora, a excessiva exposição de nossos ouvidos a tal música pode, sim, torná-la enfadonha.

É indubitável que o sucesso alheio desperta inveja e, consequentemente, o ressentimento. Dizem que há um prato onde caranguejos vivos são postos para ferver numa panela e, logicamente, tentam escapar. Quando um alcança a borda, prestes a se salvar, os demais o puxam de volta, para a morte. É uma boa metáfora do ressentimento em relação ao sucesso dos outros. Se a música que eu gosto de ouvir não faz sucesso, é porque o que faz sucesso não presta.

Sendo o Brasil um país culturalmente desconexo da tradição anglo-saxã, a qual deu origem ao rock, este, dificilmente, terá sucesso popular permanente por aqui, assim como o rock composto a partir de elementos latinos, jamais terá a relevância mundial do original inglês. Neste sentido, é sintomático que as duas bandas nacionais, a atingirem certa proeminência internacional, pratiquem música extrema em inglês, além de se destacaram no circuito underground: Sepultura e Krisiun.

Sepultura

Krisiun

Nelson Rodrigues, ao justificar os fracassos internacionais do futebol brasileiro, antes da conquista da primeira Copa do Mundo, em 1958, criou o conceito do "complexo de vira-latas". Será que nós, roqueiros brasileiros, sofremos de um "complexo de vira-latas musical"? Não é de se duvidar pelo frisson quase orgásmico com que é saudada, por exemplo, em solo pátrio, a referência de um Kurt Cobain à banda Os Mutantes. Kurt que, entre outras coisas, pode ser lembrado pelo bizarro gosto musical que tinha.



sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

REFUSE/RESIST - SEPULTURA ( TRADUÇÃO)

Capa do single Refuse/Resist
A música Refuse/Resist foi composta por Max Cavalera ( letra) e pelo Sepultura ( música), sendo  lançada como single no ano de 1994.

"RECUSE/RESISTA"

Caos depois de Cristo
Tanques nas ruas
Polícia confrontada
Plebe sangrando
Multidão raivosa
Queimando carros
Começa o derramamento de sangue
Quem estará vivo?!

Caos depois de Cristo
Cerco militar
Alarme total
Estou cansado disso
Dentro do Estado
A guerra é criada
Terra de ninguém
Que merda é essa?!

Recuse, resista
Recuse

Caos depois de Cristo
Distúrbio desencadeado
Iniciando o incêndio
Iniciando o linchamento
Silêncio significa morte
Segure as pontas
O medo interno
É seu pior inimigo

Recuse, resista
Recuse, resista

Sepultura


ATMOSPHERE - JOY DIVISION ( TRADUÇÃO)

Capa do single Atmosphere
A canção Atmosphere foi composta e lançada como single pela banda Joy Division no ano de 1980. A claustrofobia ( ou seria claustrofilia) infinita da letra e a "atmosfera" glacial da música abordam a sensação de desespero no limite entre a arte e morte. Isto tudo, é claro, é uma questão de ouvido e sentimento, o que, em suma, é uma questão pessoal. Mas a boa arte não nos faz querer partilhar sensações com quem consideramos?

"ATMOSFERA"

Caminhe em silêncio
Não vá embora, em silêncio
Veja o perigo
Sempre o perigo

Conversa sem fim
Vida em reconstrução
Não vá embora

Caminhe em silêncio
Não me vire as costas, em silêncio
Sua confusão
Minha ilusão

Usado como uma máscara de ódio próprio
Confronte e então morra
Não vá embora

Pessoas como você encontram-no fácil
Despido para o olhar
Caminhando no ar
Caçando pelos rios

Através das ruas
Cada esquina abandonada muito cedo
Me acomodei com o devido cuidado
Não vá embora em silêncio
Não vá embora.

Joy Division

AFTER THE GOLD RUSH - NEIL YOUNG ( TRADUÇÃO)

After The Gold Rush -- Neil Young 1970
"Depois Da Corrida Do Ouro"

A música After The Gold Rush foi composta e lançada por Neil Young no álbum homônimo de 1970. Sua temática ambiental relacionada à condição humana na Terra antecipou em quase meio século as tendências ecologicamente corretas. Neil Young, porém, valoriza as consequências da devastação ambiental, o tão famigerado American Dream, tanto que um de seus últimos maiores dilemas é por na estrada uma banheirona clássica e beberrona chamada Lincoln Continental, sem emitir poluentes. 

Sonhei que vi cavaleiros de armadura chegando
Anunciando algo sobre uma rainha
Havia camponeses cantando e tambores rufando
E arqueiros flechando árvores
Havia uma fanfarra soando ao sol
Ela flutuava na brisa
Procurando a Mãe Natureza em fuga
Em 1970

Estava deitado em um porão incendiado
Com a Lua-cheia em meu olhar
Tinha esperança no recomeço
Quando o Sol queimou o céu
Havia uma banda tocando na minha mente
E me sentia como se tivesse chapado
Estava pensando no que um amigo havia dito
E tinha esperança que fosse mentira

Sonhei que vi espaçonaves prateadas voando
Na névoa amarela do Sol
Havia crianças chorando e cores flutuando
Ao redor dos escolhidos
Tudo num sonho, tudo num sonho
O embarque tinha começado
As sementes prateadas da Mãe Natureza voando
Para um novo lar no Sol.




THE HOUSE OF RISING SUN ( TRADUÇÃO)

Bob Dylan -- 1962

The Animals -- The House Of The Rising Sun -- 1964


 "A CASA DO SOL NASCENTE"

The House Of The Rising Sun é uma canção folclórica norte-americana, presente no repertório dos cantores folk que fervilhavam na cena do Village de Nova York,  nos princípios da década de 1960, onde, segundo dizem, a versão definitiva foi estabelecida por Dave Van Ronk,  que a ensinou a Bob Dylan o qual, segundo o próprio Dave, num de seus inúmeros "chapéus", a gravou no seu primeiro álbum. 

Posteriormente, a banda inglesa The Animals deu uma roupagem rock para a canção, levando-a para as paradas pop, num processo semelhante ao que a banda The Byrds vinha realizando com as composições do próprio Dylan.

Enquanto o narrador ou, numa linguagem da literatura, o "eu lírico" na versão de Dylan é feminino, na versão dos Animals é masculino, o que inverte de maneira radical o ângulo de audição. Pode ser, assim, a história de uma prostituta ou de um frequentador de prostíbulos. A tradução, aqui, é a da primeira versão gravada.

Existe uma casa em New Orleans,
E a chamam de Sol Nascente
Ela tem sido a perdição de muitas meninas pobres
E, Deus, eu sei, sou mais uma
Minha mãe foi uma costureira
E fazia meus jeans
Meu pai foi viciado em jogos
E se perdeu em New Orleans
A única coisa indispensável a um jogador
É uma mala de viagem
E ele só está satisfeito
Quando fica totalmente bêbado
Oh, mãe, diga a sua filha
Para não fazer o que tenho feito
Consumir a vida no pecado e na miséria
Na Casa Do Sol Nascente.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

STRAWBERRY FIELDS FOREVER - THE BEATLES ( TRADUÇÃO)

Strawberry Fields Forever/Penny Lane frente e...

...frente?!!!
A canção Strawberry Fields Forever foi gravada pelos Beatles e lançada, em 1967 como Compacto Simples ou, em inglês, Single.

Compacto Simples é um antigo disquinho de vinil que comportava somente uma música gravada em cada uma de suas faces ou lados. Porém, como o nome em inglês -- que numa tradução livre seria  -- deixa entender, somente o que estaria no lado principal ( o lado A) seria relevante. No lado B sempre era gravado algo apenas para não ficar vazio, geralmente um brinde ao comprador ou uma "encheção de linguiça". 

Strawberry Fields Forever, no entanto, não possui um lado B. No outro lado, também definido como A, está a música Penny Lane, numa clara indicação de que ambas se equivalem. As duas canções são creditadas como composições de Lennon/McCartney, porém, enquanto Penny Lane é criação de Paul, Strawberry Fields Forever é de John. São canções inspiradas nas reminiscências que os dois tinham de suas infâncias em Liverpool e concluídas dentro de um processo de instigação mútua comum entre eles. 

Enquanto Penny Lane rememora uma alameda ( Alameda Penny), Strawberry Fields Forever se refere a um orfanato (Strawberry Fields) cujos terrenos baldios próximos  serviam para as brindeiras da molecada, da qual, Lennon fazia parte. 

Deixe-me levá-la
Pois estou descendo para Strawberry Fields 
Nada é real
E nada como dependurar
Em Strawberry Fields para sempre

Viver de olhos fechados é fácil
Sem entender o que se vê
Vai ficando complicado ser alguém
Mas parece funcionar
E não me importa tanto

Deixe-me levá-la
Pois estou descendo para Strawberry Fields 
Nada é real
E nada como dependurar
Em Strawberry Fields para sempre

Creio que não há ninguém na minha árvore
E isto pode ser bom ou ruim
É que você pode não estar em sintonia
Mas, tudo bem
Não pode ser tão mau

Deixe-me levá-la
Pois estou descendo para Strawberry Fields 
Nada é real
E nada como dependurar
Em Strawberry Fields para sempre

Sempre, não, às vezes, penso que sou eu
Mas você sabe que eu sei quando é sonho
Acho, não, eu quero, não, sim
Mas está tudo errado
E assim acho que discordo

Deixe-me levá-la
Pois estou descendo para Strawberry Fields 
Nada é real
E nada como dependurar
Em Strawberry Fields para sempre
Strawberry Fields para sempre



Os Beatles no cenário do vídeo de Strawberry Fields Forever.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

A MÚSICA NÃO TEM PREÇO OU NÃO VALE NADA?




Historicamente falando, é tradição as pessoas pobres não pagarem pelo consumo da arte, ou podemos acreditar  que pobres camponeses, artesãos ou operários bancaram o gênio de um Michelângelo ou de um Mozart? Agora, às custas da exploração de quem foram edificadas as riquezas que patrocinaram as artes, é outra história. Uma simples equação que se resolvia na seguinte fórmula: nós o estropiamos mas permitimos a você um pouco do bálsamo. Tal tradição começou a ir por terra com o advento da sociedade industrial e seu mercado totalizador, onde tudo se torna passível de compra e venda.

As técnicas de gravação de imagem e som vão dar início à indústria cultural com produção voltada para a massa mas, mesmo assim, sobrevive com o rádio e a televisão, o acesso gratuito à arte, veiculada através destes meios. A quantidade de música disponível nas ondas do rádio, diariamente, estava, infinitamente, além da capacidade de compra do suporte físico ( gravações) dessas músicas por uma pessoa pobre, por exemplo.

Quando as técnicas de gravação se tornaram digitais foi, simplesmente, o inevitável próximo passo. A industria cultural  se lambuzou nas possibilidades de lucro trazidas por tal novidade. Sem custo de produção algum, um número absurdo de catálogos foram ressuscitados e vendidos como o ápice técnico das gravações na era dos CDs. Logo em seguida, o mesmo se deu com imagens gravadas em DVD. Não que isso já não fosse feito antes, na época dos discos de vinil, por exemplo, afinal de contas, é lei do mercado mudar a embalagem para chamar a atenção do comprador. Se como dizem, a indústria fonográfica está morrendo, é sufocada por sua própria ganância. 

O caso brasileiro, por conta de suas condições sócio-econômicas, no que diz respeito ao nosso interesse, o rock, é ainda mais ilustrativo. Quando foi editado no Brasil, em meados da década de 1980, o álbum Empire Burlesque, de Bob Dylan, talvez por conta da significância histórica de sua trajetória como letrista, trouxe, além do encarte com as letras originais, uma folha em papel simples com as traduções das letras para o português, num caso raro de respeito ao consumidor. No mais, este é tratado como se o inglês fosse sua língua mater ou, pior, com o preconceito elitista de que aquilo não é pra quem não pode pagar pelo domínio do inglês. Tal situação só se agravou com a tecnologia digital: as promessas de melhoria foram cobradas mas não foram entregues. Foi alardeada como possibilidade do DVD as opções de qualidade de áudio e legenda, porém o que se viu foi o mesmo descaso com preço maior: CDs sem encartes, documentários e shows em DVD sem legendas. As gravadoras podem alegar,  em seu favor, que tais preocupações encareceriam, ainda mais, o produto final mas este nunca chegou barato ao consumidor.

Uma pessoa pobre, por mais instruída que fosse, compraria, se continuasse pobre -- e a tendência da pobreza é se perpetuar --, ao longo de sua vida, algo em torno de uma centena de gravações musicais analógicas -- os bons e velhos LPs. Isto significa que um pobre, fatalmente, não poderia ter uma noção abrangente da história do rock. O mesmo vale para outro estilo musical qualquer, afinal de contas,  para ver e ouvir é necessário, antes, comer. Por ser difícil, o pouco era muito e aí reside o valor saudosista atribuído às antigas técnicas.

Dizem que as gerações formadas com a tecnologia digital não paga por música porém, o buraco é mais embaixo: as gerações formadas com a tecnologia digital não reconhecem nem têm como reconhecer o valor da música, afinal, ela é jogada em quantidades absurdamente infinitas, "de graça", em suas caras. Todo prazer tem um preço. Sexo e comida gostosa que o digam. Se a música vem grátis, pode ser que ouvir uma boa música esteja deixando de ser um prazer.

Para aqueles que se formaram pagando por uma boa música no formato físico, o mundo digital poderia ser uma mina onde, com um simples teclar, poderiam ser desencavadas "pepitas de ouro". Não é. É só "ouro de tolo". O roubo de uma joia falsa é, ainda, roubo e, aí, existe todo um comércio por trás da própria ideia de roubo e, no final, alguém irá pagar a conta pois, apesar das aparências, tudo tem seu preço.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

BENDITO SEJA O MALDITO

Sérgio Sampaio

André Forastieri afirmou que não existe rock nacional. No muito, continuou, existem trombadas da música brasileira com o rock e numa lista de mil músicas essenciais à história do rock, todas seriam em inglês. Argumento perfeitamente plausível mas, ainda bem, rock não se resume à composição musical em si. Desde os primórdios o sentimento, a pegada ou, em dois termos mais exatos porém desgastados, o feeling e a atitude numa execução musical gravada puseram por terra limites culturais. Seria inocência supor que todos os ouvintes de língua não inglesa compreendessem as palavras cantadas. Entendimento, no entanto, não passa exclusivamente pela linguagem.

Em essência, o rock é porta-voz da insatisfação, da indignação, do inconformismo, do desafio, sentimentos estes universais, tanto no tempo quanto no espaço. Assim sendo, havia rock antes do rock e, se Forastieri estiver mesmo com a razão e o rock morreu, ele vive depois da morte e, porque não, vive, também, no Brasil.

Dizem que o Brasil não tem consciência histórica e não valoriza os seus verdadeiros talentos, o que não deixa de ser uma verdade. Lastimam a falta de reconhecimento público a um grupo de artistas rotulados como "malditos". Na música e, em essência, o rock, por exemplo, temos Itamar Assumpção, Arnaldo Baptista e Sérgio Sampaio. Importante reiterar: rock não se resume a guitarra elétrica, baixo e bateria pois, até louvor a Deus, agora, é feito com esta instrumentação.

Desde a aurora da humanidade, os grupos humanos produziram párias. Na maioria das vezes, funcionaram como antenas receptoras dos medos, traumas, anseios e limites que o grupo deveria experimentar. Experimentavam pelo grupo. Assim foram os xamãs paleolíticos, as pitonisas, os poetas e os filósofos pré-socráticos na antiga Grécia, os santos medievais e os loucos modernos.

Esta é enquanto maldito, a sina de Sérgio Sampaio. Seus quatro álbuns gravados funcionam como uma esponja que absorveu, na música, as mazelas do espírito humano para que o povão pudesse apreciar, incolor, inodoro e insípido, os sucessos populares.

Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua... 1973

Tem Que Acontecer 1976

Sinceramente 1982

Cruel 2006

Não é preconceito elitista, mas a música de Sérgio Sampaio não é para qualquer um, em nome da saúde pública. Saúde pública quer dizer engrenagens encaixadas e produzindo, harmoniosamente. Sérgio Sampaio era sabotador, no sentido etimológico do termo, quando os operários enfiavam saltos de sapato ( sabot, em francês) no mecanismo das máquinas para parar a produção. Sérgio Sampaio era assim, nos pegava no contrapé e escancarava, na nossa cara, a ilusão de sonharmos um sonho que não era nosso. Seu "compadre" Raulzito também fez isso mas usando da fórmula do sucesso e, portanto, sem a mesma contundência.

Nas tradições da antiga Grécia, o aspecto dionisíaco da religiosidade compreendia o drama existencial dilacerando o deus Dionísio que, sempre, deus que era, ressurgia. Isto é, na origem a tragédia, o teatro na Grécia antiga: Dionísio experimentando até as últimas consequências o drama humano para que, no dia seguinte, a comunidade pudesse levantar cedo e cumprir a banalidade de seus afazeres cotidianos.

Não podemos cobrar injustiça do fato de Sérgio Sampaio não ter sido sucesso de massa.  Ele era perigoso demais para tanto. Basta, para ele, a condição dionisíaca do dilema existencial vivenciado até as últimas consequências para que, a cada dia possamos seguir em frente, batendo ponto e construindo sonhos alheios. Para o nosso próprio bem.

A lógica do mercado, na produção industrial, implica que um produto chegue ao número máximo de consumidores, senão, será fracasso comercial. Por outro lado, também na lógica de mercado, existem artigos raros e, por isso, caros. É assim que Sérgio Sampaio deve ser ouvido: como artigo caro, raro e rock, senão, é bom que o rock esteja mesmo morto.

  

Pobre Meu Pai

Sérgio Sampaio

Pobre meu pai
Quatro 
punhos espalhados no ar 
Oito olhos vigiando o quintal
E o meu coração de vidro
Se quebrou
Doido meu pai
Sete bocas mastigando o jantar
Sete loucos entre o bem e o mal
E o meu coração de vidro
Não parou de andar
Pobre meu pai
A marca no meu rosto
É do seu beijo fatal
O que eu levo no bolso
Você não sabe mais
E eu posso dormir tranqüilo
Amanhã, quem sabe?
Hoje, meu pai
Não é uma questão de ordem ou de moral
Eu sei que posso até brincar
O meu carnaval
Mas meu coração é outro
Simples, meu pai
Faça um samba enquanto o bicho não vem
Saia um pouco, ligue o rádio, meu bem
Não ligue, que a morte é certa
Não chore, que a morte é certa
Não brigue, que a morte é certa

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ANOS 80



Dá pra ver os anos 80 de outra galáxia se considerarmos suas características e, entre elas, as musicais. Técnicas de gravação, timbres instrumentais, tecnologia na produção de instrumentos e aspectos da produção do período ficaram extremamente datados e o que havia surgido como a promessa de um futuro surpreendente foi, rapidamente, condenado ao "museu das grandes novidades". Se comparado aos anos 60 e 70, por exemplo,  a música produzida e gravada nestas décadas soa atemporal e atual, ouvida hoje. Não somente a música mas, também, o design, a moda e a tecnologia como um todo pecam por uma espécie de excesso barroco nos anos 80.





Alguns flashes da "insustentável leveza" dos 80's.



Considerando exclusivamente a música, artistas que, na época, já possuíam carreiras consolidadas e buscaram a adequação aos novos tempos, deram com os burros n'água. A título de ilustração, é consenso, entre a crítica musical, que a pior fase na carreira de mais de meio século de Bob Dylan se deu durante os anos 80 e, também, o que foi produzido por Neil Young e Eric Clapton na mesma época, não desperta amores. 

Bob Dylan - Empire Burlesque 1985
Neil Young - Landing On Water 1986
Eric Clapton - August 1986


Por outro lado, se os anos 80 pecaram por excesso, não pecaram por omissão. Talvez, musicalmente falando, seja a última época a levantar, mesmo na cafonice, nas cores bregas e berrantes, a bandeira da originalidade.

O que vem depois, mesmo com vislumbres de autenticidade é o passado requentado para matar a saudade de quem não esteve lá. Numa palavra gasta pelo uso, reciclagem, até mesmo a dos... anos 80.

O hard rock farofa, rococó, afetado, hedonista, foi suplantado, no início dos anos 90, pelo grunge, quando o álbum Nevermind tomou o 1° lugar na parada Billboard de Michael Jackson, sintomaticamente, o ícone-mor dos anos 80, repetindo o que, há pouco mais de dez anos antes o punk rock tinha feito com os, também barrocos, excessos do rock progressivo.

Hair Metal ou Hard Rock Farofa


Para o rock, os anos 90 foram minimalistas, profetizando a época das vacas magras que a indústria musical, também vítima de seus próprios excessos, viria a enfrentar com a tecnologia digital. O grunge enalteceu a figura do loser, do perdedor. O rock se tornou brocha, emburradinho e a negrada do rap e do hip hop, reivindicou para si o excesso. Ela e o Oasis.

Loser...

e lo$er.

Se o poeta William Blake estava certo quando escreveu que "o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria...

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

READ'N'ROLL

Tão prazeroso quanto ouvir uma boa música é ler um bom texto sobre música. Desde que o rock passou a ser considerado manifestação artística, a figura do crítico adquiriu relevância, chegando, em alguns casos, ao status equivalente aos rockstars. Qualquer um que se julgue, no mínimo, um bom leitor de rock e nunca ouviu falar de Lester Bangs, tem de rever seus conceitos. Pelos lados brasileiros, o espírito provocativo, bem ao estilo punk, sua assumida influência, marcou textos emblemáticos do jornalista André Forastieri.


Lester Bangs
André Forastieri
No fundo, porém, a crítica musical é somente um texto de opinião. Um bom leitor de música não pode ver na crítica uma verdade absoluta, assim como, também, não pode buscar na música uma verdade absoluta.

Aliás, um bom texto sobre música é aquele que desafia qualquer tipo de verdade, afinal, qual o sentido de você ler sobre algo somente para reiterar aquilo que você já sabe? Assim, o bom texto te puxa o tapete, te dá um tapa na cara, te faz passar raiva, te faz rir e, mais importante, te faz ver além do texto, ouvir além da música.

No entanto, não são poucos aqueles que querem ler apenas para confirmar um ponto de vista, cegos e raivosos a qualquer contrariedade. São os mesmos que querem que o seu artista favorito grave, ad infinitum, o mesmo disco, seu favorito. Doutrinação é um porre, venha do púlpito ou do palco. Ausência de mudança é morte.

A propósito, o título de um livro publicado recentemente por André Forastieri é, exatamente, "O Dia Em Que O Rock Morreu", e é muito bom ler o obituário.

O Dia Em Que O Rock Morreu

O rock que foi, em sua essência, inconformismo, desafio, transgressão é, agora, dinossauro fossilizado exposto nos museus a céu aberto que se tornaram os mega festivais. Tudo devidamente seguro; tudo devidamente asséptico. Risco zero. Para que aprendermos uma música nova se já sabemos cantar as velhas?

Rock In Rio 2013

Não é à toa  que uma das principais revistas de Heavy Metal do país começou, de uns tempos para cá, a lamentar, em seus editoriais, a iminência da morte de velhos ídolos, como Lemmy, Ozzy, etc. Não é à toa que o público de Heavy Metal seja um dos mais conservadores do rock. "O rock morreu. Vida longa ao rock".

Nestes estranhos e surreais tempos onde, segundo dizem, o consumidor de música não paga mas, também, não ouve, não seria forçar a barra afirmar que quem escreve sobre música escreve para quem não lê.

Segue abaixo a crítica do disco Líricas, de Zeca Baleiro, escrita por Fábio Bianchini e publicada na revista Bizz, em novembro de 2000:


Líricas -- Zeca Baleiro
"MPBista deixa claro seu intuito a partir da capa

O salário mínimo no Brasil é de 151 reais, um CD custa  em média 20 reais e boa parte das lojas recusa-se a trocar o disco em caso de cliente insatisfeito. Então, ponto para Zeca Baleiro, pois não se via caso tão claro de respeito ao consumidor e determinação em não vender gato por lebre desde a capa do disco de estreia de Wilson Sideral. Afinal todo mundo sabe que Baleiro canta igual ao Pelé, que ele gosta de excursionar com Lenine, Marcos Suzano, Paulinho Moska e Chico César e faz parte da geração da MPB que chegou para garantir que tudo continue igual. Para não haver a menor possibilidade de alguém gastar nesse disco o dinheiro que poderia usar para comprar peças de artesanato em durepóxi ou empanadas de brócolis nas cantinas das faculdades de comunicação e depois se sentir tapeado, Baleiro teve o cuidado de chamar o disco de Líricas e tascar na capa uma foto sua em tom sépia (para dar um ar de antiguidade), olhando para o infinito de modo reflexivo. Quanto à versão de "Proibida Pra Mim (Grazon)" do Charlie Brown Jr, esse não é espaço adequado para analisá-la, pois seria exercício ilegal de medicina. Isso não é caso para crítica musical, é para a psiquiatria."