The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

STRAWBERRY FIELDS FOREVER - THE BEATLES ( TRADUÇÃO)

Strawberry Fields Forever/Penny Lane frente e...

...frente?!!!
A canção Strawberry Fields Forever foi gravada pelos Beatles e lançada, em 1967 como Compacto Simples ou, em inglês, Single.

Compacto Simples é um antigo disquinho de vinil que comportava somente uma música gravada em cada uma de suas faces ou lados. Porém, como o nome em inglês -- que numa tradução livre seria  -- deixa entender, somente o que estaria no lado principal ( o lado A) seria relevante. No lado B sempre era gravado algo apenas para não ficar vazio, geralmente um brinde ao comprador ou uma "encheção de linguiça". 

Strawberry Fields Forever, no entanto, não possui um lado B. No outro lado, também definido como A, está a música Penny Lane, numa clara indicação de que ambas se equivalem. As duas canções são creditadas como composições de Lennon/McCartney, porém, enquanto Penny Lane é criação de Paul, Strawberry Fields Forever é de John. São canções inspiradas nas reminiscências que os dois tinham de suas infâncias em Liverpool e concluídas dentro de um processo de instigação mútua comum entre eles. 

Enquanto Penny Lane rememora uma alameda ( Alameda Penny), Strawberry Fields Forever se refere a um orfanato (Strawberry Fields) cujos terrenos baldios próximos  serviam para as brindeiras da molecada, da qual, Lennon fazia parte. 

Deixe-me levá-la
Pois estou descendo para Strawberry Fields 
Nada é real
E nada como dependurar
Em Strawberry Fields para sempre

Viver de olhos fechados é fácil
Sem entender o que se vê
Vai ficando complicado ser alguém
Mas parece funcionar
E não me importa tanto

Deixe-me levá-la
Pois estou descendo para Strawberry Fields 
Nada é real
E nada como dependurar
Em Strawberry Fields para sempre

Creio que não há ninguém na minha árvore
E isto pode ser bom ou ruim
É que você pode não estar em sintonia
Mas, tudo bem
Não pode ser tão mau

Deixe-me levá-la
Pois estou descendo para Strawberry Fields 
Nada é real
E nada como dependurar
Em Strawberry Fields para sempre

Sempre, não, às vezes, penso que sou eu
Mas você sabe que eu sei quando é sonho
Acho, não, eu quero, não, sim
Mas está tudo errado
E assim acho que discordo

Deixe-me levá-la
Pois estou descendo para Strawberry Fields 
Nada é real
E nada como dependurar
Em Strawberry Fields para sempre
Strawberry Fields para sempre



Os Beatles no cenário do vídeo de Strawberry Fields Forever.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

A MÚSICA NÃO TEM PREÇO OU NÃO VALE NADA?




Historicamente falando, é tradição as pessoas pobres não pagarem pelo consumo da arte, ou podemos acreditar  que pobres camponeses, artesãos ou operários bancaram o gênio de um Michelângelo ou de um Mozart? Agora, às custas da exploração de quem foram edificadas as riquezas que patrocinaram as artes, é outra história. Uma simples equação que se resolvia na seguinte fórmula: nós o estropiamos mas permitimos a você um pouco do bálsamo. Tal tradição começou a ir por terra com o advento da sociedade industrial e seu mercado totalizador, onde tudo se torna passível de compra e venda.

As técnicas de gravação de imagem e som vão dar início à indústria cultural com produção voltada para a massa mas, mesmo assim, sobrevive com o rádio e a televisão, o acesso gratuito à arte, veiculada através destes meios. A quantidade de música disponível nas ondas do rádio, diariamente, estava, infinitamente, além da capacidade de compra do suporte físico ( gravações) dessas músicas por uma pessoa pobre, por exemplo.

Quando as técnicas de gravação se tornaram digitais foi, simplesmente, o inevitável próximo passo. A industria cultural  se lambuzou nas possibilidades de lucro trazidas por tal novidade. Sem custo de produção algum, um número absurdo de catálogos foram ressuscitados e vendidos como o ápice técnico das gravações na era dos CDs. Logo em seguida, o mesmo se deu com imagens gravadas em DVD. Não que isso já não fosse feito antes, na época dos discos de vinil, por exemplo, afinal de contas, é lei do mercado mudar a embalagem para chamar a atenção do comprador. Se como dizem, a indústria fonográfica está morrendo, é sufocada por sua própria ganância. 

O caso brasileiro, por conta de suas condições sócio-econômicas, no que diz respeito ao nosso interesse, o rock, é ainda mais ilustrativo. Quando foi editado no Brasil, em meados da década de 1980, o álbum Empire Burlesque, de Bob Dylan, talvez por conta da significância histórica de sua trajetória como letrista, trouxe, além do encarte com as letras originais, uma folha em papel simples com as traduções das letras para o português, num caso raro de respeito ao consumidor. No mais, este é tratado como se o inglês fosse sua língua mater ou, pior, com o preconceito elitista de que aquilo não é pra quem não pode pagar pelo domínio do inglês. Tal situação só se agravou com a tecnologia digital: as promessas de melhoria foram cobradas mas não foram entregues. Foi alardeada como possibilidade do DVD as opções de qualidade de áudio e legenda, porém o que se viu foi o mesmo descaso com preço maior: CDs sem encartes, documentários e shows em DVD sem legendas. As gravadoras podem alegar,  em seu favor, que tais preocupações encareceriam, ainda mais, o produto final mas este nunca chegou barato ao consumidor.

Uma pessoa pobre, por mais instruída que fosse, compraria, se continuasse pobre -- e a tendência da pobreza é se perpetuar --, ao longo de sua vida, algo em torno de uma centena de gravações musicais analógicas -- os bons e velhos LPs. Isto significa que um pobre, fatalmente, não poderia ter uma noção abrangente da história do rock. O mesmo vale para outro estilo musical qualquer, afinal de contas,  para ver e ouvir é necessário, antes, comer. Por ser difícil, o pouco era muito e aí reside o valor saudosista atribuído às antigas técnicas.

Dizem que as gerações formadas com a tecnologia digital não paga por música porém, o buraco é mais embaixo: as gerações formadas com a tecnologia digital não reconhecem nem têm como reconhecer o valor da música, afinal, ela é jogada em quantidades absurdamente infinitas, "de graça", em suas caras. Todo prazer tem um preço. Sexo e comida gostosa que o digam. Se a música vem grátis, pode ser que ouvir uma boa música esteja deixando de ser um prazer.

Para aqueles que se formaram pagando por uma boa música no formato físico, o mundo digital poderia ser uma mina onde, com um simples teclar, poderiam ser desencavadas "pepitas de ouro". Não é. É só "ouro de tolo". O roubo de uma joia falsa é, ainda, roubo e, aí, existe todo um comércio por trás da própria ideia de roubo e, no final, alguém irá pagar a conta pois, apesar das aparências, tudo tem seu preço.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

BENDITO SEJA O MALDITO

Sérgio Sampaio

André Forastieri afirmou que não existe rock nacional. No muito, continuou, existem trombadas da música brasileira com o rock e numa lista de mil músicas essenciais à história do rock, todas seriam em inglês. Argumento perfeitamente plausível mas, ainda bem, rock não se resume à composição musical em si. Desde os primórdios o sentimento, a pegada ou, em dois termos mais exatos porém desgastados, o feeling e a atitude numa execução musical gravada puseram por terra limites culturais. Seria inocência supor que todos os ouvintes de língua não inglesa compreendessem as palavras cantadas. Entendimento, no entanto, não passa exclusivamente pela linguagem.

Em essência, o rock é porta-voz da insatisfação, da indignação, do inconformismo, do desafio, sentimentos estes universais, tanto no tempo quanto no espaço. Assim sendo, havia rock antes do rock e, se Forastieri estiver mesmo com a razão e o rock morreu, ele vive depois da morte e, porque não, vive, também, no Brasil.

Dizem que o Brasil não tem consciência histórica e não valoriza os seus verdadeiros talentos, o que não deixa de ser uma verdade. Lastimam a falta de reconhecimento público a um grupo de artistas rotulados como "malditos". Na música e, em essência, o rock, por exemplo, temos Itamar Assumpção, Arnaldo Baptista e Sérgio Sampaio. Importante reiterar: rock não se resume a guitarra elétrica, baixo e bateria pois, até louvor a Deus, agora, é feito com esta instrumentação.

Desde a aurora da humanidade, os grupos humanos produziram párias. Na maioria das vezes, funcionaram como antenas receptoras dos medos, traumas, anseios e limites que o grupo deveria experimentar. Experimentavam pelo grupo. Assim foram os xamãs paleolíticos, as pitonisas, os poetas e os filósofos pré-socráticos na antiga Grécia, os santos medievais e os loucos modernos.

Esta é enquanto maldito, a sina de Sérgio Sampaio. Seus quatro álbuns gravados funcionam como uma esponja que absorveu, na música, as mazelas do espírito humano para que o povão pudesse apreciar, incolor, inodoro e insípido, os sucessos populares.

Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua... 1973

Tem Que Acontecer 1976

Sinceramente 1982

Cruel 2006

Não é preconceito elitista, mas a música de Sérgio Sampaio não é para qualquer um, em nome da saúde pública. Saúde pública quer dizer engrenagens encaixadas e produzindo, harmoniosamente. Sérgio Sampaio era sabotador, no sentido etimológico do termo, quando os operários enfiavam saltos de sapato ( sabot, em francês) no mecanismo das máquinas para parar a produção. Sérgio Sampaio era assim, nos pegava no contrapé e escancarava, na nossa cara, a ilusão de sonharmos um sonho que não era nosso. Seu "compadre" Raulzito também fez isso mas usando da fórmula do sucesso e, portanto, sem a mesma contundência.

Nas tradições da antiga Grécia, o aspecto dionisíaco da religiosidade compreendia o drama existencial dilacerando o deus Dionísio que, sempre, deus que era, ressurgia. Isto é, na origem a tragédia, o teatro na Grécia antiga: Dionísio experimentando até as últimas consequências o drama humano para que, no dia seguinte, a comunidade pudesse levantar cedo e cumprir a banalidade de seus afazeres cotidianos.

Não podemos cobrar injustiça do fato de Sérgio Sampaio não ter sido sucesso de massa.  Ele era perigoso demais para tanto. Basta, para ele, a condição dionisíaca do dilema existencial vivenciado até as últimas consequências para que, a cada dia possamos seguir em frente, batendo ponto e construindo sonhos alheios. Para o nosso próprio bem.

A lógica do mercado, na produção industrial, implica que um produto chegue ao número máximo de consumidores, senão, será fracasso comercial. Por outro lado, também na lógica de mercado, existem artigos raros e, por isso, caros. É assim que Sérgio Sampaio deve ser ouvido: como artigo caro, raro e rock, senão, é bom que o rock esteja mesmo morto.

  

Pobre Meu Pai

Sérgio Sampaio

Pobre meu pai
Quatro 
punhos espalhados no ar 
Oito olhos vigiando o quintal
E o meu coração de vidro
Se quebrou
Doido meu pai
Sete bocas mastigando o jantar
Sete loucos entre o bem e o mal
E o meu coração de vidro
Não parou de andar
Pobre meu pai
A marca no meu rosto
É do seu beijo fatal
O que eu levo no bolso
Você não sabe mais
E eu posso dormir tranqüilo
Amanhã, quem sabe?
Hoje, meu pai
Não é uma questão de ordem ou de moral
Eu sei que posso até brincar
O meu carnaval
Mas meu coração é outro
Simples, meu pai
Faça um samba enquanto o bicho não vem
Saia um pouco, ligue o rádio, meu bem
Não ligue, que a morte é certa
Não chore, que a morte é certa
Não brigue, que a morte é certa

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ANOS 80



Dá pra ver os anos 80 de outra galáxia se considerarmos suas características e, entre elas, as musicais. Técnicas de gravação, timbres instrumentais, tecnologia na produção de instrumentos e aspectos da produção do período ficaram extremamente datados e o que havia surgido como a promessa de um futuro surpreendente foi, rapidamente, condenado ao "museu das grandes novidades". Se comparado aos anos 60 e 70, por exemplo,  a música produzida e gravada nestas décadas soa atemporal e atual, ouvida hoje. Não somente a música mas, também, o design, a moda e a tecnologia como um todo pecam por uma espécie de excesso barroco nos anos 80.





Alguns flashes da "insustentável leveza" dos 80's.



Considerando exclusivamente a música, artistas que, na época, já possuíam carreiras consolidadas e buscaram a adequação aos novos tempos, deram com os burros n'água. A título de ilustração, é consenso, entre a crítica musical, que a pior fase na carreira de mais de meio século de Bob Dylan se deu durante os anos 80 e, também, o que foi produzido por Neil Young e Eric Clapton na mesma época, não desperta amores. 

Bob Dylan - Empire Burlesque 1985
Neil Young - Landing On Water 1986
Eric Clapton - August 1986


Por outro lado, se os anos 80 pecaram por excesso, não pecaram por omissão. Talvez, musicalmente falando, seja a última época a levantar, mesmo na cafonice, nas cores bregas e berrantes, a bandeira da originalidade.

O que vem depois, mesmo com vislumbres de autenticidade é o passado requentado para matar a saudade de quem não esteve lá. Numa palavra gasta pelo uso, reciclagem, até mesmo a dos... anos 80.

O hard rock farofa, rococó, afetado, hedonista, foi suplantado, no início dos anos 90, pelo grunge, quando o álbum Nevermind tomou o 1° lugar na parada Billboard de Michael Jackson, sintomaticamente, o ícone-mor dos anos 80, repetindo o que, há pouco mais de dez anos antes o punk rock tinha feito com os, também barrocos, excessos do rock progressivo.

Hair Metal ou Hard Rock Farofa


Para o rock, os anos 90 foram minimalistas, profetizando a época das vacas magras que a indústria musical, também vítima de seus próprios excessos, viria a enfrentar com a tecnologia digital. O grunge enalteceu a figura do loser, do perdedor. O rock se tornou brocha, emburradinho e a negrada do rap e do hip hop, reivindicou para si o excesso. Ela e o Oasis.

Loser...

e lo$er.

Se o poeta William Blake estava certo quando escreveu que "o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria...

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

READ'N'ROLL

Tão prazeroso quanto ouvir uma boa música é ler um bom texto sobre música. Desde que o rock passou a ser considerado manifestação artística, a figura do crítico adquiriu relevância, chegando, em alguns casos, ao status equivalente aos rockstars. Qualquer um que se julgue, no mínimo, um bom leitor de rock e nunca ouviu falar de Lester Bangs, tem de rever seus conceitos. Pelos lados brasileiros, o espírito provocativo, bem ao estilo punk, sua assumida influência, marcou textos emblemáticos do jornalista André Forastieri.


Lester Bangs
André Forastieri
No fundo, porém, a crítica musical é somente um texto de opinião. Um bom leitor de música não pode ver na crítica uma verdade absoluta, assim como, também, não pode buscar na música uma verdade absoluta.

Aliás, um bom texto sobre música é aquele que desafia qualquer tipo de verdade, afinal, qual o sentido de você ler sobre algo somente para reiterar aquilo que você já sabe? Assim, o bom texto te puxa o tapete, te dá um tapa na cara, te faz passar raiva, te faz rir e, mais importante, te faz ver além do texto, ouvir além da música.

No entanto, não são poucos aqueles que querem ler apenas para confirmar um ponto de vista, cegos e raivosos a qualquer contrariedade. São os mesmos que querem que o seu artista favorito grave, ad infinitum, o mesmo disco, seu favorito. Doutrinação é um porre, venha do púlpito ou do palco. Ausência de mudança é morte.

A propósito, o título de um livro publicado recentemente por André Forastieri é, exatamente, "O Dia Em Que O Rock Morreu", e é muito bom ler o obituário.

O Dia Em Que O Rock Morreu

O rock que foi, em sua essência, inconformismo, desafio, transgressão é, agora, dinossauro fossilizado exposto nos museus a céu aberto que se tornaram os mega festivais. Tudo devidamente seguro; tudo devidamente asséptico. Risco zero. Para que aprendermos uma música nova se já sabemos cantar as velhas?

Rock In Rio 2013

Não é à toa  que uma das principais revistas de Heavy Metal do país começou, de uns tempos para cá, a lamentar, em seus editoriais, a iminência da morte de velhos ídolos, como Lemmy, Ozzy, etc. Não é à toa que o público de Heavy Metal seja um dos mais conservadores do rock. "O rock morreu. Vida longa ao rock".

Nestes estranhos e surreais tempos onde, segundo dizem, o consumidor de música não paga mas, também, não ouve, não seria forçar a barra afirmar que quem escreve sobre música escreve para quem não lê.

Segue abaixo a crítica do disco Líricas, de Zeca Baleiro, escrita por Fábio Bianchini e publicada na revista Bizz, em novembro de 2000:


Líricas -- Zeca Baleiro
"MPBista deixa claro seu intuito a partir da capa

O salário mínimo no Brasil é de 151 reais, um CD custa  em média 20 reais e boa parte das lojas recusa-se a trocar o disco em caso de cliente insatisfeito. Então, ponto para Zeca Baleiro, pois não se via caso tão claro de respeito ao consumidor e determinação em não vender gato por lebre desde a capa do disco de estreia de Wilson Sideral. Afinal todo mundo sabe que Baleiro canta igual ao Pelé, que ele gosta de excursionar com Lenine, Marcos Suzano, Paulinho Moska e Chico César e faz parte da geração da MPB que chegou para garantir que tudo continue igual. Para não haver a menor possibilidade de alguém gastar nesse disco o dinheiro que poderia usar para comprar peças de artesanato em durepóxi ou empanadas de brócolis nas cantinas das faculdades de comunicação e depois se sentir tapeado, Baleiro teve o cuidado de chamar o disco de Líricas e tascar na capa uma foto sua em tom sépia (para dar um ar de antiguidade), olhando para o infinito de modo reflexivo. Quanto à versão de "Proibida Pra Mim (Grazon)" do Charlie Brown Jr, esse não é espaço adequado para analisá-la, pois seria exercício ilegal de medicina. Isso não é caso para crítica musical, é para a psiquiatria."  


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

"O ADVENTISTA"

Capa do álbum Viva
O crítico que escreveu, na antiga revista Bizz, a resenha do álbum Viva, registro ao vivo da banda Camisa de Vênus, lançado no ano de 1986, observou que, ao colocar o disco para tocar, ficou com vergonha do próprio filho, tamanha a quantidade de palavrões presentes na gravação. Tais palavrões, aliás, eram responsáveis pela quase que total "proibição de execuções públicas" das faixas do álbum. Na época, eufemismo para uma espécie de "censura parcial": o disco poderia ser lançado e comercializado, porém, não poderia ser veiculado pelos meios de comunicação, como rádio e televisão. Paradoxo típico de um país que havia acabado de sair tortuosamente de uma ditadura militar.

A banda Camisa de Vênus era uma herdeira direta e/ou uma filha bastarda do espírito punk rock que, na segunda metade da década anterior, a partir da Inglaterra, veio para purgar o rock de seus excessos. Líder, ou melhor, mentor intelectual da banda, o vocalista e letrista Marcelo Nova, leitor de Plínio Marcos, sabia muito bem que uma boca suja causava estardalhaço. Verborrágico que só, soltava máximas pelos cotovelos, sem se preocupar muito com concordâncias: é de uma renitência homérica as vezes em que, bem ao espírito punk, narrou o rompimento entre sua banda e a gravadora por causa da inconveniência do nome Camisa de Vênus. Rompimento este, bastante nebuloso, visto que grande parte da obra da banda e de sua carreira solo foi lançada por tal gravadora.

O punk rock veio para, como dito, limpar o rock de seus excessos e uma das consequências foi a eliminação ou o enfraquecimento da barreira entre músicos e plateia, numa espécie de "back to the basics", ou, na máxima punk, "do it yourself": se o que você está ouvindo não te satisfaz, faça você mesmo o que quer ouvir, sem se importar se tem o talento ou o dom para fazer.

Esta espécie de "volta aos princípios" trouxe de volta, para o rock, o lado casca grossa, sem educação, impertinente, desafiante e petulante presente lá nos primórdios do rock'n'roll. A boca suja de Marcelo Nova nada mais era do que a tradução para o Brasil do rock feito na época, assim como seu ídolo Raul Seixas tinha feito dez anos antes. Afinal, os Sex Pistols, a banda que inaugurou o punk rock não teve um contrato rescindido com uma gravadora por ter, pioneiramente, soltado um "foda-se" num programa de televisão? Perdeu o contrato e ganhou evidência. 

Voltando ao álbum Viva, uma música se faz a perfeita ilustração da simbiose entre artista e plateia. A música "O Adventista" em si, não é lá grande coisa. Letra simples e datada por citações da "Nova República" e "Xuxa e Pelé" que, por exemplo, só dizem algo a quem viveu ou estuda a década de 1980.

Porém, por sua sequência na lista de canções, como música de encerramento, O Adventista implica uma atemporalidade contundente, estabelecendo um parâmetro conceitual ao álbum em sua significância histórica. A plateia, que ao longo da execução da canção, vinha cantando junto o refrão "não vai haver amor nesse mundo nunca mais", continua, no final, a repeti-lo, bem ao espírito dos coros nas tragédias da antiga Grécia, com o acompanhamento musical da banda, enquanto o vocalista, num tom de extremo deboche, recita o Pai Nosso. Catarse coletiva.

Se Aristóteles estava certo e a função da tragédia era o descarrego do drama existencial nos espectadores, temos aí a mais clássica arte. Mas, também, temos a realidade católico-cristã encalacrada na "ordem e progresso" e empurrada goela abaixo na molecada dos "anos 80" pega no contrapé. Punk na veia.
Camisa de Vênus "botando pra fuder"

HEARTBREAK HOTEL - ELVIS PRESLEY ( TRADUÇÃO)

Capa do Single Heartbreak Hotel

Dizem que quando Lennon foi informado da morte de Elvis teria dito, com acidez lacônica: "Pra mim, ele morreu quando foi para o Exército". Endossava, assim, a opinião corrente, principalmente entre críticos, que o Elvis relevante para a história do rock só existiu até o fim da década de 1950. O suficiente para ostentar, até hoje, a coroa de Rei do Rock.

Se houve uma coroação, foi no lançamento da música Heartbreak Hotel, em janeiro de 1956. Ali, a rusticidade e o ímpeto interiorano das Sun Sessions receberam o verniz da universalidade, pavimentando o caminho para a conquista mundial. Numa análise fria, a música apresenta os mesmos elementos minimalistas característicos das gravações feitas na Sun Records, porém soa diferente aos ouvidos. A partir dali, era impossível voltar atrás, sob risco de se tornar objeto de museu como muitos dos roqueiros contemporâneos de Elvis, dez anos depois, de fato, já haviam se tornado. E eram ciceroneados por ninguém menos que John Lennon.

Heartbreak Hotel, no entanto, assim como a anterior Blue Moon, paira atemporal em nossos ouvidos, com a singela diferença que a primeira tornou-se um number one hit, enquanto a segunda  é quase um objeto esotérico de culto. Ambas carregam latentes a possibilidade do blues como lamento universal. A possibilidade passará a ser realidade com a geração de roqueiros britânicos na década seguinte.

"HOTEL  DESILUSÃO"

Quando meu bem me deixou
Encontrei um novo lugar para viver
É só descer ao fim da rua Solidão
No Hotel Desilusão
Você me deixou tão só
Estou tão só
Estou tão só que posso morrer

Apesar de lotado
Você pode encontrar um quarto
Aqui onde os amantes desiludidos 
Vêm chorar suas mágoas
Você me deixou tão só
Estou tão só
Estou tão só que posso morrer

As lágrimas do mensageiro continuam caindo
E a mesa do recepcionista está de luto
Estão a tanto tempo na rua Solidão
Que já nem se lembram mais
Você me deixou tão só
Estou tão só
Estou tão só que posso morrer

Se sua garota te deixar
E você tiver uma história pra contar
É só descer  ao fim da rua Solidão
Até o Hotel Desilusão
Você vive tão só
Você está tão
Você vive tão só que pode morrer.