The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

BENDITO SEJA O MALDITO

Sérgio Sampaio

André Forastieri afirmou que não existe rock nacional. No muito, continuou, existem trombadas da música brasileira com o rock e numa lista de mil músicas essenciais à história do rock, todas seriam em inglês. Argumento perfeitamente plausível mas, ainda bem, rock não se resume à composição musical em si. Desde os primórdios o sentimento, a pegada ou, em dois termos mais exatos porém desgastados, o feeling e a atitude numa execução musical gravada puseram por terra limites culturais. Seria inocência supor que todos os ouvintes de língua não inglesa compreendessem as palavras cantadas. Entendimento, no entanto, não passa exclusivamente pela linguagem.

Em essência, o rock é porta-voz da insatisfação, da indignação, do inconformismo, do desafio, sentimentos estes universais, tanto no tempo quanto no espaço. Assim sendo, havia rock antes do rock e, se Forastieri estiver mesmo com a razão e o rock morreu, ele vive depois da morte e, porque não, vive, também, no Brasil.

Dizem que o Brasil não tem consciência histórica e não valoriza os seus verdadeiros talentos, o que não deixa de ser uma verdade. Lastimam a falta de reconhecimento público a um grupo de artistas rotulados como "malditos". Na música e, em essência, o rock, por exemplo, temos Itamar Assumpção, Arnaldo Baptista e Sérgio Sampaio. Importante reiterar: rock não se resume a guitarra elétrica, baixo e bateria pois, até louvor a Deus, agora, é feito com esta instrumentação.

Desde a aurora da humanidade, os grupos humanos produziram párias. Na maioria das vezes, funcionaram como antenas receptoras dos medos, traumas, anseios e limites que o grupo deveria experimentar. Experimentavam pelo grupo. Assim foram os xamãs paleolíticos, as pitonisas, os poetas e os filósofos pré-socráticos na antiga Grécia, os santos medievais e os loucos modernos.

Esta é enquanto maldito, a sina de Sérgio Sampaio. Seus quatro álbuns gravados funcionam como uma esponja que absorveu, na música, as mazelas do espírito humano para que o povão pudesse apreciar, incolor, inodoro e insípido, os sucessos populares.

Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua... 1973

Tem Que Acontecer 1976

Sinceramente 1982

Cruel 2006

Não é preconceito elitista, mas a música de Sérgio Sampaio não é para qualquer um, em nome da saúde pública. Saúde pública quer dizer engrenagens encaixadas e produzindo, harmoniosamente. Sérgio Sampaio era sabotador, no sentido etimológico do termo, quando os operários enfiavam saltos de sapato ( sabot, em francês) no mecanismo das máquinas para parar a produção. Sérgio Sampaio era assim, nos pegava no contrapé e escancarava, na nossa cara, a ilusão de sonharmos um sonho que não era nosso. Seu "compadre" Raulzito também fez isso mas usando da fórmula do sucesso e, portanto, sem a mesma contundência.

Nas tradições da antiga Grécia, o aspecto dionisíaco da religiosidade compreendia o drama existencial dilacerando o deus Dionísio que, sempre, deus que era, ressurgia. Isto é, na origem a tragédia, o teatro na Grécia antiga: Dionísio experimentando até as últimas consequências o drama humano para que, no dia seguinte, a comunidade pudesse levantar cedo e cumprir a banalidade de seus afazeres cotidianos.

Não podemos cobrar injustiça do fato de Sérgio Sampaio não ter sido sucesso de massa.  Ele era perigoso demais para tanto. Basta, para ele, a condição dionisíaca do dilema existencial vivenciado até as últimas consequências para que, a cada dia possamos seguir em frente, batendo ponto e construindo sonhos alheios. Para o nosso próprio bem.

A lógica do mercado, na produção industrial, implica que um produto chegue ao número máximo de consumidores, senão, será fracasso comercial. Por outro lado, também na lógica de mercado, existem artigos raros e, por isso, caros. É assim que Sérgio Sampaio deve ser ouvido: como artigo caro, raro e rock, senão, é bom que o rock esteja mesmo morto.

  

Pobre Meu Pai

Sérgio Sampaio

Pobre meu pai
Quatro 
punhos espalhados no ar 
Oito olhos vigiando o quintal
E o meu coração de vidro
Se quebrou
Doido meu pai
Sete bocas mastigando o jantar
Sete loucos entre o bem e o mal
E o meu coração de vidro
Não parou de andar
Pobre meu pai
A marca no meu rosto
É do seu beijo fatal
O que eu levo no bolso
Você não sabe mais
E eu posso dormir tranqüilo
Amanhã, quem sabe?
Hoje, meu pai
Não é uma questão de ordem ou de moral
Eu sei que posso até brincar
O meu carnaval
Mas meu coração é outro
Simples, meu pai
Faça um samba enquanto o bicho não vem
Saia um pouco, ligue o rádio, meu bem
Não ligue, que a morte é certa
Não chore, que a morte é certa
Não brigue, que a morte é certa

Nenhum comentário:

Postar um comentário