The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

READ'N'ROLL

Tão prazeroso quanto ouvir uma boa música é ler um bom texto sobre música. Desde que o rock passou a ser considerado manifestação artística, a figura do crítico adquiriu relevância, chegando, em alguns casos, ao status equivalente aos rockstars. Qualquer um que se julgue, no mínimo, um bom leitor de rock e nunca ouviu falar de Lester Bangs, tem de rever seus conceitos. Pelos lados brasileiros, o espírito provocativo, bem ao estilo punk, sua assumida influência, marcou textos emblemáticos do jornalista André Forastieri.


Lester Bangs
André Forastieri
No fundo, porém, a crítica musical é somente um texto de opinião. Um bom leitor de música não pode ver na crítica uma verdade absoluta, assim como, também, não pode buscar na música uma verdade absoluta.

Aliás, um bom texto sobre música é aquele que desafia qualquer tipo de verdade, afinal, qual o sentido de você ler sobre algo somente para reiterar aquilo que você já sabe? Assim, o bom texto te puxa o tapete, te dá um tapa na cara, te faz passar raiva, te faz rir e, mais importante, te faz ver além do texto, ouvir além da música.

No entanto, não são poucos aqueles que querem ler apenas para confirmar um ponto de vista, cegos e raivosos a qualquer contrariedade. São os mesmos que querem que o seu artista favorito grave, ad infinitum, o mesmo disco, seu favorito. Doutrinação é um porre, venha do púlpito ou do palco. Ausência de mudança é morte.

A propósito, o título de um livro publicado recentemente por André Forastieri é, exatamente, "O Dia Em Que O Rock Morreu", e é muito bom ler o obituário.

O Dia Em Que O Rock Morreu

O rock que foi, em sua essência, inconformismo, desafio, transgressão é, agora, dinossauro fossilizado exposto nos museus a céu aberto que se tornaram os mega festivais. Tudo devidamente seguro; tudo devidamente asséptico. Risco zero. Para que aprendermos uma música nova se já sabemos cantar as velhas?

Rock In Rio 2013

Não é à toa  que uma das principais revistas de Heavy Metal do país começou, de uns tempos para cá, a lamentar, em seus editoriais, a iminência da morte de velhos ídolos, como Lemmy, Ozzy, etc. Não é à toa que o público de Heavy Metal seja um dos mais conservadores do rock. "O rock morreu. Vida longa ao rock".

Nestes estranhos e surreais tempos onde, segundo dizem, o consumidor de música não paga mas, também, não ouve, não seria forçar a barra afirmar que quem escreve sobre música escreve para quem não lê.

Segue abaixo a crítica do disco Líricas, de Zeca Baleiro, escrita por Fábio Bianchini e publicada na revista Bizz, em novembro de 2000:


Líricas -- Zeca Baleiro
"MPBista deixa claro seu intuito a partir da capa

O salário mínimo no Brasil é de 151 reais, um CD custa  em média 20 reais e boa parte das lojas recusa-se a trocar o disco em caso de cliente insatisfeito. Então, ponto para Zeca Baleiro, pois não se via caso tão claro de respeito ao consumidor e determinação em não vender gato por lebre desde a capa do disco de estreia de Wilson Sideral. Afinal todo mundo sabe que Baleiro canta igual ao Pelé, que ele gosta de excursionar com Lenine, Marcos Suzano, Paulinho Moska e Chico César e faz parte da geração da MPB que chegou para garantir que tudo continue igual. Para não haver a menor possibilidade de alguém gastar nesse disco o dinheiro que poderia usar para comprar peças de artesanato em durepóxi ou empanadas de brócolis nas cantinas das faculdades de comunicação e depois se sentir tapeado, Baleiro teve o cuidado de chamar o disco de Líricas e tascar na capa uma foto sua em tom sépia (para dar um ar de antiguidade), olhando para o infinito de modo reflexivo. Quanto à versão de "Proibida Pra Mim (Grazon)" do Charlie Brown Jr, esse não é espaço adequado para analisá-la, pois seria exercício ilegal de medicina. Isso não é caso para crítica musical, é para a psiquiatria."  


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