The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

FOUR STRONG WINDS - JOHNNY CASH (TRADUÇÃO)

A canção Four Strong Winds foi composta por Ian Tyson no início da década de 1960 e gravada, originalmente, pela dupla folk que ele formava com a esposa Sylvia, no Canadá, no ano de 1963. Em 1978, Neil Young gravou uma versão da canção em seu álbum Comes A Time. Johnny Cash também fez uma belíssima versão, lançada postumamente em A Hundred Highways, o quinto volume de suas American Recordings, em 2006.

Capa do álbum A Hundred Highways

"QUATRO VENTOS FORTES"


Quatro ventos que sopram solitários
Sete mares que correm alto
Todas as coisas que não mudam, aconteça o que acontecer
Se os bons tempos se foram
E sou obrigado a partir
Procurarei por você, pois sempre acabo voltando

Acho que vou pra Alberta
Lá o tempo é bom no outono
E posso trabalhar para uns amigos
Eu ainda espero que você mude de ideia
Se eu lhe pedir mais uma vez
Mas já passamos por isso cem vezes ou mais

Quatro ventos que sopram solitários
Sete mares que correm alto
Todas as coisas que não mudam, aconteça o que acontecer
Se os bons tempos se foram
E sou obrigado a partir
Procurarei por você, pois sempre acabo voltando

Se eu chegar lá antes de começar a nevar
E se tudo der certo
Eu poderia mandar a passagem pra você me encontrar
Mas então seria inverno
E não teria muita coisa pra você fazer
E com certeza o vento estaria soprando gelado lá fora

Quatro ventos que sopram solitários
Sete mares que correm alto
Todas as coisas que não mudam. aconteça o que acontecer
Se os bons tempos se foram
E sou obrigado a partir
Procurarei por você, pois sempre acabo voltando








domingo, 6 de dezembro de 2015

BOB DYLAN - VISIONS OF JOHANNA (TRADUÇÃO)

A canção Visions Of Johanna foi composta e gravada por Bob Dylan no álbum Blonde On Blonde, lançado no ano de 1966.



VISÕES DE JOHANNA

A noite não parece boa para pregar peças enquanto você tenta ficar quieta?
Estamos atolados aqui, embora façamos nosso melhor para negar
E Louise segura um punhado de chuva na mão, tentando desobedecê-la
Luzes piscam no andar de cima, no lado oposto
Neste quarto o aquecedor apenas tosse
O rádio toca baixinho, sintonizado numa estação country
Mas não há nada, absolutamente nada que o desligue
Apenas Louise e seu amante tão entrelaçados
E essas visões de Johanna tomando meu pensamento

No terreno baldio onde as mulheres brincam de cabra-cega com o molho de chaves
As garotas da noite suspiram por fugir no trem D
Podemos ouvir o vigia noturno com sua lanterna
Pergunte a si mesmo se é ele ou  elas que estão loucos
Mas Louise está certa, está perto, é delicada e se parece com o espelho
Mas ela simplesmente deixa claro e certo que Johanna não está aqui
O fantasma da eletricidade uiva nos ossos de sua face
Onde essas visões de Johanna acabaram de tomar meu lugar

O garotinho perdido é muito duro consigo
Ele se gaba de sua miséria, gosta de viver perigosamente
E quando o nome dela é mencionado ele me fala de um beijo de despedida
Ele deve ter muitas amarguras para ser tão inútil
Resmungando futilidades para a parede enquanto estou na sala
Como posso explicar, é difícil lidar com isso
Essas visões de Johanna me fizeram passar a noite em claro

Dentro dos museus o infinito é testado
Vozes em eco dizem que é isso que acaba sendo a salvação
Mas Monalisa teve ter tido seus blues da estrada
Dá para perceber no jeito de seu sorriso
Veja a flor primitiva congelada na parede
Enquanto mulheres de rostos gelatinosos espirram
E aquela de bigode diz: "Jesus, não encontro meus joelhos"
Joias e binóculos pendurados na cabeça da mula
Mas essas visões de Johanna fazem tudo parecer tão cruel

O mascate fala a uma incontável plateia que finge escutar
Ele diz: "Diga o nome de alguém que não é um parasita e eu saio orar por ele"
Mas como Louise sempre diz, você não enxerga muito bem, enxerga?
Enquanto se arruma para ele
E Madonna ainda não foi mostrada
Vemos esta jaula vazia e corroída onde sua capa de palco certa vez flutuou
O violinista põe o pé na estrada
Ele escreve que tudo voltou a ser o que era
Na carroceria de um caminhão de peixe sendo carregado
Enquanto minha consciência explode
A gaita toca as notas principais e a chuva
E essas visões de Johanna são agora tudo o que resta


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

INTERCÂMBIO: O ROCK ENTRE AMERICANOS E INGLESES (E UNS BLUES NO MEIO)

O mestre "Menino Rei do Blues"


Certa vez, perguntaram ao mestre B.B. King se ele não se sentia roubado pelos músicos brancos ingleses da década de 1960, por estes terem se apropriado do  seu blues. Com sua costumeira serenidade, B.B. King respondeu que, muito pelo contrário, se podia sobreviver de sua arte, levá-la aos quatro cantos do mundo e, ainda, se ela havia rompido as barreiras de um gueto cultural, ele só tinha a agradecer a esses músicos ingleses.

De fato, assim como o rock'n'roll da década de 1950, o blues estava, no início da década de 1960, enquanto "produto cultural" norte-americano, estagnado.

Foi a apropriação peculiar que a geração inglesa nascida, às vezes, literalmente, nos escombros da Segunda Grande Guerra fez desses estilos, a responsável por tornar bluesmen como Robert Johnson, Willie Dixon, Howling Wolf, Muddy Waters, John Lee Hooker, o próprio B.B. King e tantos, tantos outros, lendas de renome mundial.

Foi, também, essa mesma geração de músicos a responsável pelo rock'n'roll dos anos 1950 ter se tornado O ROCK, um estilo musical atemporal e aglutinador e, assim, tirá-lo da lista das mudanças passageiras que a juventude, em sua "inconsequência", logo substituiria por outra, vendida como novidade pela indústria cultural norte-americana, através, principalmente, de seus filmes.

50's rockers

No início dos anos 1960, nos Estados Unidos, o rock'n'roll já era tido como uma moda ultrapassada. Um exemplo disso é o fato de que no estado de Minnesota, o jovem Robert Allen Zimmerman, cujo sonho de adolescência era fazer parte da banda de Little Richard, trocou sua guitarra elétrica por um violão, mudou o nome para Bob Dylan, homenageando um academicamente conceituado poeta galês e se tornou o "herói folk" da juventude cabeça das universidades.

Do outro lado do Atlântico, o consumo meio tardio do rock'n'roll pela juventude britânica, associado às particularidades de sua música popular fez surgir uma leva de bandas praticando um estilo musical definido como beat, do qual os Beatles foram os maiores representantes.

E foi no intercâmbio entre esse rock'n'roll britanicamente "revigorado" e a maturidade poética da música folk dylanesca que o rock se manifestou como arte passível de ser levada a sério.

Ao mesmo tempo, uma parcela de músicos britânicos, dos quais o grande expoente foi, sem dúvida, Eric Clapton, tratou o rock que tomava as paradas de sucesso com um certo preconceito puritano, preferindo um estilo que ainda não houvesse se corrompido pelas formas baseadas nas vendagens. Foi aí que o blues norte-americano entrou em cena, fazendo a cabeça de um grupo de músicos que definiram a guitarra elétrica como instrumento peculiar. Para tanto foi essencial a presença de um "exilado cultural" norte-americano, que passou a atender por Jimi Hendrix.

Jimi e Eric

Esse blues amplificado, porém, não era, de todo, novidade. O período musical compreendido entre 1965 e 1966, no qual Bob Dylan, influenciado pela "eletricidade" dos Beatles trouxe, na tradução do título de seu primeiro álbum elétrico (Bringing It All Back Home), "tudo isso de volta para casa", já apontava nessa direção, principalmente se considerarmos as turnês que o músico fez na mesma época, escudado pela banda The Hawks (posteriormente auto-rebatizada The Band), muito bem documentadas no volume 4 da Bootleg Series ("The Royal Albert Hall Concert") e no documentário No Direction Home, dirigido por Martin Scorsese. Porém, Dylan se notabilizou por não esquentar lugar numa característica artística e, em 1966, devido às tensões enfrentadas na estrada e a um acidente motociclístico, ele se recolhe para retornar totalmente remodelado.

Dylan & The Hawks

O som amplificado e distorcido, carregado de elementos blueseiros, no entanto, dará a tônica do rock produzido em fins dos anos 1960 e início dos 1970, sustentado por uma nova figura emblemática: os guitar hero. Estava aí a gênese do hard rock, do heavy metal, do punk rock e do rock progressivo.

60's hippies




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

CREATURE LIVES - MASTODON (TRADUÇÃO)


A canção Creature Lives foi composta pela banda norte-americana Mastodon e gravada pela mesma no álbum The Hunter, lançado em setembro de 2011. É uma espécie de fábula que utiliza a figura de um "Monstro Do Pântano" para ilustrar a intolerância humana com a diferença. Pelo menos, assim a letra pode ser interpretada.

 

A CRIATURA VIVE

Eu vi a criatura cair
No pântano de onde ela estava saindo
Eu ouvi eles rirem e dizerem
"Nunca gostamos mesmo dela"
Eu tentei pedir para eles me ajudarem a pô-la novamente em pé
Eles riram e me disseram
Que o pântano era onde eu deveria estar


A criatura vive
A criatura vive
A criatura vive
A criatura vive



Mastodon



terça-feira, 17 de novembro de 2015

WALKING BLUES - ROBERT JOHNSON (TRADUÇÃO)

A canção Walking Blues foi gravada, no dia 26 de novembro de 1936, em um quarto de hotel, em San Antonio, Texas, pelo lendário bluesman Robert Johnson, segundo os pesquisadores, em dois takes, dos quais, o segundo possui paradeiro desconhecido. Acredita-se que seja uma composição do próprio Robert, mas a tradição musical folclórica se fez com o aproveitamento de estruturas musicais precedentes. Muito provavelmente, Robert aproveitou elementos de músicas e músicos que ouviu não somente nessa, mas em todo o seu repertório musical. O verso onde aparece o termo "movimento Elgin" provavelmente é uma referência à suavidade do barulho da máquina de costura do mesmo nome.

Entre vários artistas, a canção foi gravada por Eric Clapton, no seu bem sucedido MTV Unplugged.

Robert Johnson

O BLUES ANDANTE

Levantei essa manhã
Procurando meus sapatos
Sei que tudo que tenho
É esse velho blues andante
Levantei essa manhã
Procurando meus sapatos
Mas você sabe que tudo o que tenho
É esse velho blues andante

Senhor, me sinto como se tivesse revirado
Minha velha e solitária casa
Levantei de manhã 
E minha pequena Bernice tinha partido
Senhor, me sinto como se tivesse revirado
Minha velha e solitária casa

Eu levantei de manhã
E tudo o que tinha foi embora
Parti de manhã
Vou caminhar sem rumo
Me sinto tão maltratado
Que não ligo se morrer

Partindo esta manhã
Vou andar sem rumo
Tenho sido maltratado
E não ligo se morrer

As pessoas me dizem
Que esse blues aborrecido não é ruim
O mais velho e pior sentimento
Que eu já tive
As pessoas dizem
Que esse blues aborrecido não é ruim
O mais velho e pior sentimento
Que já tive

Ela tem um movimento Elgin
Da cabeça aos pés
E aparece dinheiro aonde quer que vá
Da cabeça aos pés, oh honey,
Senhor, o dinheiro aparece
Aonde quer que ela vá

Capa das "Gravações Completas" de Robert Johnson

sábado, 7 de novembro de 2015

WALK ON THE WATER CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL (TRADUÇÃO)

A canção Walk On The Water, composta pelos irmão Fogerty, está no primeiro e homônimo álbum da banda Creedence Clearwater Revival, lançado no ano de 1968. Foi, também, o lado B do single I Put A Spell On You. Agora se ela conta uma história de assombração ou um encontro com Jesus, ou ambos, é difícil saber.

Capa do álbum Creedence Clearwater Revival
Capa do single I Put A Spell On You


ANDANDO NA ÁGUA


Bem tarde, na noite passada saí pra caminhar
Desci até o rio perto de minha casa
Não pude acreditar no que vi com meus próprios olhos
E juro que não vou mais sair de casa

Eu vi um homem andando na água
Vindo da outra margem em minha direção

Chamando meu nome e dizendo: "Não tenha medo"
Sem pensar, saí em disparada

Não quero ir,
Eu não quero ir

Não, não, não, não, não
Eu não quero ir



sexta-feira, 6 de novembro de 2015

LOST IN TRANSLATION: "RAINY DAY WOMEN # 12 & 35"

Bob Dylan

Se uma pessoa não domina um idioma estrangeiro, dificilmente uma tradução literal dará conta de transmitir, plenamente, a ela as possibilidades de assimilação de uma obra escrita naquele idioma, seja ela um um texto técnico, um tratado filosófico, um romance, um poema ou a letra de uma canção.

Nesse sentido, muitas ideias presentes num determinado idioma não possuem correspondentes noutro e, aí, necessariamente, o tradutor terá de abandonar a literalidade ou, então, coalhar o seu texto com notas de rodapé para evitar que o sentido fique, na expressão inglesa que dá título a este texto, "perdido na tradução". Expressão esta, por sinal, sem correspondente no português, tanto que o filme homônimo de 2003, dirigido por Sofia Coppola recebeu o título nacional de Encontros E Desencontros. Resumindo: toda boa tradução é, na verdade, uma boa versão.

A música Rainy Day Women # 12 & 35 abre o clássico e primeiro álbum duplo do rock Blonde On Blonde, lançado em 1966, por Bob Dylan. Foi também lançada como single, alcançando a segunda posição no Hot 100 revista Billboard.

Capa do single Rainy Day Women # 12 & 35

O livro de Howard Sounes, Dylan, A Biografia, publicado no Brasil em 2002, pela editora Conrad, diz que a gravação da música foi tão ou mais surreal que a própria. Os músicos, em Nashville, abastecidos de álcool e "otras cositas mas" foram convidados a trocar seus instrumentos e o entorpecimento dos sentidos somado à falta de domínio técnico deu um ar de fanfarra desafinada à sonoridade. Ao ouvir, na cabine de som do estúdio, o resultado, um dos músicos sentindo o potencial da faixa comentou com Dylan que quando a música fosse concluída ela ficaria muito boa. Dylan teria respondido: "Como? Ela já está pronta." Isso deixou o tal músico horrorizadamente desnorteado.

O título da canção, literalmente, seria Mulheres Dos Dias Chuvosos Nºs  12 & 35, o qual, aparentemente, não possui conexão alguma com as estrofes e com o refrão da música, dando a impressão de puro e simples nonsense, a exemplo de alguns recursos poéticos que Dylan, desde o álbum Bringing It All Back Home, já vinha lançando mão. Porém, desde cedo, a obra de Dylan está sujeita a interpretações, sendo um prato cheio para os exegetas de plantão, acostumados a "encontrar chifre em cabeça de égua". Dada à comprovada esperteza do compositor, não é de se estranhar que exista mesmo um sentido submerso por trás do título, mas muito provavelmente ele está apenas rindo da nossa cara.

As estrofes da canção apresentam uma espécie de ladainha iniciada com as palavras they'll stone ya, o que, literalmente, seria algo como "eles te chaparão", visto que o verbo to stone é gíria norte-americana para o verbo "drogar". Ao mesmo tempo, faz trocadilho e duplo sentido com o ato de "apedrejar", manifestação, desde épocas bíblicas, de julgamento social.

Assim, nas estrofes, "eles te chaparão/apedrejarão quando você tentar ser bom, (...) quando você tentar ir pra casa, (...), quando você estiver caminhando, (...) quando você for jovem e capaz, (...) quando tentar 'descolar uma grana', (...) quando estiver dirigindo, (...) quando estiver tocando violão, (...) quando for corajoso e (por fim) quando for pra cova." Subentende-se que o "eles" são, na verdade, o moralismo e os "bons costumes" presentes, em qualquer organização social, para a manutenção de uma ordem, explorada em prol das lideranças às custas do sacrifício da "base social", "dopada" pelos mesmos.

É, então, revelada, no refrão, a hipocrisia sobre a qual se assentam a moral e os bons costumes que, por um lado, condenam a iniciativa do uso de drogas mas, por outro lado, entorpecem. Qual será a pior droga? O refrão deixa a "pulga atrás da orelha" do ouvinte:

"Mas eu não me sentiria totalmente sozinho
Todos devem ser/estar chapados/apedrejados."

Dessa forma, é amarrado, com maestria, o conceito lírico ao sonoro, afinal, "a fanfarra desafinada" que faz a base pra o vocal é a trilha sonora da consciência alterada, tão chapada que não sabe mais qual é a droga real e nem quem é "careta" ou "doidão".

O verso "Não sermos literais às vezes faz nossa beleza", escrito por Humberto Gessinger, resume o sentimento de quando, numa tradução, sofremos um certo desapontamento com uma canção em inglês, pois esta não é Ciência Exata e de um idioma para outro, muita coisa "fica no caminho", expressão que, no português, é uma boa versão para "lost in translation".



Observação: Texto escrito originalmente para o site Whiplash.net.




  

terça-feira, 27 de outubro de 2015

BOB DYLAN: "ELOGIO À TRAIÇÃO"

Dylan
Dylan em meados dos anos 1960

Um dos artistas mais "pirateados" da história, desde o início da década de 1990, Bob Dylan resolveu se "auto-piratear", lançando álbuns com gravações até então não aproveitadas em seus discos oficiais. É a famigerada Bootleg Series que, do ano de 1991 para cá, possui 11 volumes lançados.

No início de novembro de 2015 será lançado The Cutting Edge, o volume 12, abordando aquele que é considerado, por especialistas, o período áureo na trajetória artística de Mr. Zimmerman, ou seja, as gravações realizadas entre 1965 e 1966, quando foram lançados os álbuns Bringing It All Back Home (1965), Highway 61 Revisited (1965) e Blonde On Blonde (1966), todos ostentando, com o passar do tempo, a condição de "clássicos".

Bringing It All Back Home

Highway 61 Revisited

Blonde On Blonde

Na época, Bob Dylan abandonou a zona de conforto conquistada com seus quatro primeiros álbuns, baseados num minimalismo folk com letras que podiam ser interpretadas como "protesto", consideradas, inclusive por poetas renomados, exemplo de poesia, o que acabou lhe rendendo a condição de "voz de sua geração".

Contaminado pela influência do movimento musical chamado "Invasão Britânica", particularmente pela música dos Beatles, Bob Dylan abraçou a eletricidade do rock'n'roll, criando um som bastante carregado em nuances do Blues de Chicago como base para letras remetendo às estéticas simbolista, dadaísta e surrealista de poesia.

Tudo isso, somado ao abandono da imagem de simplicidade proletária da fase folk em prol de uma excentricidade rockstar fez Dylan ser considerado um "herege" pela puritana comunidade da música folk  norte-americana, rendendo-lhe a alcunha de "traidor". 

O fato é que, mesmo dentro da suposta simplicidade de seus primeiros álbuns, era complicado rotular o trabalho de Bob Dylan com base num maniqueísmo simplório bem contra mal.

Na adolescência, o sonho do jovem Zimmerman era se juntar à banda de Little Richard e, parafraseando o título de seu primeiro álbum com elementos rockeiros, Dylan trazia "tudo isso de volta pra casa", isto é, mostrava que o rock podia, novamente, desafiar o marasmo cultural das paradas de sucesso norte-americanas, revigorando um estilo musical que, independente da presença das bandas inglesas, havia se estagnado em solo pátrio, na virada da década de 1950 para a de 1960.

Como é comum nos volumes das Bootleg Series, muito provavelmente aquilo que foi "descarte" na produção artística  da época deve se fazer, ainda hoje, exemplo de uma arte que passa longe do comodismo.

Bootleg Series Vol. 12: 1965-1966 The Cutting Edge...

The Cutting Edge, assim como os outros volumes da Bootleg Series terá a imprescindível Deluxe Edition para arrancar babas e dólares dos aficionados por um artista que, até hoje, não se furta em "trair" a grandiosidade de suas conquistas em nome do desafio. Rock até o talo.

...em todo seu esplendor.

Notas:

O título Elogio À Traição foi roubado da peça teatral homônima escrita por Chico Buarque e Ruy Guerra na década de 1970.

O texto acima foi escrito originalmente para o site Whiplash.net.


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

CAPAS CLÁSSICAS

Surfer Rosa - Pixies (1988)

Uma dançarina de flamenco em topless numa cena carregada de simbolismo religioso sintetizou com maestria o clima musical da banda, com referências bíblicas, espanhol de turista americano se esbaldando na fronteira mexicana e a sensualidade no limite entre a luxúria e o pecado. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

THE BEATLES: PAUL E O HOFNER 500/1

O impacto visual sempre foi numa característica marcante na história do rock. Sendo assim, é comum a busca por uma imagem original , que destaque um artista ou uma banda em relação aos demais.

Os beatles são um claro exemplo do cuidado profissional e empresarial relacionado aos aspectos visuais, principalmente após o empresariamento de Brian Epstein. Assim, gradativamente, foi abandonada a imagem casca-grossa derivada da influência dos roqueiros pioneiros dos anos 1950, em favor da imagem limpa do terninho e gravata e do corte de cabelo que remetia a uma pureza infantil.

The Beatles: antes...

... e depois.

Os Beatles também tiveram o cuidado de vincular sua imagem ao uso de determinados instrumentos musicais. A guitarra Fender Stratocaster, por exemplo, apesar de sua exímia funcionalidade, era evitada por ser associada aos conterrâneos do The Shadows, ao menos em fotos promocionais e nos concertos, sendo, porém, em certas ocasiões, utilizada no estúdio.

Um dos fortes apelos visuais dos Beatles é o contrabaixo com  corpo em forma de violino, utilizado por Paul McCartney não somente durante a  existência da banda, mas até os dias atuais.

Paul e seu amigo inseparável.

É sabido, ao menos para os que acompanham a história da banda, que Paul não foi o baixista original dos Beatles. Ele assumiu o instrumento que, antes, era de Stu Sutcliffe, o qual, segundo consta, ocupava o posto mais por ser amigo ( de acordo com as más línguas, até mais que amigo) de Lennon, que acreditava ser mais importante para a banda a "boa pinta" do amigo que sua capacidade instrumental, propriamente dita.

George, Stu e John ( da esquerda para a direita)

Conforme a banda progredia, as limitações de Stu se tornavam mais evidentes, o que fez ele acabar se dedicando ao seu verdadeiro talento: as artes plásticas, deixando o posto de contrabaixista para Paul pois, segundo o próprio, ninguém mais o quis, por ser o instrumento menos glamouroso em uma banda de rock.

No início, Paul tocou com o baixo de Stu emprestado (um Hofner "classudo", como pode ser observado na imagem acima), mas acabou optando por um outro modelo Hofner, o 500/1, já que era mais simétrico, compensando o fato dele ser canhoto e, principalmente, mais barato. No entanto, de acordo com  o próprio McCartney, era um "verdadeiro pedaço de pau, onde se produzia um som decente com muita dificuldade.

Hofner 500/1 Modelo 1961
Com isso, Paul criou uma nova identidade para o novo baixista dos Beatles e conforme a banda ia conquistando evidência, a fábrica alemã tinha seu modelo promovido e, assim, realizou algumas melhorias nos novos modelos que foram dados de presente ao seu maior garoto propaganda.

Hofner 500/1 Modelo 1962

Hofner 500/1 Modelo 1964

Fontes:

MILES, Barry. Paul McCartney: Many Years From Now. São Paulo: DBA, 2000.

SOUNES, Howard. Fab: A Intimidade de Paul McCartney. Rio de Janeiro: Best Seller, 2011.

The Beatles: 50 Anos Da Melhor Banda De Todos Os Tempos. Discovery Publicações.

Observação: O texto acima foi escrito originalmente para o site Whiplash.net.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

CÁSSIA ELLER: REGISTRO CASEIRO DA CANTORA EM SEUS PRIMÓRDIOS

É lançado, pela gravadora Coqueiro Verde, um conjunto de gravações caseiras de Cássia Eller, realizadas na cidade de Brasília, no final do ano de 1983, bem antes do início de sua trajetória discográfica.


Antes de, em 1990, gravar seu primeiro álbum, a cantora Cássia Eller já era dona de toda uma trajetória artística. Apesar disso, seus dois primeiros álbuns são uma espécie de busca do seu legítimo lugar na música nacional, definido no disco Cássia Eller, lançado em 1994. Aí se tem a sua marca registrada: uma intérprete transitando entre o Rock e a MPB, porém, sempre com uma pegada rockeira sobressaindo em suas interpretações. 

O Espírito Do Som Vol. 1 Segredo - Cássia Eller Em Brasília é uma espécie de rascunho da Cássia Eller conhecida. São gravações caseiras realizadas em Brasília, bem antes do início de sua trajetória discográfica oficial e, assim, tem um apelo muito grande para os fãs que gostam de colecionar tudo do seu artista preferido.

E, como rascunho, o que há de melhor nas gravações foi aprimorado em seus álbuns oficiais e lapidado em suas experiências de palco. É só comparar a versão de Golden Slumbers daqui com a que Cássia gravou para  o DVD Submarino Verde E Amarelo. Além de Golden Slumbers, o gosto da cantora pelos Beatles também se manifesta em versões de For No One e Happiness Is A Warm Gun.

A bela versão de Sua Estupidez, de Roberto e Erasmo ao lado de Segredo, de Luiz Melodia e de Ne Me Quitte Pas, do cancioneiro francês poderia indicar um conjunto esquizofrênico, no entanto, são todas vergadas pela forte personalidade artística de Cássia e, assim, há coesão no conjunto de canções.

Há, ainda, a gravação de Flor Do Sol composição de Cássia. A cantora ainda gravaria suas raras composições nos dois primeiros discos, abandonando, em seguida, o costume.

O fato de as gravações serem apenas voz e violão somado à voz ainda "verde" da cantora, a qual, em algumas canções, padece de um vibrato estridente transmite um certo ar monótono ao álbum (o álbum O Lado Do Avesso, também em voz e violão, gravado bem depois, descontando os aspectos técnicos da gravação, escancara a evolução artística de Cássia), o que não quer dizer que não vale a pena ouvi-lo, principalmente se se for uma admirador do trabalho da artista, ainda mais nesses tempos onde uma tal de Maria Gadú é saudada como "a nova Cássia Eller". O álbum ajuda a por as coisas em seu devido lugar.

Cássia Eller: "retrato da artista quando jovem"

terça-feira, 8 de setembro de 2015

"KRIG-HA, BANDOLO!": O "MARCO ZERO" DO ROCK NACIONAL

Em 1973 Raul Seixas lançava seu primeiro álbum solo, misturando, com uma sagacidade absurda ritmos nordestinos ao rock, bem como conceitos filosóficos à linguagem popularesca, além de camuflar uma contestação ácida num suposto texto nonsense, atingindo um resultado artístico que é, até hoje, referência.

 

Se existe um rock nacional, este é o seu "marco zero". Mas Os Mutantes e a turma da Tropicália já não haviam misturado ritmos nacionais com o rock? Sim, claro, porém, tal mistura, na Tropicália, possui um ranço intelectualóide, como o de cientistas num laboratório fazendo experimentos, enquanto que, aqui, quase não se pode falar de mistura pois os ritmos nacionais  estão tão amalgamados ao rock que é difícil saber onde começa um e termina o outro.

Aqui, também, o conceito de protesto não abre concessão. Senão, vejamos: o álbum abre com uma gravação caseira de Raul criança, na base da empolgação, esgoelando uma versão de Good Rocking' Tonight. De repente, o inusitado: a roda de capoeira de Mosca Na Sopa. O que é que, na história nacional, foi mais incômodo para a elite dominante que a afirmação cultural negra? Qual é a melhor metáfora para o descontrole social, além de qualquer credo, ideologia ou partidarismo senão a de uma mosca? Fora uma meia dúzia de gatos pingados que, no "milagre brasileiro", tiveram o privilégio de uma formação universitária e, consequentemente, ideológica, o povão estava ao "Deus dará", caindo e se levantando como mosca, alheio a qualquer liderança.

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores, de Geraldo Vandré era, direta e objetivamente, uma canção de protesto, mas padece de um enfado "hippongo" e, pior, não mascara o ressentimento típico da esquerda em não poder ser o que a direita é: vamos livrar a sociedade da opressão errada e instaurar a opressão correta.

Metamorfose Ambulante não deixa dúvida. Se havia algum pedaço de dogmatismo, crença ou convicção se aguentando ele, agora, vai por terra. É a liberdade individual da transformação através do conhecimento posta como bem supremo e inalienável do ser humano.

Dentadura Postiça e As Minas Do Rei Salomão dão uma baixada na bola e trazem o embrião do "misticismo para as paradas de sucesso" que, juntamente com Paulo Coelho, será melhor explorado no álbum Gita. Dizem que o título da primeira é um trocadilho com "ditadura". Se for, das duas uma: ou a ditadura da época não era tão feia como se pinta ou era burra pacas. Isso sem contar que a versão para As Mina Do Rei Salomão presente no álbum Há 10 Mil Anos Atrás tem muito mais punch.

Num clima de trilha sonora para uma ficção científica interplanetária da época, A Hora Do Trem Passar é uma canção de despedida, onde o fascínio e o terror do desconhecido, presentes em qualquer partida é a promessa de viagens a outros mundos. Tudo isso embalado num lirismo de doer.

Al Capone, em sua levada "hendrixiana" e largadona, brinca com mitos históricos (inclusive o próprio Hendrix!) e com as limitações espaço/temporais.

How Could I Know?, uma tocante balada sobre o despertar e a afirmação da individualidade encerra com o dilema da história eleger como mártir os corajosos, numa espécie de complemento sério à brincalhona Al Capone.

Rockixe é uma Mosca Na Sopa despida da fábula e reforça a postura "egoísta" (no sentido filosófico de engrandecimento e valorização do "eu") tão cara a Raul Seixas durante a década de 1970, enquanto Cachorro-Urubu seria o outro lado da moeda, enaltecendo a força da coletividade, com referências às movimentações estudantis que partiram da França de 1968. Coisas da metamorfose ambulante.

Por último, Ouro De Tolo. Talvez, juntamente com algumas canções de Zé Ramalho, a mais perfeita tradução do espírito "dylanesco" de composição para o cancioneiro nacional. Na lírica (letras) é, também a mais direta e o que, no restante do álbum, se insinuava  é, aqui, escancarado: uma exímia "puxada de tapete" na perfeição do  mundinho classe média que, em seus pequenos confortos escondia grandes lavagens cerebrais. 

O instrumental dispensa comentários pois, qualquer um que conheça um pouco da carreira do "Maluco Beleza" sabe que, antes de cantor de sucesso, ele foi produtor musical e, assim sendo, dominava a técnica de tornar viável e convincente qualquer estilo musical para o ouvido consumidor. Assim, o "desleixo", a "espontaneidade", a gana, a pegada e a atitude por trás de cada canção foram cuidadosamente planejados, tanto que muitas vezes os especialistas no assunto subestimaram o executor. Algo que não ocorreu à Tropicália que, a propósito, pactuava intencionalmente com os conceitos antropofágicos de Oswald de Andrade: "a massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico." Será que o povão consumiu a Tropicália como consumiu Raulzito?

Raulzito
   

terça-feira, 11 de agosto de 2015

BANDA RENEGADOS: UM BELO, GRANDE E NECESSÁRIO ÁLBUM

Da cidade de Fortaleza, a banda Renegados lançou, de maneira independente, no ano de 2013, o álbum Além Dos Rótulos, baseado no mais puro Classic Rock setentista.

 

Classic Rock é a maneira encontrada por especialistas para catalogar o estilo de rock praticado por bandas, tanto norte-americanas quanto inglesas, entre o final dos anos 1960 e a década de 1970. Jimi Hendrix Experience, Cream, The Who, Grand Funk Railroad, Creedence Clearwater Revival, Deep Purple, Led Zeppelin, entre muitos, muitos outros, são alguns exemplos. Se tornaram "clássicos do rock" com o passar do tempo. O que se convencionou chamar Classic Rock é, entre os íntimos, também definido como "o bom e velho rock'n'roll".

A formação instrumental básica no estilo é chamada de power trio, ou seja, guitarra, baixo e bateria. Oriunda do Ceará, a banda Renegados é um power trio, formada por Marcelo Renegado (guitarra e vocal), Ricardo Pinheiro (bateria e voz) e Romualdo Bass (contrabaixo), cuja sonoridade é fortemente influenciada pelo Classic Rock. É aquele "rockão antigo", bluesy, encorpado e alicerçado em riffs de guitarra e baixo sustentados por uma bateria timbrada "no couro", como dizem os entendidos. Por suas raízes nordestinas, a sonoridade da banda remete, também, ao grupo O Peso e aos momentos mais roqueiros do Raul Seixas setentista. Podemos, ainda, perceber certa influência, principalmente nos momentos com ênfase acústica, da geração nordestina dos anos 1970, responsável por mesclar ritmos regionais ao rock, da qual fez parte Zé Ramalho, Belchior, Alceu Valença e Fagner.

O álbum Além Dos Rótulos, lançado na cara e na coragem pela banda, isto é, de maneira independente, no ano de 2013, é a síntese perfeita de todos os elementos apontados acima, embalado numa linda capa que contextualiza (ou conceitualiza) o nome do trio: o close nas mãos de alguém queimando sua carteira de identidade, numa afirmação de sua condição de "renegado".

As letras equilibram-se entre temas "líricos" e a crítica sócio-política onde o estilo se faz, também vintage, lembrando, em muito, as "letras de protesto" da época da ditadura militar. Há um frescor inocente nas denúncias de injustiça social, principalmente se considerarmos que, da década de 1970 para cá, muita água passou por debaixo da ponte e os problemas permanecem, agora sob a tutela de quem os denunciava. Inocência de uma ideologia que não sucumbiu à descrença nas possibilidades de mudança.

É, também, com uma certa inocência, abordada a questão do imperialismo estadunidense na música Iraque (A Invasão) onde é simplificada, de maneira maniqueísta, através da representação despótica de George Bush e Tony Blair, a complexidade de nuances que mascaram os interesses envolvidos num conflito militar, inclusive no que diz respeito à liberdade individual, com a qual o rock está intimamente associado e que, fatalmente, entra em xeque toda vez que o sistema capitalista é contestado por lideranças fundamentalistas. Porém, subentende-se que o alvo maior da crítica, na música, é a manipulação maquiavélica da população por seus líderes, em prol de seus escusos interesses.

A canção Meiga Tempestade, um número instrumental com momentos de explosões flamencas, encerra uma singela beleza e convence nossos ouvidos de que um adjetivo (Meiga) e um substantivo (Tempestade), aparentemente excludentes, nasceram um para o outro, sem a necessidade de uma única palavra!

Poderíamos, aqui, tentar definir para o leitor todas as canções, porém, nunca faríamos jus ao ato de ouvi-las. Corra atrás. Um belo, grande e necessário álbum para todos nós, amantes do bom e velho rock'n'roll, representando uma arte que se desvanece.

Banda Renegados.


terça-feira, 28 de julho de 2015

TOP 10: A ESTÉTICA DO MAU GOSTO EM CAPAS DE DISCOS NACIONAIS

O mau gosto, às vezes, pode ser opção estética consciente do artista, como forma de causar impacto no expectador. Às vezes, pode ser, pura e simplesmente, a boa e velha falta de noção. Segue abaixo, uma lista, em ordem cronológica, com dez capas de álbuns nacionais que desafiam nosso senso de apreciação artística. Antes, porém, é importante observar que, em alguns casos, a arte gráfica de um álbum pode ter sido feita à revelia do artista que o gravou.

1. ARAÇÁ AZUL - CAETANO VELOSO (1973)


2. SECOS & MOLHADOS - SECOS & MOLHADOS (1973)


3. TODOS OS OLHOS - TOM ZÉ (1973)


4. LOKI? - ARNALDO BAPTISTA (1974)



5. DESCANSE EM PAZ - RATOS DE PORÃO (1986)



6. CALANGO - SKANK (1994)


7. O AMOR ME ESCOLHEU - PAULO RICARDO (1997)

[Paulo+Ricardo,+1997,+O+Amor+Me+Escolheu,+Front.JPG]

8. BOCAS ORDINÁRIAS - CHARLIE BROWN JR. (2002)

 

9. INNER MONSTER OUT - SHADOWSIDE (2011)


10. INSULAR - HUMBERTO GESSINGER (2013)

sábado, 25 de julho de 2015

VESPAS MANDARINAS: POESIA CONTRA A ANEMIA

Uma das gratas surpresas do rock nacional nos últimos anos, a banda Vespas Mandarinas tem lançado, em 2015, DVD com show baseado em seu álbum de estreia Animal Nacional, no qual a temática e o enfoque das letras desafiam o marasmo e o lugar comum num rock direto e urgente. 


VESPAS MANDARINAS - ANIMAL NACIONAL (AO VIVO)

A banda Vespas Mandarinas, quando do seu surgimento, despontou como possibilidade de livrar o rock nacional do estado anêmico que, há décadas, o avassala, principalmente em relação à sua condição midiática.

Idealizada pelos guitarristas-vocalistas Thadeu Meneghini, que tocou no trio Banzé! e Chuck Hipolitho, do Forgothen Boys, a banda foi definida com a entrada do baterista André Dea e do baixista Flavio Guarnieri. Depois de aparar as arestas em dois EPs, lançaram, em 2013, Animal Nacional, o ótimo primeiro álbum, que é a base deste DVD, gravado, também em 2013, no Centro Cultural de São Paulo e lançado agora.

O palco no nível e em meio à plateia, as imagens captadas abusando da super e subexposição de luz e a iluminação simples realçam, e dão peso, às características sonoras da banda: um rock curto, grosso e urgente em sua sonoridade, com claras influências "garageiras".

As letras, no entanto, são realmente o diferencial da banda. Muitas vezes os integrantes afirmaram ter como parâmetro os "grandes letristas" do rock nacional dos anos 1980, fato endossado nas parcerias entre eles e Bernardo Vilhena (antigo letrista de Ritchie e Lobão, entre outros), e entre eles e Arnaldo Antunes.

Porém, longe da veneração e da reciclagem, comuns nesses casos, as letras das Vespas Mandarinas trazem a "relevância poética" normalmente associada àquela época para a realidade atual.

Assim, a mediocridade que, muitas vezes, norteia nossas atitudes cotidianas é pega de calça na mão em versos de extrema beleza e exatos, em cada uma de suas letras, valorizando o tempo do espectador como único, sem necessidade de uma segunda chance.

Um exemplo é a tocante balada Distraídos Venceremos, cujo título foi "roubado" de um livro do poeta paranaense Paulo Leminski:

"Sinto muito se é mais triste a verdade
Cedo ou tarde, se chega a essa conclusão
O herói é o último na fila dos covardes
Aquele a quem não restou outra opção

Cuidado ao matar seus demônios
O equilíbrio vive entre a virtude e o vício
E a gente nunca sabe qual é o defeito
Que sustenta esse nosso edifício

E a gente chora, em segredo, mais por prazer que pela dor
E a gente grita porque, às vezes, o silêncio é mais ensurdecedor

Nas rugas que trago do berço
Não há passado nem tampouco futuro
Assim como em todo Universo
Até mesmo o Sol tem o seu lado escuro

Aqui onde nascemos
Pensamos, sofremos
Criamos, sabemos
Sonhamos,  fazemos
Cagamos, vivemos
Amamos, fudemos 
Provamos que mais é menos

As letras das Vespas Mandarinas, em sua grande maioria, são da autoria de Adalberto Rabelo, uma espécie de "quinta vespa", parceiro de Thadeu desde a época do Banzé!. A propósito, ele participa fazendo vocal em algumas delas, bem como a banda baiana Vivendo Do Ócio, que reforça os vocais de O Herói Devolvido.

No aspecto sonoro é, ainda, digna de observação a textura das guitarras que, ao longo das músicas, vão se entrelaçando harmonicamente numa "simplicidade" que chega a ser revigorante, diante dos "malmsteens nossos de cada dia". Se o rock nacional ainda não saiu de seu estado anêmico, a culpa não é das Vespas.

E por falar em guitarra, fechando o show, há a participação do Edgar Scandurra em três (!) covers de sua banda, o Ira!, influência confessa das Vespas. Aqui cabe o único senão do DVD. Uma das fraquezas do rock brasileiro é a falta de espaço para o trabalho autoral. Talvez, se os "covers" estivessem distribuídos ao longo do show, já que o repertório da banda é curto, fosse diferente, mas a impressão que fica é a de que "estava indo tão bem", ainda mais se levarmos em conta que o repertório próprio não fica devendo nada para as músicas da banda do Edgar.

O ataque das Vespas.




segunda-feira, 20 de julho de 2015

H.R. GIGER: DE CELTIC FROST AOS DEAD KENNEDYS, UMA ARTE PARA O ROCK

H.R. Giger

O artista plástico suíço H.R. Giger (1940-2014), além de ter sido o criador do monstro alienígena do filme Alien, O Oitavo Passageiro esteve, desde a década de 1970, ligado ao mundo do rock. É dele a pintura que estampa a capa do álbum Brain Salad Surgery, do grupo progressivo Emerson, Lake & Palmer.

Capa de Brain Salad Surgery

Também é de H.R. Giger a pintura da capa do segundo álbum da banda suíça Celtic Frost, To Mega Therion, intitulada Satan I. A respeito, o líder da banda, Tom Warrior, disse ser Giger, apesar de já ter um nome de relevância internacional na época, meados dos anos 1980, humilde e atencioso para com uma banda que trilhava os caminhos do underground. A simpatia e colaboração permaneceu na outra banda de Warrior, Trypticon, onde obras de Giger ilustram os dois álbuns lançados até agora: Eparistera Daimones (2010) e Melana Chasmata (2014).

Celtic Frost - To Mega Therion

Trypticon - Eparistera Daimones

Trypticon - Melana Chasmata

Assim como o Celtic Frost foi pioneiro nas vertentes mais agressivas do Heavy Metal, catalogadas sob o rótulo "Metal Extremo", a banda norte-americana de punk rock Dead Kennedys foi, também, uma das pioneiras de uma das vertentes mais agressivas do punk rock, o hardcore. Seu disco de estreia, Fresh Fruit From Rotting Vegetables, lançado em 1980, é considerado um clássico, não somente do punk rock, mas da história do rock como um todo. Nele, os anos difíceis e conservadores da chamada "Era Reagan" são massacrados impiedosamente por um cinismo avassalador e um senso de humor macabro. 

Dead Kennedys

Porém, foi com seu terceiro álbum, chamado Frankenchrist, lançado em 1985 e cujo conteúdo artístico é tido como inferior, que os Dead Kennedys desencadearam uma reação acirrada do moralismo vigente. O motivo: o encarte do álbum, uma obra de H.R. Giger intitulada Landscape # XX, apelidada, por causa das figuras retratadas (órgãos sexuais masculinos e femininos "harmonicamente sequenciados") , de Penis Landscape, ou seja, "Paisagem de Pênis".

Landscape # XX

Por causa da arte de H.R. Giger, encartada no álbum, a banda foi envolvida num processo judicial com mais de 6 anos de duração, acusada de vender pornografia para menores.

Apesar de, no final do processo, este não ter dado em nada e a Primeira Emenda da Constituição estadunidense ( a que garante a liberdade de expressão) ter falado mais alto, a banda e sua gravadora, a Alternative Tentacles, estavam psicológica e economicamente abaladas.

O processo movido contra os Dead Kennedys fez parte da ação perpetrada por esposas de congressistas norte-americanos contra astros da música, particularmente de rock, visando controlar qualquer manifestação artística que, supostamente, viesse ofender a moral e os bons costumes. Envolvendo artistas que vão de Prince a Frank Zappa, em audições processuais lembrando os Tribunais do Santo Ofício, o resultado foi aquele famigerado "selinho" que passou a estampar as capas de álbuns considerados ofensivos com a advertência contra "conteúdos explícitos", o qual, na verdade, mais atrai que rechaça.