The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"MIDNIGHT SPECIAL"

Capa do álbum Willy And The Poor Boys

A canção Midnight Special, gravada pela banda Creedence Clearwater Revival, no álbum Willy And The Poor Boys, no ano de 1969, é uma canção folclórica norte-americana que, por causa de um equívoco do folclorista Alan Lomax, foi, durante muito tempo, atribuída ao bluesman Huddie Leadbelly.

As origens da canção remontam às prisões do Sul dos Estados Unidos no início do século XX e, como toda obra da tradição oral, sofreu transformações até ser finalmente registrada. Midnight Special já havia sido gravada antes de, no ano de 1934, os irmãos Alan e John Lomax, gravarem, na prisão de Angola, na Louisiana, a versão de Leadbelly.

A versão gravada pelo Creedence é baseada na de Leadbelly que, como peculiaridade, traz versos remetendo à experiência pessoal do velho Huddie, freguês assíduo, durante grande parte da vida, das penitenciárias, o que não o exime de ser um dos principais esteios de toda a tradição musical estadunidense.

Leadbelly fichado.


O Midnight Special do título e do refrão da canção é um trem que, pelo nome, deve chegar ou partir à meia-noite. Para a tradição carcerária, no entanto, sua luz é um símbolo para a liberdade em meio à escuridão da prisão: 

"Deixe o Especial da Meia-noite
Brilhar sua luz em mim
Deixe o Especial da Meia-noite
Brilhar sua sempre amável luz sobre mim".

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

GRETSCH G6199 "BILLY-BO" JUPITER THUNDERBIRD


Gretsch G6199 "Billy-Bo" Jupiter Thunderbird

É comum guitarristas de rock, geralmente como forma de causar impacto, usarem guitarras com formato exótico. Comumente, as guitarras de formas pouco convencionais são associadas à modernidade, porém, são tão velhas quanto o rock'n'roll ( é, o rock'n'roll já é sexagenário!).

Um dos primeiros roqueiros a empunhar uma guitarra de formato incomum foi Bo Diddley, contemporâneo da geração pioneira ( Elvis, Chuck Berry, Little Richards, etc.) e o seu motivo não era impactar e, sim, meramente funcional. Bo Diddley usava um modelo Gibson L5 que, no palco, limitava sua movimentação. Foi o próprio quem construiu, na metade da década de 1940, os seus primeiros modelos, geralmente explorando formas retangulares ou trapezoidais que, futuramente, deram origem aos modelos Cigar Box, Cadillac e Jupiter Thunderbird. Este último foi desenvolvido com a colaboração de um ex-funcionário da fábrica Gretsch, usando componentes da mesma.


Bo Diddley e sua Cigar Box

Billy Gibbons, guitarrista e vocalista da banda ZZ Top que, diz a lenda, já havia recebido de presente uma guitarra de Jimi Hendrix, desafiando a regra de que "um raio não cai duas vezes no mesmo lugar", foi agraciado com um modelo Jupiter Thunderbird por ninguém menos que o próprio Bo Diddley. Tal preciosidade ficou guardada até o dia em que, durante as gravações de um álbum do ZZ Top, em busca de uma determinada sonoridade, Billy passou a usá-la. Porém, sabendo de seu inestimável valor, resolveu não expô-la aos rigores da estrada.


Bo Diddley e a Jupiter Thunderbird

Assim sendo, entrou em contato com a fábrica Gretsch e, com a colaboração do próprio Bo Diddey, atualizaram o modelo para o século XXI, comercializado com o nome Gretsch G6199 "Billy-Bo" Jupiter Thunderbird, a partir de 2005, três anos antes da morte de Diddley.


Gibbons e sua "Billy-Bo"






sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

LOVE VIGILANTES - NEW ORDER (TRADUÇÃO)

A canção Love Vigilantes abre o álbum Low Life, lançado no ano de 1985 pela banda  New Order. Apesar da música ser creditada a toda a banda, a letra, contando uma "batida" história do soldado que volta para casa foi, segundo dizem, inspirada pela saudade que o vocalista e guitarrista Bernard Sumner sentia da família em turnê. Na letra, não há uma crítica à desumanidade da guerra, ao contrário, esta é justificada em nome da verdade e da liberdade, como todas as guerras o são. Um sentido controverso para uma banda que, desde sua encarnação anterior, o Joy Division, é acusada de pactuar com a estética e a ideologia de regimes autoritários de governo. 

Capa do álbum Low Life

"Vigilantes Do Amor"

Oh, eu cheguei 
Da terra do sol
De uma guerra que deve ser vencida
Em nome da verdade
Com nossos bravos soldados
Sua liberdade será salva
Com nossos rifles e granadas
E alguma ajuda de Deus

Eu quero ver minha família
Minha esposa e meu filho esperam por mim
Tenho que ir para casa
Tenho estado tão só, você pode ver

Você não pode acreditar
Na alegria que senti
Quando finalmente consegui minha dispensa
E estava indo embora
Oh, eu voei pelos céus
Não posso negar minhas convicções
Eu morreria por meu país
E via isto acontecendo em breve

Eu quero ver minha família
Minha esposa e meu filho esperam por mim
Tenho que ir para casa
Tenho estado tão só, você pode ver

Quando abri a porta
Minha esposa estava caída
Com olhos inchados de chorar
Não pude saber porquê
Então, olhei em sua mão
E vi o telegrama
Dizendo que fui um bravo soldado
Mas estava morto

Eu quero ver minha família
Minha esposa e meu filho esperam por mim
Tenho que ir para casa
Tenho estado tão só, você pode ver

New Order








quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

"BOOTLEGS" E "DISCOS PIRATAS"

A expressão "disco pirata" tem, na cultura musical brasileira, significado muito diferente daquilo que é, também, chamado "disco pirata" na cultura musical de língua inglesa. Aqui, a expressão "disco pirata" é uma tradução para o que, lá, é chamado bootleg.

O termo bootleg, numa tradução aproximada, significa "cano de bota" e tem sua origem no romance As Viagens De Gulliver, no início do século XVIII. Com o passar do tempo, se tornou sinônimo de estratagema para contrabandistas esconderem mercadorias ilegais.

Na indústria musical norte-americana, o termo bootleg passou a ser usado, no finalzinho da década de 1960, para se referir a gravações não autorizadas pelos artistas gravados e comercializadas, geralmente em discos de vinil, por selos independentes. Tais gravações eram realizadas na mesa de som de um concerto ou eram takes de estúdio não aproveitados num lançamento oficial ( o que implicava no fato de algum funcionário pago pelo próprio artista, ou pela sua gravadora, "vazar" a gravação.

Capa daquele que é considerado o primeiro bootleg da história

Por seu ineditismo, os bootlegs foram, com o passar do tempo, se tornando itens de colecionador disputadíssimos, o que encarecia seu preço no mercado, causando a revolta do artista, pois este não via um tostão em direitos autorais.

"Disco pirata" é, também, no Brasil, uma simples cópia feita a partir de um álbum oficial, porém, com acabamento rudimentar, se comparada a uma cópia original "decente", o que acaba viabilizando, bem abaixo do custo legal, sua comercialização. Tal situação se tornou corriqueira, no país, após o advento das técnicas digitais de gravação e prensagem porém, não de maneira alarmante, já era uma realidade no mercado de fitas cassete. Com técnicas digitais, além do barateamento, houve a simplificação nas formas de se copiar uma gravação.

Comércio ilegal de "discos piratas"

Aqui, ao invés da ilegalidade explorar a gana do consumidor pelo raro, explorou meramente o baixo poder aquisitivo ou, pior, o complexo de Gerson (o famoso "levar vantagem em tudo") impregnado na mentalidade nacional. Com a realidade da Internet é a própria expressão "disco pirata" que se tornará incomum, pois o conceito de disco como um conjunto de canções manifestando unidade artística cai, vertiginosamente, em desuso.

O que está em xeque, agora não somente no Brasil, é o significado do consumo de música enquanto ritual. Música não é mais feita para se ouvir. Você faz outras coisas, apesar da música, como abrir uma janela e deixar a luz do dia entrar na sala, enquanto cuida de uma obrigação corriqueira. Assim como a música, um lindo dia não tem preço. Esta frase pode ser interpretada do jeito que quisermos e não devemos esquecer que a ganância não é exclusividade da ilegalidade.

  

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

GALERIA MUSICAL: A PEDRA DO GÊNESIS

Capa do álbum A Pedra Do Gênesis


Segue abaixo a resenha do álbum "A Pedra Do Gênesis", gravado por Raul Seixas e lançado no ano de 1988. O texto da resenha foi originalmente publicado no site Galeria Musical.


Se desconsiderarmos o disco com o Marcelo Nova, este é o último registro de Raulzito. Dá para ver a chama se apagando. Restava apenas um fiapo de voz de alguém que, se nunca foi um "crooner" primoroso, sempre soube impor personalidade e atitude em suas características vocais.

Outro ponto constrangedor no álbum é o fato de Raul se agarrar às glórias do passado como um náufrago a um pedaço de madeira. É só olhar para a capa, ouvir a canção título* e "A Lei", para encontrarmos a reciclagem barata do misticismo fuleiro que o fez famoso na década de 1970, algo que já vinha sendo tentado desde o álbum anterior, com uma versão em inglês para "Gîtâ". Isto somado a uma mistura bizarra de timbres eletrônicos, principalmente na bateria, com a instrumentação tradicional., mostra um Raul Seixas tristemente sem rumo.

Porém, sua versão para "Check Up", anteriormente gravada com outro título e outra letra por Rita Lee, "Fazendo O Que O Diabo Gosta", "Cavalos Calados" (depois regravada por Cazuza), o tema folclórico "Lua Bonita", "Senhora Dona Persona" e, fechando com chave de ouro, a singeleza de "Areia Da Ampulheta" mostram que, mesmo caindo das pernas, está lá tudo aquilo que fez do homem mito, objeto de culto, persona da cultura popular nacional: "toca Raul!!!".

O sucesso do álbum foi uma versão de "No No Song", gravada por Ringo Starr (???!!!), chamada "Não Quero Mais Andar Na Contramão" que, numa letra malandra, justificava (tardiamente) não gozar mais dos prazeres do vício. Tarde demais? Para o homem Raul Seixas até podia ser mas, como diz a letra de "Senhora Dona Persona", "os homens passam e as músicas ficam".

(*) Observação: Talvez Raul estivesse sendo pressionado, como sabemos ser comum, pela gravadora, para que reeditasse a popularidade perdida dos anos 1970. Se foi, a sacada do Maluco Beleza foi concluir que o segredo da existência não deve ser procurado no esotérico e não possui mistério algum. Ao contrário, mais que na nossa cara, está na sola dos nossos pés, pisado displicentemente enquanto olhamos para as alturas, na vã esperança de que as respostas caiam do céu. Para quem cultua o Raulzito místico, uma puxada de tapete de, nos versos do poeta, "um santo sem fé em nenhum mundo além do mundo".











quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

DO VELVET UNDERGROUND AO PÓS-PUNK: UM PASSEIO PELO LADO ESCURO

Como já foi observado aqui, em outros textos, na segunda metade da década de 1960, a partir, principalmente, das obras de Bob Dylan e dos Beatles, o rock passou a desconhecer limites, tanto lírica ( no sentido das letras), quanto musicalmente.

Experiências com substâncias alucinógenas passaram a ser abordadas, direta ou indiretamente, como temas de letras, em sintonia com os experimentalismos sonoros, aglutinando elementos orientais, eletrônicos, circenses, valdevilleanos, entre outros.

A tônica da época era a de que a coragem para as experiências artísticas e pessoais deveria prevalecer sobre o moralismo vigente.

Neste sentido, o ano de 1967 é emblemático, pois os Beatles, que já haviam cantado odes à maconha no álbum Revolver, lançaram Sgt. Peppers Lonely Heart's Club Band, inspirados em experiências com  o uso do LSD, no que foram imediatamente seguidos por Pink Floyd ( The Piper At Gates Of Dawn) e The Doors ( em seu primeiro e homônimo álbum).

Capa do álbum Velvet Underground & Nico


Ainda em 1967, é lançado o Primeiro álbum da banda Velvet Underground, chamado Velvet Underground & Nico e conhecido como o "disco da banana", por causa da capa feita por Andy Warhol, levando ao extremo a crônica sobre o uso de drogas, ao abordar a realidade dos usuários das drogas pesadas, em especial, a heroína.

Velvet Underground & Nico

Por mais que queiramos encontrar no disco um alerta ou uma denúncia contra a realidade mortífera da vida junkie ( como é conhecido o viciado em opiáceos), a literatura sobre o assunto, em especial, a obra de William Burroughs, nos mostra o contrário: o viciado em heroína fatalmente tende a romantizar afetuosamente a degradação do vício.

Enquanto que por suas características lisérgicas, o LSD induzia a produções artísticas coloridas, dando um ar de inocência carnavalesca à loucura, mesmo porque, sendo de uso recente, os efeitos trágicos de seu uso eram ainda uma incógnita, a música do Velvet Underground caminhava pelo lado escuro. E não queria luz. Comercialmente falando, o álbum fez jus a seus tons sombrios: ficou relegado à obscuridade em sua época mas, como o tempo veio provar, estava à frente de seu tempo.

O motivo para o Velvet Underground e, consequentemente, seu mentor intelectual, Lou Reed, não ter caído no esquecimento, se chama David Bowie. Após conquistar prestígio financeiro e artístico suficiente para satisfazer seus caprichos, Bowie resgatou Lou Reed do anonimato, durante a década de 1970. A colaboração entre ambos é chave para compreender aquilo que se convencionou chamar pós-punk, ou seja, a música produzida na Grã-Bretanha após o alvoroço causado por Sex Pistols e The Clash.

The Stooges

Assim como Lou Reed, outro americano condenado, em sua época à obscuridade, Iggy Pop, líder da banda The Stooges, é peça fundamental para a compreensão do pós-punk. O som dos Stooges também estava à frente de seu tempo, porém, no sentido da aspereza sonora crua que, depois, daria a tônica ao punk rock. Como o Velvet Underground, os Stooges lançaram álbuns entre o fim da década de 1960 e o início da de 1970, todos, na época, relegados implacavelmente à obscuridade. E, como Lou Reed, Iggy Pop também foi resgatado da obscuridade por David Bowie.

David Bowie,  Iggy Pop e Lou Reed

No final da década de 1970, David Bowie gravou três álbuns essenciais em Berlim. Além da influência sonora e tóxica do Velvet Underground e dos Stooges, é peça fundamental a presença de elementos eletrônicos inspirados no trabalho do grupo alemão Kraftwerk.

O punk rock quebrou o paradigma elitista do rock no final da década de 1970, dando voz a toda uma geração que, do contrário, ruminaria calada sua frustração. Sem o punk rock e a influência/colaboração entre Lou Reed, Iggy Pop e David Bowie não haveria, como ouvimos, o som de Joy Division, The Fall, The Cure, Siouxsie And The Banshees, New Order, Echo And The Bunnymen, U2, The Smiths e The Jesus And Mary Chain, isto só para ficarmos nos mais óbvios.

Não há dúvida de que, como diria Nietzsche, os ouvintes do Velvet e dos Stooges pertenciam ao "depois de amanhã". Agora, não podemos saber se a relevância de tais bandas foi entendida ou construída depois, mas isto não importa. É fato que poucos os ouviram, porém o fizeram de maneira tão  contundente que também se fizeram ouvir.