The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

sábado, 28 de março de 2015

RESENHA: "LEGADOS DO INFRAMUNDO" -- MIASTHENIA


Capa de "Legados Do Inframundo"


Muitas vezes, o radicalismo do underground funciona como uma espécie de cortina de fumaça, escondendo a falta de talento. Porém, podemos, também, encontrar na cena, artistas que fazem arte com um senhor "A" maiúsculo, sem a preocupação com qualquer espécie de retorno, seja ele o reconhecimento midiático ou o econômico. Um representante honroso do segundo caso é a banda brasiliense de Pagan Black Metal Miasthenia.

Para começar, a banda passa longe do lugar comum, isto já na peculiaridade de sua formação: um trio cuja vocalista e letrista Hécate também cuida dos teclados, enquanto que Thormianak é responsável pela guitarra e pelo baixo e, completando, o baterista V. Digger. Ao vivo, as linhas de baixo são executadas através do teclado e de pedais de efeito na guitarra. Outra peculiaridade na banda: a temática das letras é centrada na cultura dos povos pré-colombianos, também chamados pelos estudiosos de ameríndios ou, pura e simplesmente, índios.

Pagan Black Metal tem raízes escandinavas e, assim sendo, a cultura abordada na temática das letras é a das tribos germânicas erroneamente chamadas de vikings. O Miasthenia, apesar de, em seus primórdios ter sido influenciado por bandas de Black Metal gregas e pelo paganismo da Antiga Grécia, adequa  abordagem pagã para a realidade do Brasil enquanto país americano, ao invés de bancarem os "crentes de Odin" perdidos no calor tropical. O paganismo nas letras é abordado com seriedade e conhecimento de causa ( para quem se interessar, é só conferir a excelente entrevista com a vocalista Hécate na revista Road Crew n° 187, onde não há espaço para as obviedades da maioria dos entrevistados).

Legados Do Inframundo, lançado em 2014 é o quarto álbum da banda e, desta vez, o paganismo das letras foca na cosmologia mítica da civilização maia, numa jornada pelo "Inframundo" ou mundo dos espíritos, erroneamente associado ao Inferno cristão pelos colonizadores. Para quem nunca ouviu o som do Miasthenia, outra peculiaridade: as letras em português e um aviso: a sonoridade da banda faz parte daquilo que se convencionou chamar Metal Extremo, ou seja, é arte feita com técnica e beleza, porém carregada de brutalidade como se, enfim, todo o genocídio e a aculturação infligidos pelos europeus na  América pudessem finalmente se manifestar na cultura dominante.

Legados Do Inframundo é uma espécie de tratado de História Cultural, pois contextualiza, quase que de maneira conceitual, a beleza artística como legado cultural, considerando que toda cultura se sustenta sobre oceanos de sangue e, o que é melhor, sem recorrer ao inocente erro do "mito do bom selvagem"  de Jean Jacques Rousseau, vício encalacrado na historiografia ocidental.
Arte além do óbvio.

Miasthenia

Resenha escrita originalmente para o site Whiplash.

quarta-feira, 25 de março de 2015

GIALLOS -- CONTRA!



Para quem acha que, se existe, o rock nacional não tem mais jeito, chegou, egresso do ABC, na Grande São Paulo, o trio Giallos, formado por músicos que fazem parte do jazzístico Otis Trio ( o baterista Flavio Lazzarin e o guitarrista Luiz Galvão), mais o vocalista Claudio Cox. Mas, por outro lado, se você acha que rock nacional é Pitty, Fresno, NX Zero, CPM 22 e quejandos, pode parar de ler por aqui.  Com o Giallos, o buraco é bem mais embaixo. O rock feito pela banda é herdeiro direto do minimalismo instrumental do rock'n'roll  dos anos 1950, passando pelas bandas de garagem da década de 1960 e pelo punk rock dos anos 1970.

O trio conta com uma formação um pouco incomum, visto que não há baixista, a exemplo do que, no cenário internacional já haviam feito o Jon Spencer Blues Xplosion e o Demolition Doll Rods, grupos que podem ser considerados inspiração para o trio do ABC. Incomum, também, é o formato que escolheram para lançar o seu primeiro álbum, Contra!, no mercado: em LP e K7, além de, no site da banda (http://giallos.bandcamp.com/album/contra ) estar, desde o lançamento, disponível para download gratuito. Pior para os consumidores do formato físico que ouvem CD ( sim, eles ainda existem!).

Enquanto que o instrumental do trio é centrado na urgência do bom e velho rock'n'roll, as letras são inspiradas nos filmes exploitation da década de 1970: filmes policiais de produção barata, carregados na abordagem da violência, que tanto influenciaram  o diretor Quentin Tarantino. Muitas das situações presentes nas letras das músicas parecem saídas de seus filmes.

Fora um cover dos Inocentes ("Medo De Morrer"), o restante do álbum é formado por composições originais e foi gravado "ao vivo no estúdio" ( fora uma ou outra participação de convidados, feitas em overdub) o que contribui para o clima urgente do trabalho.

O único senão ( parece que sempre existe um!) é uma certa afetação no vocal de Claudio Cox, que remete ao trabalho de Jack White no White Stripes ( grupo que, também, possui elementos sonoros -- embora mais comerciais -- encontrados no Giallos), que acaba deixando a audição do álbum um pouco enfadonha. Senão, porém, de gosto pessoal. No mais, é o bom e velho rock'n'roll, em alto e bom som.

Giallos
Resenha escrita originalmente para o site Whiplash.


quinta-feira, 19 de março de 2015

"INSULAR AO VIVO" -- HUMBERTO GESSINGER

Capa do DVD Insular Ao Vivo

As viúvas da formação clássica dos Engenheiros do Hawaii ( Gessinger, Licks e Maltz) não vão se dar por satisfeitas, mas deveriam: provavelmente este show, gravado para a posteridade, em Belo Horizonte e lançado, no final de 2014, em DVD, é o mais próximo de uma reunião da formação acima mencionada. Tal afirmação se baseia, pura e simplesmente, no fato do show ser conduzido inteiramente no formato trio e, também, na maneira reverente como o ex-Fresno Steban Tavares tenta imitar a guitarra de Augusto Licks.

Desde que Carlos Maltz saiu ( ou foi saído) da banda, Humberto deixou bastante claro que ele é o Engenheiros. É só conferir a parte gráfica dos álbuns então lançados e termos a certeza. Assim, nada mais natural, e até saudável, ele assumir-se solo, o que foi feito com maestria no álbum Insular, que deu origem à turnê da qual o show gravado faz parte.

Dono de um extenso catálogo fervorosamente cultuado pelos fãs, Gessinger se deu ao luxo de abrir mão da obviedade dos sucessos e, além das músicas do trabalho solo, compor o set list com músicas menos previsíveis ou, se preferirem, lados Bs.

Além do show de BH, o DVD traz, também,  no intimismo do formato acústico e com a participação de companheiros da cena musical sul-riograndense, quatro canções gravadas no bucolismo da Serra Gaúcha, nas quais, os elementos regionais conferem um teor folk que deu a tônica aos últimos trabalhos realizados por Humberto, seja com o nome Engenheiros Do Hawaii, no projeto Pouca Vogal ou em seu trabalho solo. Deste último, vale destacar o lirismo com que é tratado o tema envelhecimento. Cabe, ainda, ressaltar a narrativa, com uma empostação ( intencionalmente?!!!) cafona, com a qual Gessinger apresenta as músicas.

Por fim, parece que o próprio Humberto Gessinger resolveu satisfazer parcialmente a fissura dos fanáticos pela formação clássica mencionada no início do texto, ao revisitar o formato trio e assumir, novamente, o contrabaixo, instrumento que, nela, executava. Completando o trio, o baterista Rafael Bisogno que, apesar de não ter e nem ter a intenção de ter a pegada de Matz, não compromete e desempenha um bom trabalho.

Além do DVD, junto vem um CD com o áudio das apresentações para completar o deleite dos fãs. Variações sobre um mesmo tema para os, como diz Humberto "De Fé".


Humberto Gessinger e banda.



segunda-feira, 16 de março de 2015

SHADOWS IN THE NIGHT - BOB DYLAN

Capa do álbum Shadows In The Night.

Desde o final da década de 1990, quando lançou Time Out Of Mind e, segundo a crítica especializada, voltou a produzir conteúdo autoral relevante, Bob Dylan assumiu de vez a estética sonora à qual sempre afirmou pertencer: o rock'n'roll da década de 1950, particularmente o produzido na gravadora Sun Records, onde Elvis Presley iniciou sua carreira.

Nas sessões que gravou na Sun, Elvis despiu Blue Moon, um standard do cancioneiro norte-americano, de todo e qualquer adereço, expondo, num minimalismo arrebatador, a alma da canção. Guardadas as devidas proporções, é este o caminho tomado por Bob Dylan no álbum Shadows In The Night, tanto que, ao divulgá-lo, em seu site, afirmou que o maior desafio foi "traduzir" canções gravadas originalmente com orquestrações de até quarenta músicos para a formação de cinco músicos de sua banda de apoio.

Ao todo, são dez standards gravados anteriormente por Frank Sinatra e, ao ouvi-los, pode-se dizer que Dylan foi bem sucedido em sua empreitada. Isto não significa preterir o trabalho de Sinatra em relação ao seu: são ângulos muito diferenciados.

A sustentação do álbum se dá pela presença da steel guitar, cumprindo a função das orquestrações originais e, assim, atribuindo às canções um caráter mundano. É o clima de espelunca de beira de estrada, de músicos curtidos pelo pó do caminho, do qual Dylan e sua banda em sua Turnê Sem Fim são tão íntimos, que tira as canções do sossego dos catálogos de colecionadores a as joga no vórtice da vida. Não há beleza na interpretação de Dylan. Não esta beleza previsível à qual nossos ouvidos estão acostumados.

Bob Dylan e sua banda.


quinta-feira, 5 de março de 2015

MR. MOJO RISIN'

Jim Morrison -- Mr. Mojo Risin'

A música L.A. Woman, gravada pela banda The Doors no álbum homônimo de 1971 apresenta, na parte em que o ritmo desacelera e Jim Morrison canta os versos "Mr. Mojo Risin'/Just keep on risin'/C'mon risin', risin'", um caso clássico dos dilemas que marcam qualquer tradução que se pretenda literal, sem recorrer a notas explicativas.

A título de ilustração, os versos acima citados já foram traduzidos para o português, aqui no Brasil, de maneiras as mais bizarras possíveis. Mr. Mojo Risin' já apareceu como Sr. Mil Drogas numa revista ou como Sr. Doidão nas legendas de um DVD, por exemplo.

Mr. Mojo Risin' é, na verdade, um anagrama utilizado por Jim Morrison. Anagrama é quando alguém usa as letras do próprio nome para criar um outro nome. O exemplo mais clássico é o do filósofo iluminista Voltaire, cujo nome é o anagrama de Arouet, seu nome de batismo. Abaixo, a forma como Jim Morrison montou o anagrama:

J
I
M
*
M
O
R
R
I
S
O
N
1
2
3
*
4
5
6
7
8
9
10
11

M
R.
*
M
O
J
O
*
R
I
S
I
N’
3
6
*
4
5
1
10
*
7
2
9
8
11


Porém, diferente do caso de Voltaire, onde, a partir das letras, um novo nome é criado, o anagrama criado por Jim Morrison possui um significado em consideração à cultura negra norte-americana à qual, através do blues, o rock está ligado. A palavra mojo, na referida cultura, é utilizada para se referir a uma espécie de amuleto de sorte, objeto que confere proteção e ajuda o portador na conquista de seus objetivos, geralmente sexuais. Na cultura negra brasileira, a palavra mais ou menos semelhante seria patuá

Além de amuleto de sorte, nas letras dos velhos blues, a palavra também é usada como gíria para o órgão sexual masculino, como por exemplo na música Keep My Mojo Workin' gravada por Muddy Waters.

Jim Morrison foi um grande apreciador do blues e, ao adotar o referido anagrama, além de homenagear a cultura do estilo, foi de uma sagacidade e felicidade poéticas, já que alude e brinca com a condição de sex symbol vivida por ele.

Apesar de remeter àqueles trocadilhos infames, tipo Paula Tejando, Mr. Mojo Risin' seria algo como Sr. Pau Levantando o que, convenhamos, sem notas explicativas, além de soar bizarro, remete a um humor de 5ª categoria. 

Em tempo, no início da década de 1990, a finada revista Bizz, numa edição especial com letras do The Doors, trazia L.A. Woman traduzida e notas explicativas com tudo apontado acima, nos mínimos detalhes.



                                  

segunda-feira, 2 de março de 2015

LIVE AT LEEDS

O texto abaixo foi publicado originalmente no site Galeria Musical, no dia 18 de janeiro de 2015.

Capa do álbum Live At Leeds

Se há algo que marcou a trajetória dos Beatles, foi a preocupação artística com a música. O que, talvez, tenha pesado significativamente na decisão da banda, em meados dos anos 1960, em não mais excursionar. A tecnologia de amplificação sonora do período deixava muito a desejar se o músico tivesse qualquer preocupação além dos números da bilheteria.

Lançado no mês de maio de 1970, Live At Leeds é o primeiro registro ao vivo dos britânicos The Who e é considerado, se não o melhor, um dos melhores álbuns ao vivo de todos os tempos. É, também, prova de que, em um curto espaço de tempo, o sistema de amplificação e gravação ao vivo evoluiu assustadoramente.

Com o fim dos Beatles e do Cream, a morte de Jimi Hendrix, os Stones resolvendo problemas de morte e vício entre seus integrantes, o Led Zeppelin acabando de decolar, em cima do palco não tinha para ninguém, tanto que a audição de Live At Leeds, nos mostra que o The Who havia estabelecido os parâmetros do "concerto de rock" para a década de 1970.

Está tudo no álbum: a pegada desesperadamente frenética do instrumental; os longos improvisos durante as músicas ( My Generation, por exemplo, se estende por mais de 15 minutos); os covers exuberantes ( Summertime Blues e Shakin' All Over); os clássicos da banda ( I Can't Explain, Substitute e Magic Bus, entre outros) e as primeiras tentativas de ópera-rock da banda ( A Quick One While He's Away). Ou seja, o álbum esboça tudo o que seria, durante a década,  explorado pelas bandas de rock, do progressivo ao punk (!).

Gravado na universidade de Leeds, na Inglaterra, o concerto registra o fechamento da tour do (conceitual) álbum Tommy, a qual foi um retumbante sucesso. As posteriores edições em CD apresentam o concerto de maneira mais completa, sendo que a edição Deluxe de 2001 traz um segundo disco com a apresentação de Tommy na íntegra, além dos diálogos e apresentações das canções.

Já a simplicidade da capa remete aos famigerados "discos piratas" ( ou bootlegs), tão comuns na época. Antes de decidir gravar o concerto de Leeds, a banda havia gravado uma quantidade absurda de fitas com áudio de outros concertos. Diante do trabalho árduo da escolha das melhores gravações para compor um álbum, as fitas foram ritualmente queimadas pela banda, para evitar a pirataria.

De fato, o clima de Live At Leeds é o de guerreiros que haviam queimado pontes para não retroceder, avançando com a faca entre os dentes.

The Who ao vivo em Leeds.