The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

BBC: O ROCK NAS ONDAS DO RÁDIO

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"Rádio Um
Você é a única
Pra mim

É só girar o botão
E você leva música ao mundo inteiro
Rádio Um
Você roubou minha garota
Mas te amo mesmo assim".

                                            Radio One Theme,
                                            Jimi Hendrix

A BBC ( British Broadcasting Corporation) é uma empresa estatal britânica de rádio e teledifusão, criada no ano de 1922. Porém, para os apreciadores do bom e velho rock'n'roll, ela também se tornou uma espécie de "grife". Não são poucas as bandas relevantes para a história do estilo, principalmente as britânicas, a possuir em seu catálogo um título com a chancela da marca, geralmente referido como "BBC Sessions" ou "Radio One Sessions" ( "Radio One", no caso, é a emissora de rádio que, na empresa,  é responsável por atender a demanda musical do público jovem).


Por causa das leis trabalhistas britânicas, as rádios da BBC eram obrigadas a preencher uma determinada cota de suas programações com a transmissão de música executada ao vivo, visando garantir o emprego de músicos profissionais.


Quando as bandas da chamada "Invasão Britânica" se tornaram uma febre, nada mais natural que, frequentemente, tivessem participações exclusivas nos mais diversos programas musicais levados ao ar pela "Rádio Um". Assim, com o passar do tempo, os arquivos da rádio reuniram um acervo exuberante por sua originalidade.


No finalzinho do século XX e início do XXI, tal acervo começou a ver a luz do dia numa série de lançamentos em CD.

The Beatles, The Who, Cream, Jimi Hendrix Experience, Led Zeppelin, Joy Division, New Order, The Jam e Pixies são alguns exemplos.







JOHN PEEL

Mais que um grande apreciador de rock, o radialista John Peel (1939-2004) foi um grande apreciador e divulgador da música feita com qualidade. Nomes aparentemente desconexos, tais como a banda brasileira de rock  independente Fellini e a banda britânica de "grindcore" Napalm Death tiveram seus trabalhos divulgados nos programas comandados por John Peel e transmitidos pela BBC.

John Peel

A título de ilustração, o excelente "Hatful Of Hollow, da banda The Smiths, tem várias de suas faixas concebidas para o programa de John Peel. O mesmo pode ser dito do álbum "Pixies At The BBC". Já a cantora e compositora PJ Harvey foi além: possui um álbum chamado "The Peel Sessions".

 


Se você ainda aprecia a boa música gravada no formato físico e se deparar, por aí, com algum CD de alguma banda que admira, sob a chancela BBC, pode levar. Dificilmente irá se arrepender. 









sexta-feira, 24 de abril de 2015

FENDER STRATOCASTER

A boa e velha "Strat"

Ela nasceu em 1954, junto com o rock'n'roll mas, fora Buddy Holly que, convenhamos, não tinha cara de roqueiro, não foi a preferida de nenhum dos pioneiros. Também pudera: não tinha a petulância, não era classuda e nem impactava como suas concorrentes, porém, se podemos conceber uma escala evolutiva das guitarras elétricas, ela foi definitiva. Seu nome: FENDER STRATOCASTER.

Buddy Holly e a Stratocaster.

Tudo, numa "Strat", como é conhecida pelos íntimos, foi concebido levando em conta uma palavra: "funcionalidade".

Seu corpo possui recortes, chanfras e depressões que possibilitam um perfeito encaixe no corpo do guitarrista, eliminando o desconforto de ângulos e quinas.

O braço, a parte mais complicada de um instrumento de cordas, não somente na Stratocaster mas, também, em outros modelos Fender, é parafusável e pode ser trocado em questão de minutos.

A mão, com tarraxas num só lado, outra herança de outros modelos Fender facilita a afinação e não dispõe as cordas em "leque", contribuindo para a maior durabilidade das mesmas.

Seu cavalete "flutuante" permite uma conexão bastante prática da alavanca de vibrato, ou "trêmolo", sem a necessidade de acoplar um acessório ao corpo do instrumento.

A Fender Stratocaster foi, ainda, pioneira por trazer três captadores conectados a uma chave seletora de três posições, uma para cada captador. Os guitarristas logo perceberam a possibilidade de equilibrar a chave seletora nos intervalos entre as três posições, gerando um som diferenciado, fato aproveitado pela fábrica, que, então, adaptou a chave seletora para cinco posições.

Gilmour e a Stratocaster.

A elegância ímpar dos solos de David Gilmour parecem preferir desfilar numa Stratocaster e, segundo uns pichadores malucos na Londres da metade da década de 1960, Deus experimentou várias, mas acabou "casando" com a boa e velha Strat.

"Deus" e a "Strat".

Jimi usava uma branca "de cabeça para baixo" e com ela tocava uma música que virava nosso mundo de cabeça para baixo. Jeff Beck, Pete Towshend, George Harrison,  Ritchie Blackmore, Mark Knopfler, Yngwie Malmsteen e muitos, muitos outros fizeram dela um caminho para chegar aos nossos ouvidos e corações.

Jimi e a "Strat".
 
 






terça-feira, 14 de abril de 2015

"HIGHWAY 61 REVISITED" -- BOB DYLAN


Highway 61 Revisited é o primeiro álbum predominantemente elétrico gravado por Bob Dylan. Isto quer dizer que ele se assumiu, por completo, como "traidor", alcunha que passou a persegui-lo quando começou a incorporar elementos do rock'n'roll em sua sonoridade. Tal fato não foi perdoado pelos "puritanos" da comunidade folk, da qual Dylan fez parte.

O que dizer  de um álbum que se inicia com Like A Rolling Stone, considerada inúmeras vezes por especialistas como a canção pop mais importante do século XX? Livros já foram escritos a respeito desta música. O fato é que Like A Rolling Stone pode ser ouvida como uma apologia do ressentimento, pois é quase com êxtase que o refrão pergunta "Qual é a sensação?" para a "filhinha da mamãe" que tem seu mundo cor-de-rosa virado de pernas para o ar e terá que aprende a sobreviver nas ruas. Sobrevivência esta que o narrador deixa a entender dominar por completo.

O ressentimento foi dissecado, de maneira magistral, na obra do filósofo Friedrich Nietzsche onde são expostos, de maneira contundente, os estreitos vínculos de sua origem com a mentalidade escrava do povo hebreu e, sendo Dylan de ascendência hebraica, no mínimo, temos aí assunto para mais um livro. Não deixa de ser curioso que uma música considerada tão importante afirme um sentimento tão mesquinho mas, como diria Gessinger, gostar ou não de uma música diz mais sobre quem a ouve que sobre quem a compôs.

A segunda canção é Tombstone Blues, que inaugura uma faceta presente em outras ( Highway 61 Revisited e Desolation Row, por exemplo), de misturar numa narrativa aparentemente nonsense, surreal, dadaísta, personagens históricos e fictícios. A impressão é a de que Dylan havia se enchido dos supostos "especialistas" em encontrar mensagens subliminares em sua obra e resolveu sabotá-los.

It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry, com um lirismo avassalador, narra uma viagem clandestina de trem típica aos vagabundos e miseráveis da época da Grande Depressão, cujo estilo de vida, Dylan sempre fantasiou viver.

Ballad Of A Thin Man é a obra-prima a retratar a paranoia e o que, aparentemente, poderia ser considerado uma caricatura bizarra é, na verdade, de um realismo doentio.

Queen Jane Approximately é aceitação plena em contraponto às frustrações que uma alma possa carregar.

Highway 61 Revisited se inicia em clima de desenho animado, com uma guitarra slide se enroscando a uma sirene de brinquedo e apresenta personagens do Antigo Testamento e todo um séquito que aparenta ter fugido de um hospício, todos se encaminhando, por algum motivo, à Rodovia 61, região que liga o Delta do Mississippi, berço do blues, à região onde Dylan nasceu.

Just Like Tom Thumb's Blues é um passeio chapado pela cidade mexicana de Juarez, onde, bem ao estilo beatnik, ladrões, prostitutas e traficantes possuem aura santificada e a confusão entre pertencimento e abandono é assustadora.

Encerrando o álbum, uma epopeia acústica de mais de onze minutos, como num desfile  de Carnaval, pessoas fantasiadas de personagens dos contos de fadas, personagens da ficção literária, cientistas, artistas, escritores e personagens históricos, cada um vivenciando um absurdo maior que o outro, como a última estrofe deixa a entender, são metáforas para a doideira da vida boêmia no círculo de convivência de Dylan.

Ficou faltando comentar From A Buick 6, porém isto não acrescenta nem subtrai nada no álbum.

Quanto à sonoridade, a não ser pela modulação dos acordes de algumas músicas, Highway 61 Revisited é fortemente calcado no blues elétrico de Chicago, sendo, assim, bastante "retrógrado" se comparado aos outros álbuns marcantes na época, com uma sonoridade remetendo às décadas de 1940 e 1950. O engraçado é que os "puritanos" do folk, que viam em Dylan um "traidor", admiravam expoentes do blues elétrico, tais como Muddy Waters e Howlin' Wolf. Vai entender. 

Dylan fotografado durante as sessões de Highway
61 Revisited
  

segunda-feira, 13 de abril de 2015

"SINGIN' ALONE": ARNALDO CANTANDO ( E TOCANDO) SOZINHO

Em 1982, era lançado de maneira independente, pelo selo Baratos Afins, o álbum Singin' Alone, documento sonoro definitivo de uma viagem até as últimas consequências, realizada por Arnaldo Baptista.



Dizem os astrofísicos que um "horizonte de eventos" é a última fronteira da realidade, tal qual nossos sentidos a percebem. O álbum Singin' Alone é uma espécie de "horizonte de eventos" para a música de Arnaldo Baptista.

Como o título dá a entender, Arnaldo não somente "canta sozinho" -- com exceção da participação de Suzana Braga, sua companheira na época, nos backing vocals em duas músicas --, como também toca todos os instrumentos e é o arranjador de todo o álbum, que foi produzido por Luiz Calanca e lançado, de maneira independente, em 1982, pelo selo de sua loja, a Baratos Afins.

Enquanto, apesar da ousadia, o trabalho anterior de Arnaldo, seja junto a Os Mutantes ou à Patrulha Do Espaço, bem como em Loki?, seu primeiro solo, se atém à convencionalidade musical, Singin' Alone vai às últimas consequências sendo, desta forma, um álbum mais "difícil" para ouvidos condicionados às convenções musicais.

Algumas das músicas que compõem o álbum, já haviam sido gravadas com a Patrulha Do Espaço no final dos anos 1970, porém com letras, arranjos e instrumentação diferentes, mais puxadas para um certo tipo de Classic ou Hard Rock.

Não somente a audição de Singin' Alone é "difícil" como, também, é difícil definir a música ali ouvida. Muitos críticos arriscam "rock experimental". Porém, a impressão que se tem é a de que Arnaldo não estava realizando experimentos musicais e, sim, tocando na única forma que poderia, a música que o tocava. Assim sendo, Singin" Alone é uma espécie de documento sonoro da genialidade em seus limites.

Como já se insinuava, desde o tempo d'Os Mutantes, as letras de Arnaldo oscilam entre o português e o inglês, mas, de uma maneira tão natural e intensa que os limites linguísticos perdem o sentido, permanecendo, por detrás das palavras, o sentimento como derradeira língua universal.

Desde o rompimento afetivo com Rita Lee e, consequentemente, o rompimento artístico com Os Mutantes, Arnaldo vinha se fechando em seu próprio mundo. No final de 1981, o "acidente" na ala psiquiátrica do Hospital do Servidor, em São Paulo, é a metáfora perfeita para o mergulho definitivo em si mesmo. 

Singin' Alone, no entanto, já havia sido gravado. Arnaldo tinha ido às suas últimas consequências e vislumbrado o seu "horizonte de eventos".

A Astrofísica afirma, também,  que além do "horizonte de eventos" está o "buraco negro", uma singularidade da qual nada escapa.

Arnaldo mergulhou fundo no seu "buraco negro" e, só ele sabe como, escapou.

Portanto, não se assuste se ouvindo ouvindo "Bomba H Sobre São Paulo", "O Sol", "Coming Through The Waves Of Science", "Jesus Come Back To Earth" ou "Train", você se pegar perguntando: Por que será que esta música que parece não dizer coisa com coisa me diz tanto? É assim mesmo. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

THE HUNTER: MASTODON PERTO DO SUCESSO

Em 2011, o grupo Mastodon lançava The Hunter, o álbum que, até então, pode ser considerado o seu mais comercialmente acessível. No entanto, não abria mão da arte.



O álbum The Hunter, lançado em setembro de 2011 é, até agora, o mais próximo que o grupo Mastodon chegou das paradas de sucesso. Talvez fosse esta mesma a intenção do grupo, visto que o produtor escolhido tinha um currículo recheado de sucessos comerciais. Foi, também, deixada de lado a característica marcante da banda em produzir músicas interligadas num único conceito como haviam feito, por exemplo, no anterior, e ótimo, Crack The Sky e, ainda, a duração das músicas se aproximou do convencional, ou seja, diminuiu em tamanho.

As estruturas musicais complexas e o instrumental intrincado permaneceram, porém, costurados por melodias mais evidentes, realçadas, não só pelo talento ímpar dos integrantes enquanto instrumentistas como, ainda, pelo fato de a banda contar com três ótimos vocalistas. Assim, o lado "progressivo" na sonoridade "mastodôntica" marca presença em solos de guitarra de uma elegância classuda, remetendo à pegada floydiana setentista, realçados, em alguns arranjos, por sintetizadores com timbragem da referida época.

Os arranjos vocais, que alguns críticos julgam em débito com o velho Ozzy, apesar de melodiosos e harmônicos, em alguns momentos vêm carregados de toda aquela agressividade e "sujeira", comumente típicas nos primeiros álbuns.

Uma curiosidade: o apreciador de HQs que, porventura, também aprecia a banda, não poderá deixar de associar a exuberante Creature Lives ao Monstro Do Pântano. Fechando o álbum, The Sparrow traz um minimalismo lírico lembrando a poeticidade dos hai-kais:

"Persiga a felicidade com diligência".

É comum o ouvinte de rock e, mais especificamente, o de rock pesado, torcer o nariz para trabalhos com abordagem comercial. Porém, a história do rock está coalhada de exemplos de grandes êxitos comerciais com grande relevância artística. É uma pena que, ao que parece, o Mastodon só chegou perto do sucesso com The Hunter. Uma pena para o grupo, pois seus admiradores continuam sendo brindados com músicas de excelente qualidade.

O álbum é um clássico e merecia uma sorte mais próxima ao que o Black Album significou para o Metallica. As paradas de sucesso já não são as mesmas, mas o Mastodon dá continuidade e faz jus ao passado glorioso da música pesada.

Resenha escrita originalmente para o site Whiplash.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

RATOS DE PORÃO: 30 ANOS CRUCIFICADOS PELO SISTEMA (RESENHA)

Formação do Ratos De Porão que gravou, em 1983, o "marco zero" do hardcore latino-americano se reúne para rememorar  e tocar o álbum Crucificados Pelo Sistema em documentário mais que justo, lançado em DVD  no final de 2014.



A formação da banda Ratos De Porão que, em 1983, gravou, na raça, o álbum Crucificados Pelo Sistema, primeiro registro individual ( ou full length) de uma banda hardcore na América Latina, se reuniu para rememorar histórias da época no documentário 30 Anos Crucificados Pelo Sistema, lançado, no finalzinho de 2014 em DVD. Como já haviam demonstrado no documentário anterior (Guidable - A Verdadeira História Do Ratos De Porão), os "Ratos" são impagáveis contadores de histórias.

Da formação de 1983, somente João Gordo ( vocal) e Jão ( na época, baterista e hoje, guitarrista) permaneceram na banda. Mingau ( hoje no Ultraje A Rigor) era o guitarrista e Jabá o baixista. Além dos quatro, há, também, depoimentos de amigos e de pessoas heroicamente envolvidas com a cena punk paulistana do começo da década de 1980.

Comparado às mega-produções de documentários facilmente encontradas no mercado, 30 Anos... aparenta-se "modesto" pois, se hoje a cena underground enfrenta dificuldades, imaginem há trinta anos atrás. Assim, o que prevalece é mesmo o exercício "memorialista" dos entrevistados, já que os registros em imagem e áudio da época são raros, não só pelo alto custo na realidade subdesenvolvida como, também, pela marginalidade à qual a cena era relegada.

Contra tudo e contra todos, hoje o Ratos De Porão é um "patrimônio histórico" da música brasileira, com relevância mundial. Só o fato de as histórias estarem aí, registradas num DVD antes que se percam, já é digno de louvor. Se existe um ponto negativo, é o tempo de duração total do DVD: aproximadamente uma hora e meia. Acaba num piscar de olhos e vem aquela velha frase na cabeça: "Tudo o que é bom dura pouco".

Além do documentário, há, como bônus, um show gravado  no Circo Voador ( mesmo palco do DVD ao vivo lançado tempos atrás pela banda), em março de 2014, com os "Ratos" de 1983 tocando o Crucificados Pelo Sistema na íntegra.

Os "Ratos" de 1983...

... em 2014.



Resenha escrita originalmente para o site Whiplash.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

A MELHOR BANDA DE TODOS OS TEMPOS

A melhor banda de todos os tempos incendiando o palco.

Os Beatles são quase sempre uma unanimidade, enquanto que os Rolling Stones são quase sempre os eternos vices, não fosse pelos que preferem ir na contramão. Já aqueles que apreciam um peso maior podem optar por Led Zeppelin, Deep Purple ou Black Sabbath, entre outros. Quem não gosta de muita firula e prefere o básico pode ir de Ramones ou Motörhead. Já quem gosta de firula pode ir de Emerson, Lake & Palmer, Rush ou King Crimson. Para uns, Kiss, para outros Iron Maiden. 

O fato é que qualquer texto afirmando o título acima, diz mais sobre o redator que, propriamente sobre a suposta melhor banda de todos os tempos. Isto porque a melhor banda de todos os tempos sempre foi e sempre será uma só: Elvis Presley na guitarra base e nos vocais; Scotty Moore na guitarra solo; Bill Black no contrabaixo; Johnny Bernero e, depois, D.J. Fontana na bateria.

Estiveram juntos entre 1954 e 1958 e, neste curto espaço de tempo, se tornaram para o rock o mesmo que Cristo foi para o cristianismo e Maomé foi para o islamismo. Só isso. Não criaram nada de novo. Criaram um novo jeito de fazer. Promoveram a integração de uma música segregada nos guetos culturais dos negros norte-americanos e a evidenciaram no mainstream.

Sem sombra de dúvidas, é sedutora a visão romântica de um Elvis como o ladrão branco surrupiando as  performances dos artistas negros que admirava para se tornar um astro, pois se tornou comum a abordagem histórica enaltecedora das vítimas. Tal visão não só é sedutora como, também, é real. Ainda bem, senão não haveria rock. Pelo menos, não como há.

O resultado pode ser conferido na compilação de todas as gravações realizadas por Elvis na Sun Records, chamada de The Sun Sessions CD, onde não somente as músicas lançadas mas, também, os outtakes e os alternative takes se mostram essenciais. Genialidade em estado bruto. Para muitos, o Elvis "da lata", o supra-sumo do rock'n'roll.

Porém, as gravações realizadas pela "maior banda de todos os tempos" na gravadora RCA Records, após a assinatura de um contrato milionário até o ano de 1958, quando Elvis vai para o exército, apesar do verniz linha de produção, são, igualmente, fundamentais.




Para se ter uma ideia, todos os ícones da guitarra elétrica da segunda geração roqueira, de George Harrison a Eric Clapton, de Jimi Hendrix a Jimmy Page, entre outros, prestaram reverência a Scotty Moore que, sem dúvida ergueu um dos alicerces sobre o qual se sustenta a "linguagem" da guitarra no rock. Bill Black tocava contrabaixo acústico e, apesar do instrumento limitar os movimentos do músico no palco, ele se saia com uma performance que só não se rivalizava com a de Elvis por ele não ser o centro da banda e por uma certa "gaiatice". Dançava e estapeava o instrumento. D.J. Fontana estabeleceu a base percussiva definitiva do rock. O resto são adereços. No entanto, as maiores evidências caem sobre o vocalista.

Apesar das imagens e da captação sonora rudimentares, no Brasil, três DVDs dimensionam o incêndio que Elvis e banda causavam em cima do palco: um documentário da série Classic Albums sobre a gravação do primeiro álbum de Elvis na RCA; uma compilação de apresentações, geralmente em programas de televisão, chamada The Early Years e, por fim, um documentário narrado por Levon Helm, baterista da The Band, focado no ano de 1956, mostrando como um garoto pobre se torna, no espaço de dois anos, astro mundial ( este último não possui legendas em português, dando mais um exemplo do respeito ao consumidor que existe no país).





Muito se falou, principalmente depois que o rock passou a se identificar com "atitudes mais cerebrais", no fato de Elvis ter sido um imbecil manipulável pelas pessoas que o cercavam, geralmente com intuitos mal intencionados. Foi mesmo. Mas isto não foi somente sua perdição. Foi também o seu trunfo.

Assistindo as imagens da época, tem-se a real dimensão do quão instintivas eram as performances que derramavam e atiçavam libido. O contra ataque conservador foi fulminante e não se restringiu às câmeras de televisão filmando Elvis "da cintura para cima". A mentalidade sulista de menino pobre criado dentro das tradições religiosas fizeram de Elvis uma vítima fácil.  Quando, em 1958, Elvis vai servir o exército, o incêndio tinha sido apagado. Mas as fagulhas já haviam se espalhado.