The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

CAPA DE "ELECTRIC LADYLAND": JIMI HENRIX CENSURADO!!!

A censura não é "privilégio" de nós brasileiros, que vivemos grande parte de nossa história sob governos autoritários. Há, também, censura na "Terra da Liberdade" e, pior, embasada num moralismo puritano bastante hipócrita ao invés de posicionamentos político-ideológicos. O triste é saber que a história passa a ser escrita a partir das informações que o poder instituído permite serem transmitidas às futuras gerações, convertendo-se em verdade: a famosa "História Dos Vencedores".

Em 1968, a Jimi Hendrix Experience lançava o fenomenal álbum "Electric Ladyland", embalado em uma não menos fenomenal capa. Resultado: a "Terra Das Damas Elétricas" representada na arte da capa feriu os pudores daqueles que zelavam pela "moral e os bons costumes" e o álbum foi mutilado, não somente na época do seu lançamento mas, também na posteridade, tanto que, até hoje, é difícil acontecer uma reedição onde o ato de censura seja redimido. 

Em defesa da beleza livre da arte, abaixo, as duas versões para a apreciação:

A capa original censurada...

...e a insossa versão "família".

quinta-feira, 28 de maio de 2015

CLASSIC COVER & COVER


Depeche Mode, New Life (Single) - 1981...


...e Black Sabbath, Born Again (1983).



REVISTA "ROCK STARS": VALDIR MONTANARI SALVANDO ALMAS PARA O ROCK

Capa da revista Rock Stars.

Tão Prazeroso quanto ouvir um bom rock é ler um bom texto sobre rock. Gosto raro em se tratando de um País onde o analfabetismo funcional e o analfabetismo literal grassam plenos. O professor  de Física Valdir Montanari, autor de uma obra seminal sobre o rock progressivo, é um senhor exemplo de um exímio "escritor rock'n'roll".

Durante meados da década de 1980, quando, pela vitrine do primeiro Rock In Rio, o rock ganhava evidência midiática até então inédita, era vendida, nas bancas de jornais, uma "revistinha" intitulada Rock Stars. "Revistinha" só no aspecto físico, pois era publicada em preto e branco, no formato e acabamento das antigas revistas  de cifras musicais (onde a molecada pré-Internet aprendia a levar um som sem recorrer a um professor), por uma editora especializada nesse tipo de revista.

Por seu formato, a Rock Stars era acessível aos leitores pobres e uma (remota) possibilidade em perpetuar o gosto pelo rock além das fronteiras classe média, típicas do gênero. Em sua "simplicidade", a "revistinha" embalava verdadeiros tesouros da escrita rock, lavrados com maestria pelo senhor Valdir Montanari.

Logicamente, um garoto pobre não tinha condições financeiras de conferir todas as informações veiculadas na revista, numa época em que música gravada, quando encontrada, custava muito dinheiro. Mas aqueles que se aventuraram por suas páginas tiveram sua imaginação profunda e irremediavelmente atiçada.

Além de resenhas sobre os discos lançados na época, havia seções ou colunas mensais abordando a origem do rock'n'roll (geralmente sobre os antigos bluesmen) e aqueles que eram considerados os "quatro grandes do rock": Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin e Queen, cada uma com o título de uma música da respectiva banda: Strawberry Fields Forever, Sympathy For The Devil, Stairway To Heaven e God Save The Queen. Havia, também, ótimas matérias sobre a especialidade do senhor Montanari, o rock progressivo, destacando igualmente bandas nacionais e internacionais no estilo.

Nas páginas da Rock Stars, um garoto pobre, antes de poder ouvir, pode ler sobre Blind Lemon Jefferson, Leadbelly, Joelho de Porco, Chave do Sol, Camisa de Vênus, Violeta de Outono, Jean Luc Ponty, Focus, King Crimson, Gentle Giant e muitos, muitos outros. Se, futuramente, tal garoto teve condições de conferir a sonoridade de tais artistas, não é de se estranhar se ficou um pouco desapontado: a chance do texto estar muito além do som era mesmo muito grande.

Muito obrigado, senhor Valdir Montanari, pelas almas salvas para o rock e desculpe pelo modesto da homenagem.  

sábado, 23 de maio de 2015

"OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM" -- IDIOSSINCRASIA IRREDUTÍVEL




Em 1988 era lançado o 3º álbum de estúdio dos Engenheiros do Hawaii, consolidando os elementos que fariam eles serem definidos como "a banda mais amada/odiada do rock nacional".

A capa "desfigurada" do CD...

Por estar entre os arrebatadores ( no sentido de aceitação pública) A Revolta Dos Dândis e O Papa É Pop, Ouça O Que Eu Digo: Não Ouça Ninguém sempre será um grande álbum subestimado dos Engenheiros do Hawaii.

Por causa da capa que, exceto pelas cores, fotos e alguns outros detalhes, possui o mesmo projeto gráfico, "Ouça O Que Eu Digo:..." é, erroneamente, visto como "mera sequência" ( o que, convenhamos, não é pouco!) do "A Revolta..."

Primeiro que, no sentido sonoro, o tom predominantemente folk rock do álbum anterior cede espaço a uma mescla de hard rock, com ênfase em riffs distorcidos, climas floydianos (remetendo à fase das trilhas sonoras More e Obscured By Clouds, nas canções mais "suaves") oriundos da intersecção entre o acústico e o sintetizado. A belíssima Cidade Em Chamas possui andamento e solos que remetem ao trabalho da banda Iron Maiden.

Além da arte gráfica remeter ao trabalho anterior, A Verdade A Ver Navios cita, como música incidental, os riffs de Terra De Gigantes e Vozes, do referido trabalho.

Depois, o mesmo processo pode ser observado nas letras, onde os versos, muito antes da "era digital", começam a estabelecer links com os outros trabalhos da banda. Esta espécie de "auto-referência" ( ou "auto-indulgência", como preferem os detratores) iria custar aos Engenheiros o fim de sua lua-de-mel (sim, ela existiu!) com a crítica especializada, que não perdoou tais "exercícios de arrogância" (como se em algum momento tal perdão tivesse alguma importância para a banda):  "As chances estão contra nós/ Mas nós estamos por aí...".

Ainda, no sentido das letras, pode-se perceber um sutil desvio de foco em relação à temática do  A Revolta Dos Dândis. Enquanto, neste, as letras levavam a uma "viagem invernal" ( bem ao estilo da ascendência cultural germânica de Gessinger, o letrista), pelas dúvidas e dilemas existenciais do indivíduo em sua solidão, em Ouça O Que Eu Digo: Não Ouça Ninguém, tal viagem contempla as "paisagens" do indivíduo ainda em sua solidão, porém enquanto ser social. Talvez nem tenha havido a intenção, mas o próprio "aforismo" que batiza o álbum remete a um outro, utilizado por Friedrich Nietzsche, o filósofo ( também) alemão intransigente com as fraquezas do espírito humano: "Queres seguir-me? Siga-te."

Quando, nos anos 1990, o álbum originalmente lançado em vinil, foi reeditado no formato CD, foi "assassinada", de maneira irremediável, toda a arte gráfica e seus "jogos semióticos" que complementavam, de forma essencial, o "conceito" do álbum como um todo, tributo que Gessinger pagava aos seus ídolos do rock progressivo inglês.

...e a original do LP.

E por falar em progressivo, Variações Sobre Um Mesmo Tema, uma "suíte" dividida em três partes, sendo uma cantada por Licks (!) e outra instrumental, fecha, de maneira magistral, o álbum, dando pistas de um dos caminhos que os Engenheiros, movidos pela irredutível idiossincrasia de Gessinger, iriam trilhar: durante os "anos Collor", enquanto  o mercado do rock nacional definhava, fazendo uso de elementos progressivos, por essência, anticomerciais, a banda se mantinha relevante comercialmente: "Rock'n'roll não é o que se pensa/ O que se pensa não é o que se faz."

Os Engenheiros do Hawaii em 1988.




sábado, 16 de maio de 2015

"OS CÃES LADRAM E A CARAVANA PASSA"


A sabedoria popular é perfeita para definir, em poucas palavras ( os famosos "velhos ditados"), determinadas situações. Existe, para quem gosta de rock no Brasil, um certo consenso de que no passado, mais especificamente, nos famigerados "anos 80", as coisas eram melhores.

Havia muitas bandas boas que faziam muitas músicas boas, as quais eram tocadas em muitas emissoras de rádio e televisão. Ou seja, o rock foi mainstream. É fato inegável  que, no passado, o rock, no Brasil, possuía maior visibilidade midiática como, também, é fato inegável que quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. Havia, sim muitas bandas de rock tocando no rádio e na televisão, porém, havia, consequentemente, muitas bandas de rock ruins tocando no rádio e na televisão. Mas os apreciadores do rock não querem nem saber: melhor ouvir um rock ruim que ouvir sertanejo, pagode ou axé. A Pitty está aí para provar. Não era só desligar o botão ao invés de nivelar por baixo?

Existiram bandas de rock boas e que não contaram com o apoio da mídia nos anos 80, 90, 2000, 2010 e, pasmem, ainda as há. Basta, pura e simplesmente, ao invés de ficar esperando elas caírem do céu na nossa cabeça, procurá-las e, fatalmente, as encontraremos.

É típico da natureza humana idealizar o passado pois este é certo, enquanto que o presente se manifesta pleno de incertezas. "Não trocamos o certo pelo duvidoso", como bem apregoa a sabedoria popular. Então, vamos no Monsters Of Rock apreciar os "dinossauros" enquanto eles não são extintos e vaiar qualquer coisa que "desafine o coro dos contentes".

Parece que foi o filósofo Nietzsche quem afirmou: "Quem olha muito para trás, acaba pensando para trás". Aí, a índole desafiadora, característica do rock ao longo de sua relevância histórica, cede espaço à índole reacionária. A propósito, isto motivou Roger Waters a associar rock e fascismo em The Wall.

Cena do filme The Wall.

Queremos que o nome de nossa banda preferida seja estampado sempre no mesmo logo; queremos que ela grave, eternamente, o mesmo álbum, aquele nosso preferido e, se possível, é bom nossa banda preferida possuir uma mascote, pois ajuda a garantir que ela continue a mesma, numa espécie de "ilusão de ótica" onde nós também acabamos sendo os mesmos e, com cinquenta anos nas costas, ainda temos dezessete.

"Fácil, extremamente fácil, pra você e eu e todo mundo cantar junto..."

Afirmar que as coisas não são mais como eram antes é de uma estupidez atroz pois, óbvio, jamais poderão ser. Valorizar experiências passadas é  essencial para a sobrevivência humana, desde que valorizadas como uma das ferramentas para a construção do futuro.

O mundo do rock entra em polvorosa cada vez que alguém afirma que o "rock morreu", no entanto, é inegável que ir a um concerto de rock se assemelha, cada dia mais, a visitas ao museu. "A fila anda". "Quem fica parado é poste" e "os cães ladram enquanto a caravana passa" diz, apropriadamente, a sabedoria popular. 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

"IMPERIUM": DORSAL ATLÂNTICA NA AULA DE HISTÓRIA DO BRASIL.

Lançado em 2015, o álbum Imperium, da banda carioca Dorsal Atlântica aborda, de maneira conceitual, o período de transição do Brasil Império para o Brasil República.



Muito embora tenha garantido seu honroso lugar na história da música pesada feita no brasil, depois de ter encerrado as atividades, a banda Dorsal Atlântica, capitaneada pelo eterno Carlos Lopes e bancada pelos fãs lançou, em 2012 o álbum 2012. Percebendo que seu thrash metal direto, reto e certeiro ainda pode ser muito relevante, eis que, três anos depois, voltam com um novo álbum: Imperium.

A exemplo do anterior, onde vários "capítulos da História do Brasil" foram temas das letras, o novo álbum aborda, de maneira conceitual, a transição do Brasil Império para o Brasil República, tendo, como fio condutor, uma história fictícia de um triângulo amoroso, envolvendo o imperador ( Victor II), um republicano ( Thomas Echt) e sua esposa ( Rose). Tal história é descoberta por um descendente do filho bastardo do imperador, criado longe do Brasil, ao assumir a mansão que herdara e que, no passado, pertencera ao marido traído de sua tataravó.

As letras, com ênfase narrativa, por vezes até pedagógicas, podem causar estranhamento no ouvinte acostumado a abordagens líricas mais usuais. Mas pecam, no entanto, ao enfatizar o romance fictício em detrimento das tramas históricas da época ( mais sórdidas que qualquer ficção), mencionadas com certa rasura.

A performance instrumental da banda está, por outro lado, muito mais "azeitada" e há um maior cuidado com as nuances sonoras e detalhes enriquecedores nos arranjos. Outro ponto positivo é a ausência daqueles agudos a la Tom Araya dos primórdios, que são de doer, nos vocais, estando estes em, alguns momentos, bem punkada.

A gravadora Heavy Records, por sua parte, caprichou na arte gráfica e a concepção da capa do CD remete ao formato das capas dos antigos Compactos Simples de vinil ( chamados, por especialistas, de single de 7 polegadas). O encarte com as letras imita o design de um jornal do Brasil Imperial. Para os apreciadores, um luxo!

Dorsal Atlântica.
  

segunda-feira, 4 de maio de 2015

"PSYCHEDELIC PILL"



Depois de quase dez anos longe dos estúdios, Neil Young se reunia novamente à banda Crazy Horse e lançava, em 2012, um grande álbum de 1969.



O fato de Neil Young se envolver num projeto que visa por para rodar um Lincoln Continental, clássica banheira beberrona dos anos 1950, usando energia ecologicamente correta, é uma excelente metáfora para o álbum Psychedelic Pill, gravado por ele, junto à banda Crazy Horse (com a qual não gravava há quase uma década) e lançado em 2012.

Pode-se dizer que Psychedelic Pill é um grande álbum de 1969 lançado em 2012. Numa época em que o conceito "álbum" cai, vertiginosamente, em desuso, o velho canadense vem com um (duplo!), cujo tempo de duração total beira os noventa minutos, divididos em nove canções, o que daria uma média de dez minutos de duração por música. Só a primeira, Driftin', Back chega a quase meia hora.

Quando o déficit de atenção do mercado consumidor de música é tamanho, que os "quinze minutos de fama" de Warhol vão, se muito, a quinze segundos, cabe perguntar: que diabos Neil Young está pretendendo? Dificilmente saberemos. Mas podemos supor.

Todas as referências sonoras e líricas do álbum apontam para o final da década de 1960, época em que, parafraseando o título de uma das canções (Walk Like A Giant), gigantes caminhavam sobre a Terra (os roqueiros contemporâneos de Young) e acreditavam poder mudar o mundo. Para o bem e para o mal, o mundo em que vivemos é consequência daquele. Neil deixa a entender que algo desandou de forma absoluta. Aí, cabe outra pergunta: Psychedelic Pill é o álbum feito pelo tiozão rabugento e reclamão que vive preso ao passado? Não é o que parece.

Neil Young aparenta, pura e simplesmente, se ressentir do fato de, no imediatismo atual, as pessoas se deixarem levar por ideais rasos ao invés de acreditarem na própria capacidade de ação em busca do melhor.

Assim, o prazer em ouvir seus heróis (Dylan e Hank Williams) pela primeira vez é enaltecido em Twisted Road e a desolação dos pais que veem os filhos ganharem o mundo é abordada com lirismo em Ramada Inn. Driftin' Back, Walk Like A Giant e For The Love Of  Man condenam o supérfluo e lamentam a incapacidade de mudá-lo. As vocalizações dos Crazy Horse embelezam o simplório de She's Always Dancing. Born In Ontario é apenas mais uma ode ao Canadá, porém está quilômetros aquém de uma Helpless, por exemplo. A faixa título aparece em duas versões: a última é uma faixa bônus sem o efeito surround da primeira.

Fatalmente, a "Pílula Psicodélica" de Neil Young é contraindicada ao ouvinte afeito ao mercado musical atual. Se não enroscar na garganta pode ocasionar uma bad trip, mas vai saber... Uma das características da geração de Young era acreditar na capacidade humana de surpreender. Contrariando a lógica do mercado, o velho Young tenta produzir arte duradoura e grandiosa, como um velho Lincoln Continental, numa época que prima pelo descartável.

Neil Young & Crazy Horse