The Good & Old Rock'n'roll

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Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

sábado, 23 de maio de 2015

"OUÇA O QUE EU DIGO: NÃO OUÇA NINGUÉM" -- IDIOSSINCRASIA IRREDUTÍVEL




Em 1988 era lançado o 3º álbum de estúdio dos Engenheiros do Hawaii, consolidando os elementos que fariam eles serem definidos como "a banda mais amada/odiada do rock nacional".

A capa "desfigurada" do CD...

Por estar entre os arrebatadores ( no sentido de aceitação pública) A Revolta Dos Dândis e O Papa É Pop, Ouça O Que Eu Digo: Não Ouça Ninguém sempre será um grande álbum subestimado dos Engenheiros do Hawaii.

Por causa da capa que, exceto pelas cores, fotos e alguns outros detalhes, possui o mesmo projeto gráfico, "Ouça O Que Eu Digo:..." é, erroneamente, visto como "mera sequência" ( o que, convenhamos, não é pouco!) do "A Revolta..."

Primeiro que, no sentido sonoro, o tom predominantemente folk rock do álbum anterior cede espaço a uma mescla de hard rock, com ênfase em riffs distorcidos, climas floydianos (remetendo à fase das trilhas sonoras More e Obscured By Clouds, nas canções mais "suaves") oriundos da intersecção entre o acústico e o sintetizado. A belíssima Cidade Em Chamas possui andamento e solos que remetem ao trabalho da banda Iron Maiden.

Além da arte gráfica remeter ao trabalho anterior, A Verdade A Ver Navios cita, como música incidental, os riffs de Terra De Gigantes e Vozes, do referido trabalho.

Depois, o mesmo processo pode ser observado nas letras, onde os versos, muito antes da "era digital", começam a estabelecer links com os outros trabalhos da banda. Esta espécie de "auto-referência" ( ou "auto-indulgência", como preferem os detratores) iria custar aos Engenheiros o fim de sua lua-de-mel (sim, ela existiu!) com a crítica especializada, que não perdoou tais "exercícios de arrogância" (como se em algum momento tal perdão tivesse alguma importância para a banda):  "As chances estão contra nós/ Mas nós estamos por aí...".

Ainda, no sentido das letras, pode-se perceber um sutil desvio de foco em relação à temática do  A Revolta Dos Dândis. Enquanto, neste, as letras levavam a uma "viagem invernal" ( bem ao estilo da ascendência cultural germânica de Gessinger, o letrista), pelas dúvidas e dilemas existenciais do indivíduo em sua solidão, em Ouça O Que Eu Digo: Não Ouça Ninguém, tal viagem contempla as "paisagens" do indivíduo ainda em sua solidão, porém enquanto ser social. Talvez nem tenha havido a intenção, mas o próprio "aforismo" que batiza o álbum remete a um outro, utilizado por Friedrich Nietzsche, o filósofo ( também) alemão intransigente com as fraquezas do espírito humano: "Queres seguir-me? Siga-te."

Quando, nos anos 1990, o álbum originalmente lançado em vinil, foi reeditado no formato CD, foi "assassinada", de maneira irremediável, toda a arte gráfica e seus "jogos semióticos" que complementavam, de forma essencial, o "conceito" do álbum como um todo, tributo que Gessinger pagava aos seus ídolos do rock progressivo inglês.

...e a original do LP.

E por falar em progressivo, Variações Sobre Um Mesmo Tema, uma "suíte" dividida em três partes, sendo uma cantada por Licks (!) e outra instrumental, fecha, de maneira magistral, o álbum, dando pistas de um dos caminhos que os Engenheiros, movidos pela irredutível idiossincrasia de Gessinger, iriam trilhar: durante os "anos Collor", enquanto  o mercado do rock nacional definhava, fazendo uso de elementos progressivos, por essência, anticomerciais, a banda se mantinha relevante comercialmente: "Rock'n'roll não é o que se pensa/ O que se pensa não é o que se faz."

Os Engenheiros do Hawaii em 1988.




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