The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

terça-feira, 28 de julho de 2015

TOP 10: A ESTÉTICA DO MAU GOSTO EM CAPAS DE DISCOS NACIONAIS

O mau gosto, às vezes, pode ser opção estética consciente do artista, como forma de causar impacto no expectador. Às vezes, pode ser, pura e simplesmente, a boa e velha falta de noção. Segue abaixo, uma lista, em ordem cronológica, com dez capas de álbuns nacionais que desafiam nosso senso de apreciação artística. Antes, porém, é importante observar que, em alguns casos, a arte gráfica de um álbum pode ter sido feita à revelia do artista que o gravou.

1. ARAÇÁ AZUL - CAETANO VELOSO (1973)


2. SECOS & MOLHADOS - SECOS & MOLHADOS (1973)


3. TODOS OS OLHOS - TOM ZÉ (1973)


4. LOKI? - ARNALDO BAPTISTA (1974)



5. DESCANSE EM PAZ - RATOS DE PORÃO (1986)



6. CALANGO - SKANK (1994)


7. O AMOR ME ESCOLHEU - PAULO RICARDO (1997)

[Paulo+Ricardo,+1997,+O+Amor+Me+Escolheu,+Front.JPG]

8. BOCAS ORDINÁRIAS - CHARLIE BROWN JR. (2002)

 

9. INNER MONSTER OUT - SHADOWSIDE (2011)


10. INSULAR - HUMBERTO GESSINGER (2013)

sábado, 25 de julho de 2015

VESPAS MANDARINAS: POESIA CONTRA A ANEMIA

Uma das gratas surpresas do rock nacional nos últimos anos, a banda Vespas Mandarinas tem lançado, em 2015, DVD com show baseado em seu álbum de estreia Animal Nacional, no qual a temática e o enfoque das letras desafiam o marasmo e o lugar comum num rock direto e urgente. 


VESPAS MANDARINAS - ANIMAL NACIONAL (AO VIVO)

A banda Vespas Mandarinas, quando do seu surgimento, despontou como possibilidade de livrar o rock nacional do estado anêmico que, há décadas, o avassala, principalmente em relação à sua condição midiática.

Idealizada pelos guitarristas-vocalistas Thadeu Meneghini, que tocou no trio Banzé! e Chuck Hipolitho, do Forgothen Boys, a banda foi definida com a entrada do baterista André Dea e do baixista Flavio Guarnieri. Depois de aparar as arestas em dois EPs, lançaram, em 2013, Animal Nacional, o ótimo primeiro álbum, que é a base deste DVD, gravado, também em 2013, no Centro Cultural de São Paulo e lançado agora.

O palco no nível e em meio à plateia, as imagens captadas abusando da super e subexposição de luz e a iluminação simples realçam, e dão peso, às características sonoras da banda: um rock curto, grosso e urgente em sua sonoridade, com claras influências "garageiras".

As letras, no entanto, são realmente o diferencial da banda. Muitas vezes os integrantes afirmaram ter como parâmetro os "grandes letristas" do rock nacional dos anos 1980, fato endossado nas parcerias entre eles e Bernardo Vilhena (antigo letrista de Ritchie e Lobão, entre outros), e entre eles e Arnaldo Antunes.

Porém, longe da veneração e da reciclagem, comuns nesses casos, as letras das Vespas Mandarinas trazem a "relevância poética" normalmente associada àquela época para a realidade atual.

Assim, a mediocridade que, muitas vezes, norteia nossas atitudes cotidianas é pega de calça na mão em versos de extrema beleza e exatos, em cada uma de suas letras, valorizando o tempo do espectador como único, sem necessidade de uma segunda chance.

Um exemplo é a tocante balada Distraídos Venceremos, cujo título foi "roubado" de um livro do poeta paranaense Paulo Leminski:

"Sinto muito se é mais triste a verdade
Cedo ou tarde, se chega a essa conclusão
O herói é o último na fila dos covardes
Aquele a quem não restou outra opção

Cuidado ao matar seus demônios
O equilíbrio vive entre a virtude e o vício
E a gente nunca sabe qual é o defeito
Que sustenta esse nosso edifício

E a gente chora, em segredo, mais por prazer que pela dor
E a gente grita porque, às vezes, o silêncio é mais ensurdecedor

Nas rugas que trago do berço
Não há passado nem tampouco futuro
Assim como em todo Universo
Até mesmo o Sol tem o seu lado escuro

Aqui onde nascemos
Pensamos, sofremos
Criamos, sabemos
Sonhamos,  fazemos
Cagamos, vivemos
Amamos, fudemos 
Provamos que mais é menos

As letras das Vespas Mandarinas, em sua grande maioria, são da autoria de Adalberto Rabelo, uma espécie de "quinta vespa", parceiro de Thadeu desde a época do Banzé!. A propósito, ele participa fazendo vocal em algumas delas, bem como a banda baiana Vivendo Do Ócio, que reforça os vocais de O Herói Devolvido.

No aspecto sonoro é, ainda, digna de observação a textura das guitarras que, ao longo das músicas, vão se entrelaçando harmonicamente numa "simplicidade" que chega a ser revigorante, diante dos "malmsteens nossos de cada dia". Se o rock nacional ainda não saiu de seu estado anêmico, a culpa não é das Vespas.

E por falar em guitarra, fechando o show, há a participação do Edgar Scandurra em três (!) covers de sua banda, o Ira!, influência confessa das Vespas. Aqui cabe o único senão do DVD. Uma das fraquezas do rock brasileiro é a falta de espaço para o trabalho autoral. Talvez, se os "covers" estivessem distribuídos ao longo do show, já que o repertório da banda é curto, fosse diferente, mas a impressão que fica é a de que "estava indo tão bem", ainda mais se levarmos em conta que o repertório próprio não fica devendo nada para as músicas da banda do Edgar.

O ataque das Vespas.




segunda-feira, 20 de julho de 2015

H.R. GIGER: DE CELTIC FROST AOS DEAD KENNEDYS, UMA ARTE PARA O ROCK

H.R. Giger

O artista plástico suíço H.R. Giger (1940-2014), além de ter sido o criador do monstro alienígena do filme Alien, O Oitavo Passageiro esteve, desde a década de 1970, ligado ao mundo do rock. É dele a pintura que estampa a capa do álbum Brain Salad Surgery, do grupo progressivo Emerson, Lake & Palmer.

Capa de Brain Salad Surgery

Também é de H.R. Giger a pintura da capa do segundo álbum da banda suíça Celtic Frost, To Mega Therion, intitulada Satan I. A respeito, o líder da banda, Tom Warrior, disse ser Giger, apesar de já ter um nome de relevância internacional na época, meados dos anos 1980, humilde e atencioso para com uma banda que trilhava os caminhos do underground. A simpatia e colaboração permaneceu na outra banda de Warrior, Trypticon, onde obras de Giger ilustram os dois álbuns lançados até agora: Eparistera Daimones (2010) e Melana Chasmata (2014).

Celtic Frost - To Mega Therion

Trypticon - Eparistera Daimones

Trypticon - Melana Chasmata

Assim como o Celtic Frost foi pioneiro nas vertentes mais agressivas do Heavy Metal, catalogadas sob o rótulo "Metal Extremo", a banda norte-americana de punk rock Dead Kennedys foi, também, uma das pioneiras de uma das vertentes mais agressivas do punk rock, o hardcore. Seu disco de estreia, Fresh Fruit From Rotting Vegetables, lançado em 1980, é considerado um clássico, não somente do punk rock, mas da história do rock como um todo. Nele, os anos difíceis e conservadores da chamada "Era Reagan" são massacrados impiedosamente por um cinismo avassalador e um senso de humor macabro. 

Dead Kennedys

Porém, foi com seu terceiro álbum, chamado Frankenchrist, lançado em 1985 e cujo conteúdo artístico é tido como inferior, que os Dead Kennedys desencadearam uma reação acirrada do moralismo vigente. O motivo: o encarte do álbum, uma obra de H.R. Giger intitulada Landscape # XX, apelidada, por causa das figuras retratadas (órgãos sexuais masculinos e femininos "harmonicamente sequenciados") , de Penis Landscape, ou seja, "Paisagem de Pênis".

Landscape # XX

Por causa da arte de H.R. Giger, encartada no álbum, a banda foi envolvida num processo judicial com mais de 6 anos de duração, acusada de vender pornografia para menores.

Apesar de, no final do processo, este não ter dado em nada e a Primeira Emenda da Constituição estadunidense ( a que garante a liberdade de expressão) ter falado mais alto, a banda e sua gravadora, a Alternative Tentacles, estavam psicológica e economicamente abaladas.

O processo movido contra os Dead Kennedys fez parte da ação perpetrada por esposas de congressistas norte-americanos contra astros da música, particularmente de rock, visando controlar qualquer manifestação artística que, supostamente, viesse ofender a moral e os bons costumes. Envolvendo artistas que vão de Prince a Frank Zappa, em audições processuais lembrando os Tribunais do Santo Ofício, o resultado foi aquele famigerado "selinho" que passou a estampar as capas de álbuns considerados ofensivos com a advertência contra "conteúdos explícitos", o qual, na verdade, mais atrai que rechaça.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

LEGIÃO URBANA: DESMITIFICANDO "FAROESTE CABOCLO"


A banda Legião Urbana, a exemplo de 90% das unanimidades do chamado rock nacional, é superestimada por público e crítica. Fato este perfeitamente compreensível, se considerada a realidade histórica de subdesenvolvimento político, ideológico e cultural, na qual a banda surgiu e produziu. Assim como, antes, Os Mutantes e Raul Seixas, entre outros, já haviam feito, o grupo liderado por Renato Russo foi um ótimo tradutor de certos aspectos do rock produzido na realidade anglo-saxã para a realidade brasileira. Ou seja, passa longe da originalidade.

É aquele velho ditado: "Em terra de cego, quem tem olho é rei." Numa época pré-Internet, as informações viajavam em passos de tartaruga e custavam os olhos da cara. Daí que os artistas "mais relevantes" do rock nacional, "coincidentemente", eram filhinhos de papai em condições de pagar por vídeos, discos e revistas importados e pelo domínio da língua inglesa, quando não passavam um tempo morando na gringa. Diante da impossibilidade da quase que totalidade do mercado consumidor de música nacional ter as referências originais, a inovação, na verdade, era, bondosamente falando, uma espécie de tradução.

Características no trabalho de Lobão, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Camisa de Vênus, Titãs, RPM, Ira! e tantos outros podem, com mais ou menos facilidade, ser rastreadas até seus originais britânicos ou norte-americanos.

No caso específico da Legião Urbana, chega a ser assustadora a quantidade de elementos daquilo que se convencionou chamar "pós-punk britânico" na sonoridade da banda (a saber, a música feita por bandas como Joy Division, The Cure, U2, The Smiths, New Order, entre outros).

Além disso, quem sabe um pouco da história da Legião Urbana sabe, também, do comportamento de "diva do cerrado" do Renato Russo. Num de seus muitos "pitis", se afastou de sua banda (na época, final da década de 1970, a Aborto Elétrico) e viveu uma fase "inspirada" no folk de Bob Dylan, conhecida como a fase do "Trovador Solitário". Ali, germinaram dois grandes sucessos gravados pela Legião Urbana, os quais têm em comum a característica narrativa, ou seja, músicas que possuem personagens vivenciando uma história com começo, meio e fim, ou o que as teorias literárias chamam de "épica", bem comum nas chamadas "modas de viola".

A respeito do primeiro sucesso, Eduardo E Mônica, gravado no disco Dois, lançado em 1986, as palavras de Regis Tadeu foram antológicas e definitivas:

"Considerada por muitos como uma 'linda história de amor', esta longuíssima música é um verdadeiro tratado sobre a imbecilidade masculina escrito por Renato Russo. O tal do Eduardo não passaria ileso por um hipotético 'Comando de Caça ao Debiloide', mas teve a sorte de chamar a atenção de uma garota metida a intelectual e beberrona. No final, os dois se tornam pais caretas e nossa paciência se extingue como areia em uma ampulheta."

(Fonte: Revista Mosh, setembro de 2004, p. 38)

O segundo, Faroeste Caboclo, foi gravado no álbum Que País É Este 1978/1987, lançado em 1987, uma espécie de coletânea com antigas composições da época da Aborto Elétrico e da tal fase "Trovador Solitário", além de músicas não aproveitadas nos dois primeiros álbuns da Legião Urbana.

Capa do álbum Que País É Este 1978/1987

A saga do tal João do Santo Cristo, com quase dez minutos de duração, palavrões, referências ao uso e tráfico de drogas e contestação política tocou nas estações de rádio Brasil afora até dar calo nos ouvidos da Nação. Dessa forma, Renato Russo trazia à ordem do dia, com vinte anos de atraso, os dilemas com os quais, por exemplo, Bob Dylan e Jim Morrison haviam confrontado o conservadorismo da sociedade norte-americana. Porém, de dentro da nossa realidade embrutecida por um governo autoritário e pela pobreza, Faroeste Caboclo exalava ares de inovação e desafio. Dava a impressão que, dali em diante, nós brasileiros poderíamos ir onde quiséssemos e ninguém seria capaz de nos segurar. Dois anos depois tínhamos elegido  Collor e o sertanejo e o axé abriam, plenos, suas asas sobre nós.

Na história da música nacional ficou uma anomalia: uma época em que o texto consciente de meia dúzia de gatos pingados, apesar de nada original, atingiu a cultura de massa, dando a impressão de que era possível "dançar e pensar" ao mesmo tempo.

Desafiando a empáfia intelectualoide de um balde de sociólogos, o genial Tim Maia, do alto de sua sabedoria de rua, já havia dado o toque: "o povão quer música para chacoalhar o esqueleto e para chorar dor-de-corno."

Para fechar com chave de ouro, Faroeste Caboclo acabou virando filme, lançado em 2013 e, para variar, apelando para um reducionismo empobrecedor: a velha lenga-lenga do preto pobre que tenta desafiar seu destino apelando para o único meio possível, a marginalidade. Se, ao menos, os roteiristas e produtores do filme tivessem se preocupado em considerar as opiniões do próprio Renato Russo a respeito dos personagens da canção, o filme teria maiores chances de ser surpreendente, de desafiar o lugar comum.

Cartaz do filme Faroeste Caboclo

Numa entrevista à revista Bizz, na época do sucesso de Faroeste Caboclo, Renato Russo disse que concebeu João de Santo Cristo como o típico "rebelde sem causa", branco e classe média, tentando provar sua honra em meio à pobreza comum ao povão brasileiro, o que pode servir como metáfora à própria condição de Renato diante do sucesso popular. Daria, no mínimo, um enredo bem menos previsível, se é que, no Brasil, alguém precise de uma arte que não seja previsível.
    

segunda-feira, 13 de julho de 2015

DIA MUNDIAL DO ROCK: UMA REFLEXÃO



Sabemos muito bem que as datas comemorativas existem com intuito comercial. Quem gosta de algo não precisa de uma determinada data para lembrar que ele existe. As datas comemorativas são arapucas para capturar incautos. Sem contar que é, também, um convite para, no restante do tempo, esquecermos daquilo que é comemorado.

O rock está, no seu nascimento, intimamente ligado ao sentido de três palavras: liberdade, rebeldia e transgressão. Em seus primórdios, quando atende melhor pelo nome de rock'n'roll, o rock foi deliciosamente inconsequente, intransigente e descerebrado e o roqueiro marginalizado pela sociedade. Em 1958, quando o rock tinha mais ou menos três aninhos de idade, seu ícone maior vai servir o exército e passa a cultivar a imagem de genro dos sonhos de toda mãe de família. Para muitos, o rock morreu aí. Aí vieram os Beatles com aqueles terninhos e cortes de cabelo remetendo a ginasiais retidos numa bolha de eternidade, cumprimentando o público como se tivessem executado um concerto erudito. Ou seja, nada menos rock'n'roll. Paralelamente, através da música folk, Mr. Dylan iniciava o processo que acabaria levando o rock a ser encarado como manifestação cultural séria.

É lógico que, ao longo de sua história, o rock desintoxicou-se de seus excessos, sempre retomando o básico de sua simplicidade, daí sua longevidade e relevância. O equilíbrio ou oscilação dentro do paradoxo diversão/reflexão, ou seja, uma arte que amalgama em suas características elementos diametralmente opostos, além de aglutinar aspectos musicais os mais diversos em suas formas de expressão impediram a estagnação do rock. Em resumo, tem para todos os gostos. 

Mas, para o Dia Mundial Do Rock fala mais alto o lado "sério", visto que o rock precisou ser meio madre Teresa de Calcutá, meio São Francisco de Assis, através do Live Aid, para a ordem mercadológica decidir que ele merecia ser comemorado. Como se isso fosse necessário. Será que para quem gosta de rock não foi mais importante o dia em que Chuck Berry terminou de gravar Johnny B. Goode, ou o dia em que um branquelo pé rapado entrou pela primeira vez na Sun Records, por exemplo?

É típico da cultura ocidental, onde o rock se desenvolveu, a crença na capacidade de mudar o mundo, na capacidade de construir um mundo melhor, o que legitima a razão, o humanismo mas, também, o capitalismo. Fazer isso através da arte seria o suprassumo da utopia. Mas,utopia tem que continuar utopia, senão vira realidade e toda arte, inclusive o rock, é uma espécie de descanso da realidade. No equilíbrio entre a sagacidade e a inconsequência, um roqueiro brasileiro, muito antes do Live Aid, já vaticinava:

"Não quero
Mudar o mundo com esse papo furado
Só acredito em quem pulou o cercado
Quatro bulldogs vigiando o portão."

E viva o rock.


terça-feira, 7 de julho de 2015

POLITICAMENTE CORRETO: 11 CAPAS DE ÁLBUNS CENSURADAS.

Por conta de nossas recentes experiências políticas, a palavra censura está cercada de uma espécie de tabu, como se o simples fato de não proferirmos determinadas palavras significasse que estamos no caminho certo, rumo a um futuro brilhante. Pura hipocrisia. Não é pelo fato de, legalmente, a censura ter sido extirpada de nosso cotidiano que ela deixou, realmente, de existir. Ao contrário, se faz muito presente no nosso cotidiano sob os mais diversos disfarces. O mais comum atende pelo nome de politicamente correto.

Nossa experiência legal (no sentido de legitimado pela lei) com a censura deu ênfase no aspecto político-ideológico do proibido. Porém, a proibição de uma determinada ideia, não importando o meio pelo qual ela se manifeste, em circular livremente em uma determinada sociedade, que é, em última instância, a definição básica de censura, não se restringe à legitimação legal de aspectos político ideológicos.

A censura não foi (e nem é) privilégio de nossas experiências com governos autoritários. Os Estados Unidos, por exemplo, que se autoproclamaram guardiões universais da liberdade têm, em seu currículo, verdadeiros atentados  à Primeira Emenda de sua "sagrada" Constituição. O motivo: zelar pela moral e os bons costumes. 

No caso da música, é notória a maneira em como a liberdade constitucional de expressão é suprimida por uma mentalidade puritana hipócrita  com o aval da indústria, a qual, por sua vez, leva em conta os possíveis prejuízos de um "boicote" à produções consideradas "imorais". 

As capas de álbum que, por um momento, considerando a história da música como um todo, tiveram tanta relevância artística quanto os fonogramas que embalavam, muitas vezes foram vitimadas, pelos mais diversos motivos e, para irem a público, fatalmente tiveram de se "desdizer" através de, geralmente, insípidas "versões família".

Abaixo uma lista de 11 capas de álbum, dispostas em ordem cronológica, que, por um motivo ou outro, ofenderam a moral e os bons costumes e tiveram que se retratar. Raramente a emenda fica melhor que o soneto mas, como existe gosto pra tudo, elas estão aí, para a apreciação.

1. YESTERDAY AND TODAY - THE BEATLES (1966)






2. MOBY GRAPY - MOBY GRAPY (1967)






3. ELECTRIC LADYLAND - THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE (1968)





4. COUNTRY LIFE - ROXY MUSIC (1974)






5. VIRGIN KILLER - SCORPIONS (1976)






6. SLIPPERY WHEN WET - BON JOVI (1986)





7. APPETITE FOR DESTRUCTION - GUNS N ROSES (1987)





8. AMORICA - BLACK CROWES (1994)





9. SUPERSEXY SWINGIN' SOUNDS - WHITE ZOMBIE (1996)





10. PARTY MUSIC - COUP (2001)





11. IS THIS IT - THE STROKES (2001)


   

CLASSIC COVER & COVER


Elvis Costello And The Atractions - Armed Forces (1979) e...

Kamala Mantra - (2015).





sexta-feira, 3 de julho de 2015

LESTER BANGS: "JORNALISMO ROCK'N'ROLL"

Lester Bangs

Até meados dos anos 1960, o rock era tratado pela mídia impressa como frivolidade, em textos com profundidade intelectual de uma revista Capricho. Segundo André Forastieri, o "jornalismo rock'n'roll" foi criado por Paul Williams em 1966, quando ele fundou a revista Crawdaddy!.

A partir daí, o rock, gradativamente, passou a ser encarado como manifestação artística digna de consideração. Para tanto, contribuíram a proximidade do estilo musical com o posicionamento pró Direitos Civis e anti-bélico da juventude norte-americana durante a Guerra do Vietnã, as experimentações dos músicos de rock com música erudita e de vanguarda e referências literárias nas obras de artistas como Bob Dylan e Jim Morrison, por exemplo.

Um dos primeiros focos do jornalismo rock'n'roll foi a revista Rolling Stone, fundada em São Francisco no final da década de 1960. E foi através de suas páginas que o mundo veio a conhecer o ícone-mor da escrita rock'n'roll: o jornalista Lester Bangs (1948-1982).

Uma das características de Lester, enaltecida por colegas de profissão, é o fato dele ter escrito como se trocasse confidências com um amigo. Outra, esta apontada por ele próprio, foi a vocação de querer que as pessoas gostassem da mesma coisa que ele, herdada de suas experiências como Testemunha de Jeová. Tudo isso, somado a argumentos expostos com rara precisão e esperteza e muita, muita paixão torna a leitura de Bangs desafiadoramente viciante.

Lester Bangs, a exemplo dos mais fascinantes músicos de rock, desenvolveu em sua escrita uma verve iconoclasta, contestadora e ácida. Quatro anos depois de ter se iniciado na imprensa musical na Rolling Stone, foi demitido da mesma por "desrespeitar os músicos". Seu primeiro texto publicado foi uma resenha desdenhando, sem piedade, o incensado álbum Kick Out The Jams, da banda MC5. Escreveu que o, hoje, clássico Exile On Main Street, dos Rolling Stones era "o pior disco de todos os tempos" e descreveu Bob Marley como "mais um hippie circulando de BMW pelo Terceiro Mundo". E, ainda, não tinha medo de, no mês seguinte, contradizer radicalmente suas próprias opiniões. 

Lester Bangs trouxe para o jornalismo musical o estilo gonzo, onde o jornalista acaba, também, como personagem da sua escrita. Assim, seus textos podem ser acusados de tudo, menos daquela frieza científica e arrogância "além do Bem e do Mal" tão afeitas à crítica musical.

No Brasil, fragmentos da obra  Psychotic Reactions And Carburetor Dung, antologia de artigos de Lester, são encontrados em Reações Psicóticas, um dos volumes da Coleção Iê Iê Iê, publicado pela editora Conrad no ano de 2005. Ali pode ser conferida a sua lendária entrevista com Lou Reed e sublimes textos sobre as mortes de Elvis e Lennon.

Psychotic Reactions And Carburetor Dung

Reações Psicóticas

No fim de sua vida, Lester afirmava não ser mais um músico frustrado, acusação comum sofrida pelos críticos de rock, pois fazia parte da banda Lester Bangs And The Deliquents. Porém, para quem gosta não apenas de ouvir mas, também, de ler um bom rock, Bangs sempre fez música. Como os melhores roqueiros, viveu e produziu intensamente em sua curta existência.

A imprensa musical está intimamente vinculada à industria da música e, como tal, em vias de extinção. Mas se, no caso nós, brasileiros, ainda podemos apreciar um quarto de dúzia de gatos pingados que desafiam, em seus textos, o lugar comum da indulgência pura e simples em relação a "ídolos midiáticos", como por exemplo André Forastieri, Régis Tadeu e Miguel Sokol estes, por sua vez, são, em seus melhores momentos, xérox desbotados perto do original: o bom e velho Lester.