The Good & Old Rock'n'roll

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Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

sábado, 25 de julho de 2015

VESPAS MANDARINAS: POESIA CONTRA A ANEMIA

Uma das gratas surpresas do rock nacional nos últimos anos, a banda Vespas Mandarinas tem lançado, em 2015, DVD com show baseado em seu álbum de estreia Animal Nacional, no qual a temática e o enfoque das letras desafiam o marasmo e o lugar comum num rock direto e urgente. 


VESPAS MANDARINAS - ANIMAL NACIONAL (AO VIVO)

A banda Vespas Mandarinas, quando do seu surgimento, despontou como possibilidade de livrar o rock nacional do estado anêmico que, há décadas, o avassala, principalmente em relação à sua condição midiática.

Idealizada pelos guitarristas-vocalistas Thadeu Meneghini, que tocou no trio Banzé! e Chuck Hipolitho, do Forgothen Boys, a banda foi definida com a entrada do baterista André Dea e do baixista Flavio Guarnieri. Depois de aparar as arestas em dois EPs, lançaram, em 2013, Animal Nacional, o ótimo primeiro álbum, que é a base deste DVD, gravado, também em 2013, no Centro Cultural de São Paulo e lançado agora.

O palco no nível e em meio à plateia, as imagens captadas abusando da super e subexposição de luz e a iluminação simples realçam, e dão peso, às características sonoras da banda: um rock curto, grosso e urgente em sua sonoridade, com claras influências "garageiras".

As letras, no entanto, são realmente o diferencial da banda. Muitas vezes os integrantes afirmaram ter como parâmetro os "grandes letristas" do rock nacional dos anos 1980, fato endossado nas parcerias entre eles e Bernardo Vilhena (antigo letrista de Ritchie e Lobão, entre outros), e entre eles e Arnaldo Antunes.

Porém, longe da veneração e da reciclagem, comuns nesses casos, as letras das Vespas Mandarinas trazem a "relevância poética" normalmente associada àquela época para a realidade atual.

Assim, a mediocridade que, muitas vezes, norteia nossas atitudes cotidianas é pega de calça na mão em versos de extrema beleza e exatos, em cada uma de suas letras, valorizando o tempo do espectador como único, sem necessidade de uma segunda chance.

Um exemplo é a tocante balada Distraídos Venceremos, cujo título foi "roubado" de um livro do poeta paranaense Paulo Leminski:

"Sinto muito se é mais triste a verdade
Cedo ou tarde, se chega a essa conclusão
O herói é o último na fila dos covardes
Aquele a quem não restou outra opção

Cuidado ao matar seus demônios
O equilíbrio vive entre a virtude e o vício
E a gente nunca sabe qual é o defeito
Que sustenta esse nosso edifício

E a gente chora, em segredo, mais por prazer que pela dor
E a gente grita porque, às vezes, o silêncio é mais ensurdecedor

Nas rugas que trago do berço
Não há passado nem tampouco futuro
Assim como em todo Universo
Até mesmo o Sol tem o seu lado escuro

Aqui onde nascemos
Pensamos, sofremos
Criamos, sabemos
Sonhamos,  fazemos
Cagamos, vivemos
Amamos, fudemos 
Provamos que mais é menos

As letras das Vespas Mandarinas, em sua grande maioria, são da autoria de Adalberto Rabelo, uma espécie de "quinta vespa", parceiro de Thadeu desde a época do Banzé!. A propósito, ele participa fazendo vocal em algumas delas, bem como a banda baiana Vivendo Do Ócio, que reforça os vocais de O Herói Devolvido.

No aspecto sonoro é, ainda, digna de observação a textura das guitarras que, ao longo das músicas, vão se entrelaçando harmonicamente numa "simplicidade" que chega a ser revigorante, diante dos "malmsteens nossos de cada dia". Se o rock nacional ainda não saiu de seu estado anêmico, a culpa não é das Vespas.

E por falar em guitarra, fechando o show, há a participação do Edgar Scandurra em três (!) covers de sua banda, o Ira!, influência confessa das Vespas. Aqui cabe o único senão do DVD. Uma das fraquezas do rock brasileiro é a falta de espaço para o trabalho autoral. Talvez, se os "covers" estivessem distribuídos ao longo do show, já que o repertório da banda é curto, fosse diferente, mas a impressão que fica é a de que "estava indo tão bem", ainda mais se levarmos em conta que o repertório próprio não fica devendo nada para as músicas da banda do Edgar.

O ataque das Vespas.




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