The Good & Old Rock'n'roll

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Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

"KRIG-HA, BANDOLO!": O "MARCO ZERO" DO ROCK NACIONAL

Em 1973 Raul Seixas lançava seu primeiro álbum solo, misturando, com uma sagacidade absurda ritmos nordestinos ao rock, bem como conceitos filosóficos à linguagem popularesca, além de camuflar uma contestação ácida num suposto texto nonsense, atingindo um resultado artístico que é, até hoje, referência.

 

Se existe um rock nacional, este é o seu "marco zero". Mas Os Mutantes e a turma da Tropicália já não haviam misturado ritmos nacionais com o rock? Sim, claro, porém, tal mistura, na Tropicália, possui um ranço intelectualóide, como o de cientistas num laboratório fazendo experimentos, enquanto que, aqui, quase não se pode falar de mistura pois os ritmos nacionais  estão tão amalgamados ao rock que é difícil saber onde começa um e termina o outro.

Aqui, também, o conceito de protesto não abre concessão. Senão, vejamos: o álbum abre com uma gravação caseira de Raul criança, na base da empolgação, esgoelando uma versão de Good Rocking' Tonight. De repente, o inusitado: a roda de capoeira de Mosca Na Sopa. O que é que, na história nacional, foi mais incômodo para a elite dominante que a afirmação cultural negra? Qual é a melhor metáfora para o descontrole social, além de qualquer credo, ideologia ou partidarismo senão a de uma mosca? Fora uma meia dúzia de gatos pingados que, no "milagre brasileiro", tiveram o privilégio de uma formação universitária e, consequentemente, ideológica, o povão estava ao "Deus dará", caindo e se levantando como mosca, alheio a qualquer liderança.

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores, de Geraldo Vandré era, direta e objetivamente, uma canção de protesto, mas padece de um enfado "hippongo" e, pior, não mascara o ressentimento típico da esquerda em não poder ser o que a direita é: vamos livrar a sociedade da opressão errada e instaurar a opressão correta.

Metamorfose Ambulante não deixa dúvida. Se havia algum pedaço de dogmatismo, crença ou convicção se aguentando ele, agora, vai por terra. É a liberdade individual da transformação através do conhecimento posta como bem supremo e inalienável do ser humano.

Dentadura Postiça e As Minas Do Rei Salomão dão uma baixada na bola e trazem o embrião do "misticismo para as paradas de sucesso" que, juntamente com Paulo Coelho, será melhor explorado no álbum Gita. Dizem que o título da primeira é um trocadilho com "ditadura". Se for, das duas uma: ou a ditadura da época não era tão feia como se pinta ou era burra pacas. Isso sem contar que a versão para As Mina Do Rei Salomão presente no álbum Há 10 Mil Anos Atrás tem muito mais punch.

Num clima de trilha sonora para uma ficção científica interplanetária da época, A Hora Do Trem Passar é uma canção de despedida, onde o fascínio e o terror do desconhecido, presentes em qualquer partida é a promessa de viagens a outros mundos. Tudo isso embalado num lirismo de doer.

Al Capone, em sua levada "hendrixiana" e largadona, brinca com mitos históricos (inclusive o próprio Hendrix!) e com as limitações espaço/temporais.

How Could I Know?, uma tocante balada sobre o despertar e a afirmação da individualidade encerra com o dilema da história eleger como mártir os corajosos, numa espécie de complemento sério à brincalhona Al Capone.

Rockixe é uma Mosca Na Sopa despida da fábula e reforça a postura "egoísta" (no sentido filosófico de engrandecimento e valorização do "eu") tão cara a Raul Seixas durante a década de 1970, enquanto Cachorro-Urubu seria o outro lado da moeda, enaltecendo a força da coletividade, com referências às movimentações estudantis que partiram da França de 1968. Coisas da metamorfose ambulante.

Por último, Ouro De Tolo. Talvez, juntamente com algumas canções de Zé Ramalho, a mais perfeita tradução do espírito "dylanesco" de composição para o cancioneiro nacional. Na lírica (letras) é, também a mais direta e o que, no restante do álbum, se insinuava  é, aqui, escancarado: uma exímia "puxada de tapete" na perfeição do  mundinho classe média que, em seus pequenos confortos escondia grandes lavagens cerebrais. 

O instrumental dispensa comentários pois, qualquer um que conheça um pouco da carreira do "Maluco Beleza" sabe que, antes de cantor de sucesso, ele foi produtor musical e, assim sendo, dominava a técnica de tornar viável e convincente qualquer estilo musical para o ouvido consumidor. Assim, o "desleixo", a "espontaneidade", a gana, a pegada e a atitude por trás de cada canção foram cuidadosamente planejados, tanto que muitas vezes os especialistas no assunto subestimaram o executor. Algo que não ocorreu à Tropicália que, a propósito, pactuava intencionalmente com os conceitos antropofágicos de Oswald de Andrade: "a massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico." Será que o povão consumiu a Tropicália como consumiu Raulzito?

Raulzito