The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

BOB DYLAN: "ELOGIO À TRAIÇÃO"

Dylan
Dylan em meados dos anos 1960

Um dos artistas mais "pirateados" da história, desde o início da década de 1990, Bob Dylan resolveu se "auto-piratear", lançando álbuns com gravações até então não aproveitadas em seus discos oficiais. É a famigerada Bootleg Series que, do ano de 1991 para cá, possui 11 volumes lançados.

No início de novembro de 2015 será lançado The Cutting Edge, o volume 12, abordando aquele que é considerado, por especialistas, o período áureo na trajetória artística de Mr. Zimmerman, ou seja, as gravações realizadas entre 1965 e 1966, quando foram lançados os álbuns Bringing It All Back Home (1965), Highway 61 Revisited (1965) e Blonde On Blonde (1966), todos ostentando, com o passar do tempo, a condição de "clássicos".

Bringing It All Back Home

Highway 61 Revisited

Blonde On Blonde

Na época, Bob Dylan abandonou a zona de conforto conquistada com seus quatro primeiros álbuns, baseados num minimalismo folk com letras que podiam ser interpretadas como "protesto", consideradas, inclusive por poetas renomados, exemplo de poesia, o que acabou lhe rendendo a condição de "voz de sua geração".

Contaminado pela influência do movimento musical chamado "Invasão Britânica", particularmente pela música dos Beatles, Bob Dylan abraçou a eletricidade do rock'n'roll, criando um som bastante carregado em nuances do Blues de Chicago como base para letras remetendo às estéticas simbolista, dadaísta e surrealista de poesia.

Tudo isso, somado ao abandono da imagem de simplicidade proletária da fase folk em prol de uma excentricidade rockstar fez Dylan ser considerado um "herege" pela puritana comunidade da música folk  norte-americana, rendendo-lhe a alcunha de "traidor". 

O fato é que, mesmo dentro da suposta simplicidade de seus primeiros álbuns, era complicado rotular o trabalho de Bob Dylan com base num maniqueísmo simplório bem contra mal.

Na adolescência, o sonho do jovem Zimmerman era se juntar à banda de Little Richard e, parafraseando o título de seu primeiro álbum com elementos rockeiros, Dylan trazia "tudo isso de volta pra casa", isto é, mostrava que o rock podia, novamente, desafiar o marasmo cultural das paradas de sucesso norte-americanas, revigorando um estilo musical que, independente da presença das bandas inglesas, havia se estagnado em solo pátrio, na virada da década de 1950 para a de 1960.

Como é comum nos volumes das Bootleg Series, muito provavelmente aquilo que foi "descarte" na produção artística  da época deve se fazer, ainda hoje, exemplo de uma arte que passa longe do comodismo.

Bootleg Series Vol. 12: 1965-1966 The Cutting Edge...

The Cutting Edge, assim como os outros volumes da Bootleg Series terá a imprescindível Deluxe Edition para arrancar babas e dólares dos aficionados por um artista que, até hoje, não se furta em "trair" a grandiosidade de suas conquistas em nome do desafio. Rock até o talo.

...em todo seu esplendor.

Notas:

O título Elogio À Traição foi roubado da peça teatral homônima escrita por Chico Buarque e Ruy Guerra na década de 1970.

O texto acima foi escrito originalmente para o site Whiplash.net.


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

CAPAS CLÁSSICAS

Surfer Rosa - Pixies (1988)

Uma dançarina de flamenco em topless numa cena carregada de simbolismo religioso sintetizou com maestria o clima musical da banda, com referências bíblicas, espanhol de turista americano se esbaldando na fronteira mexicana e a sensualidade no limite entre a luxúria e o pecado. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

THE BEATLES: PAUL E O HOFNER 500/1

O impacto visual sempre foi numa característica marcante na história do rock. Sendo assim, é comum a busca por uma imagem original , que destaque um artista ou uma banda em relação aos demais.

Os beatles são um claro exemplo do cuidado profissional e empresarial relacionado aos aspectos visuais, principalmente após o empresariamento de Brian Epstein. Assim, gradativamente, foi abandonada a imagem casca-grossa derivada da influência dos roqueiros pioneiros dos anos 1950, em favor da imagem limpa do terninho e gravata e do corte de cabelo que remetia a uma pureza infantil.

The Beatles: antes...

... e depois.

Os Beatles também tiveram o cuidado de vincular sua imagem ao uso de determinados instrumentos musicais. A guitarra Fender Stratocaster, por exemplo, apesar de sua exímia funcionalidade, era evitada por ser associada aos conterrâneos do The Shadows, ao menos em fotos promocionais e nos concertos, sendo, porém, em certas ocasiões, utilizada no estúdio.

Um dos fortes apelos visuais dos Beatles é o contrabaixo com  corpo em forma de violino, utilizado por Paul McCartney não somente durante a  existência da banda, mas até os dias atuais.

Paul e seu amigo inseparável.

É sabido, ao menos para os que acompanham a história da banda, que Paul não foi o baixista original dos Beatles. Ele assumiu o instrumento que, antes, era de Stu Sutcliffe, o qual, segundo consta, ocupava o posto mais por ser amigo ( de acordo com as más línguas, até mais que amigo) de Lennon, que acreditava ser mais importante para a banda a "boa pinta" do amigo que sua capacidade instrumental, propriamente dita.

George, Stu e John ( da esquerda para a direita)

Conforme a banda progredia, as limitações de Stu se tornavam mais evidentes, o que fez ele acabar se dedicando ao seu verdadeiro talento: as artes plásticas, deixando o posto de contrabaixista para Paul pois, segundo o próprio, ninguém mais o quis, por ser o instrumento menos glamouroso em uma banda de rock.

No início, Paul tocou com o baixo de Stu emprestado (um Hofner "classudo", como pode ser observado na imagem acima), mas acabou optando por um outro modelo Hofner, o 500/1, já que era mais simétrico, compensando o fato dele ser canhoto e, principalmente, mais barato. No entanto, de acordo com  o próprio McCartney, era um "verdadeiro pedaço de pau, onde se produzia um som decente com muita dificuldade.

Hofner 500/1 Modelo 1961
Com isso, Paul criou uma nova identidade para o novo baixista dos Beatles e conforme a banda ia conquistando evidência, a fábrica alemã tinha seu modelo promovido e, assim, realizou algumas melhorias nos novos modelos que foram dados de presente ao seu maior garoto propaganda.

Hofner 500/1 Modelo 1962

Hofner 500/1 Modelo 1964

Fontes:

MILES, Barry. Paul McCartney: Many Years From Now. São Paulo: DBA, 2000.

SOUNES, Howard. Fab: A Intimidade de Paul McCartney. Rio de Janeiro: Best Seller, 2011.

The Beatles: 50 Anos Da Melhor Banda De Todos Os Tempos. Discovery Publicações.

Observação: O texto acima foi escrito originalmente para o site Whiplash.net.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

CÁSSIA ELLER: REGISTRO CASEIRO DA CANTORA EM SEUS PRIMÓRDIOS

É lançado, pela gravadora Coqueiro Verde, um conjunto de gravações caseiras de Cássia Eller, realizadas na cidade de Brasília, no final do ano de 1983, bem antes do início de sua trajetória discográfica.


Antes de, em 1990, gravar seu primeiro álbum, a cantora Cássia Eller já era dona de toda uma trajetória artística. Apesar disso, seus dois primeiros álbuns são uma espécie de busca do seu legítimo lugar na música nacional, definido no disco Cássia Eller, lançado em 1994. Aí se tem a sua marca registrada: uma intérprete transitando entre o Rock e a MPB, porém, sempre com uma pegada rockeira sobressaindo em suas interpretações. 

O Espírito Do Som Vol. 1 Segredo - Cássia Eller Em Brasília é uma espécie de rascunho da Cássia Eller conhecida. São gravações caseiras realizadas em Brasília, bem antes do início de sua trajetória discográfica oficial e, assim, tem um apelo muito grande para os fãs que gostam de colecionar tudo do seu artista preferido.

E, como rascunho, o que há de melhor nas gravações foi aprimorado em seus álbuns oficiais e lapidado em suas experiências de palco. É só comparar a versão de Golden Slumbers daqui com a que Cássia gravou para  o DVD Submarino Verde E Amarelo. Além de Golden Slumbers, o gosto da cantora pelos Beatles também se manifesta em versões de For No One e Happiness Is A Warm Gun.

A bela versão de Sua Estupidez, de Roberto e Erasmo ao lado de Segredo, de Luiz Melodia e de Ne Me Quitte Pas, do cancioneiro francês poderia indicar um conjunto esquizofrênico, no entanto, são todas vergadas pela forte personalidade artística de Cássia e, assim, há coesão no conjunto de canções.

Há, ainda, a gravação de Flor Do Sol composição de Cássia. A cantora ainda gravaria suas raras composições nos dois primeiros discos, abandonando, em seguida, o costume.

O fato de as gravações serem apenas voz e violão somado à voz ainda "verde" da cantora, a qual, em algumas canções, padece de um vibrato estridente transmite um certo ar monótono ao álbum (o álbum O Lado Do Avesso, também em voz e violão, gravado bem depois, descontando os aspectos técnicos da gravação, escancara a evolução artística de Cássia), o que não quer dizer que não vale a pena ouvi-lo, principalmente se se for uma admirador do trabalho da artista, ainda mais nesses tempos onde uma tal de Maria Gadú é saudada como "a nova Cássia Eller". O álbum ajuda a por as coisas em seu devido lugar.

Cássia Eller: "retrato da artista quando jovem"