The Good & Old Rock'n'roll

The Good & Old Rock'n'roll
Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

TOP 10: ROCK INSTRUMENTAL NACIONAL

Já foi abordada aqui, em outra matéria, o significado da música instrumental, no que diz respeito ao rock, e sua rara possibilidade em flertar com o sucesso popular. Em relação ao rock nacional que, fora um breve momento, lá nos anos 1980, possui espaço restrito na mídia, a situação da música instrumental é ainda mais difícil. Isso não quer dizer que, mesmo assim, músicos nacionais não se dediquem às famigeradas "músicas sem letras". Atualmente, as ótimas bandas Macaco Bong e ruído/mm são, entre outras, significativos exemplos da quixotesca arte de compor música instrumental. 

Por toda a história do rock nacional, podemos encontrar exemplos de bandas que, num momento ou noutro, se dedicaram a compor e a gravar música instrumental em seus álbuns. Segue, abaixo, na ordem cronológica das gravações, dez desses momentos instrumentais no rock nacional. Concorde. Discorde. Levante outras possibilidades ou, simplesmente, curta.

1. Oh, Mulher Infiel - Os Mutantes (1970)



2. Ponto Final - O Terço (1975)



3. Central Do Brasil - Legião Urbana (1986)



4. Naja - RPM (1986)



5. Camisa De Vênus - Chuva inflamável (1987)



6. Retorno - Violeta De Outono (1987)



7. Quero Voltar Pra Casa - Edgard Scandurra (1989)



8. Kaiowas - Sepultura (1993)



9.Indiana Blues - Celso Blues Boy (1996)



10. Quarta De Cinzas - Planet Hemp (2000)


















terça-feira, 1 de novembro de 2016

WOLDN'T YOU MISS ME (DARK GLOBE) - SYD BARRETT (TRADUÇÃO)

A canção Woldn't You Miss Me (Dark Globe) foi composta e gravada originalmente por Syd Barrett e lançada em 1970, em seu álbum The Madcap Laughs.


VOCÊ NÃO SENTIRIA MINHA FALTA (GLOBO ESCURO)


Oh, onde está você agora
Salgueiro que sorriu nesta folha?
Quando eu estava sozinho
Você me prometeu uma pedra de seu coração
Minha cabeça beijou o chão
Eu já havia descido a metade da trilha de areia

Por favor,
Por favor levante a mão
Eu sou apenas a pessoa 
Cujas pulseiras chacoalham em suas mãos
Levante-as

Você não sente minha falta?
Você não sentiria minha falta afinal?

O caminho do pássaro de papoula
Balança galhos com marcas de café por aí
Brandindo sua varinha de condão
Com uma língua plumada
Minha cabeça beijou o chão
Eu já havia descido a metade da  trilha de areia

Por favor, por favor,
Por favor levante a mão
Eu sou apenas a pessoa
Com a corrente esquimó
De todo jeito tatuei meu cérebro

Você não sente minha falta?
Você não sentiria minha falta afinal?









sábado, 1 de outubro de 2016

TOP 10: O ROCK VAI AO CINEMA


O rock e o cinema estão desde seu nascimento, intimamente interligados e um, fatalmente, serviu como complemento do outro, conforme o american way of life disseminava-se pelos quatro cantos do mundo no pós-guerra. No entanto, tal relação teve no cinema, por suas características mais completas (o áudio somado ao visual),  o veículo perfeito para a disseminação do estilo de vida rocker fora das fronteiras estadunidenses.

Antes mesmo do cinema perder sua mudez, músicos já eram contratados para complementarem as imagens com bases instrumentais, o que acabou originando as trilhas sonoras. Assim, a história do cinema brinda aos seus amantes verdadeiras pérolas que, em forma de música, chegam, muitas vezes, superar sua contraparte visual. Daí, o fato de, em muitas listas de álbuns que marcaram a história da música, não raro, estar presente alguma trilha sonora. 

No caso do rock'n'roll norte-americano, logo após o seu nascimento, ele ganhou projeção internacional por causa da inclusão da canção Rock Around The Clock, Gravada por Bill Halley and His Comets para a trilha do filme Blackboard  Jungle (no Brasil, Sementes Da Violência), lançado em 1955. De lá para cá, o rock sempre marcou presença nas mais diversas trilhas sonoras dos mais diversos filmes. Segue, abaixo, um Top 10 com bons momentos do rock no cinema. Como é impossível agradar a gregos e troianos ou, se preferirem, cabeludos e moicanos, usem o espaço dos comentários para, além de serem mal educados com o redator, listarem suas próprias preferências. A ordem segue a cronologia das datas de lançamento dos filmes.

ADVERTÊNCIA: A lista considera a presença do rock em trilhas sonoras e não filmes de e sobre rock.

1.ROCK AROUND THE CLOCK - BILL HALLEY AND HIS COMETS (SEMENTES DA VIOLÊNCIA - 1955)







2.SOUND OF SILENCE - SIMON & GARFUNKEL (A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM - 1967)






3.BORN TO BE WILD - STEPPENWOLF (SEM DESTINO - 1969)






4.LIVE AND LET DIE - PAUL MCCARTNEY & WINGS (007: VIVA E DEIXE MORRER -1973)





5.THE END - THE DOORS - (APOCALIPSE NOW - 1979)






6.EYE OF THE TIGER - SURVIVOR (ROCKY III - 1982)





7.PET CEMETERY - RAMONES (CEMITÉRIO MALDITO - 1989)






8.YOU COULD BE MINE - GUNS N' ROSES (EXTERMINADOR DO FUTURO II - 1991)






9.STREETS OF PHILADELPHIA - BRUCE SPRINGSTEEN (FILADÉLFIA - 1993)






20.THINGS HAVE CHANGED - BOB DYLAN (GAROTOS INCRÍVEIS -2000)






OBSERVAÇÃO: Gostaria de agradecer aos amigos Gerson Marcos Pereira Neres e Jaice Leite pela troca de ideias sobre o assunto.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

IF I HAD POSSESSION OVER THE JUDGMENT DAY - ROBERT JOHNSON (TRADUÇÃO)

Robert Johnson

A canção If I Had Possession Over The Judgment Day foi gravada por Robert Johnson no dia 27 de novembro, uma sexta-feira, no ano de 1936. Ela faz parte da tradição folclórica de aproveitar temas melódicos, harmônicos e líricos de músicas anteriores. Assim, ela lembra outras canções, sendo a mais famosa, Rolling And Tumbling, gravada por Muddy Waters. Ficou inédita até a obra de Johnson começar a ser editada em LPs, na década de 1960. Segundo os registros, foram gravados dois takes, mas o segundo se perdeu.

SE EU MANDASSE NO DIA DO JUÍZO

Se eu mandasse no dia do juízo
Se eu mandasse no dia do juízo
Senhor, a pequena que eu amo não teria direito a uma oração

Eu fui para a montanha olhando até onde a vista alcançava
Eu fui para a montanha olhando até onde a vista alcançava
Um outro homem tem minha mulher e o blues solitário tem a mim

Eu rolei e caí e chorei por toda a noite
Eu rolei e caí e chorei por toda a noite
Rapaz, levantei de manhã e meu benzinho tinha ido

Tive de me segurar e ir embora
Não gostei do que ela fez
Tive de me segurar e ir embora
Pensei comigo mesmo "Seus problemas vão mas um dia voltam"

Agora corre aqui, baby e sente no meu colo
Agora corra aqui, baby e sente no meu colo
Eu quero te contar como têm me tratado


terça-feira, 2 de agosto de 2016

EVERYBODY KNOWS THIS IS NOWHERE - NEIL YOUNG & CRAZY HORSE (TRADUÇÃO)



A canção Everybody Knows This is Nowhere, composta por Neil Young, foi gravada em 1969, no álbum homônimo, o primeiro do músico canadense com a banda Crazy Horse.

Capa de Everybody Knows This Is Nowhere

TODO MUNDO SABE QUE AQUI É LUGAR NENHUM

Acho que gostaria de voltar pra casa
E ficar numa boa
Há uma mulher que gostaria de conhecer
Vivendo lá

Todo mundo parece saber
Como é estar aqui embaixo
Tenho que sair dessa rotina
Sem sentido
Todos sabem que aqui é lugar nenhum
Todos, todos sabem

Todo tempo penso em voltar pra casa
Pra sombra e água fresca
Quem me dera poder estar lá
Só vendo o tempo passar

Todo mundo parece saber
Como é estar aqui embaixo
Tenho que sair dessa rotina
Sem sentido
Todos sabem que aqui é lugar nenhum
Todos, todos sabem

Neil Young & Crazy Horse



                                       













segunda-feira, 4 de julho de 2016

LOBÃO: "DECADÊNCIA COM DESELEGÂNCIA"?

Depois de uma década, o velho Lobo ataca novamente com um álbum de inéditas, financiado via crowdfunding, cujo tema básico é a realidade política brasileira mas, ou não havia como o conceito artístico assumido escapar da pobreza artística, mascarada em pretensão, ou a relevância do artista é mesmo peça de museu.


Imagem


Seguindo o caminho de seu ídolo Arnaldo Baptista, Lobão resolveu, pela primeira vez, tocar ele mesmo todos os instrumentos na gravação de seu mais novo álbum. Talvez por isso, essa inocência do principiante, musicalmente o álbum dá a impressão de pecar pelo excesso ou, mais inclementemente falando, possui uma sonoridade pretensiosa, descambando facilmente para o poluído. Viradas de bateria desnecessárias, pistas coaguladas de guitarras, linhas de baixo saturadas e teclas "mezzo clássicas" parecem nos perguntar a todo instante: viram como eu toco bem? Por outro lado, o próprio Lobão, na divulgação do álbum, não poupou referências às unanimidades da música clássica na descrição das músicas. Então?

Outro ponto complicado são as letras. Música de protesto ou é oito ou oitenta. Se não for uma obra prima é um porre. Em seus melhores momentos (que, ao contrário do que afirma muita gente, não são poucos), Lobão esteve escudado por grandes letristas. Quando assumiu a pena, escreveu grandes letras, como as do álbum "Nostalgia Da Modernidade", por exemplo, mas já deixava entreouvir uma certa verborragia que, no ótimo "A vida É Doce" e no nem tanto "Canções Dentro Da noite Escura", se acentuou. Em seus melhores momentos (quando consegue se ater a um certo lirismo), o novo álbum parece sobras de estúdio do último.

A divulgação midiática do álbum esteve sempre resvalando nas definições de "épico". Porém, todo épico o é pela posteridade. É a trajetória de uma obra que a define como tal. Toda pretensão artística de compor uma obra épica corre, fatalmente, o risco de resvalar no caricato. Mas não se pode dissociar, hoje, o artista Lobão de suas posições político-ideológicas. Se há algo que não deve ser subestimado no velho Lobo é sua sagacidade. Pode ser que a mediocridade que perpassa todo o conceito artístico por detrás de "O Rigor E A Misericórdia" seja, na verdade, o artista adequando sua arte à mediocridade político-ideológica de sua época. Por isso, e só por isso, leva um 5, mesmo estando o artista se nivelando por baixo. Para terminar, é sintomático o fato do álbum ser precedido por um (outro!) livro contextualizando as gravações. Talvez, como um grande músico, Lobão esteja se tornando escritor.




terça-feira, 14 de junho de 2016

JERRY LEE LEWIS: O PRIMEIRO (E ÚLTIMO) ROCKEIRO


É do senso comum que Elvis Presley seja considerado o "rei do rock". E o rei do rock teve sua imagem pública marcada por um comportamento, no mínimo, condescendente com os valores éticos e morais aceitos pela sociedade de sua época. Por mais que, por fim, segredos fossem revelados por trás de algumas máscaras, a intenção conta muito. E a intenção era preservar uma "boa imagem". A imagem pública do "rei do rock" era a imagem do bom moço. 

O rock'n'roll, desde muito cedo, teve sua imagem associada à delinquência, à criminalidade, à baderna e ao desrespeito aos padrões vigentes numa "sociedade saudável". A convocação de Elvis Presley é entendida por muita gente como estratégia de uma cruzada contra o rock'n'roll, a qual já havia sido iniciada nas apresentações cada vez mais domesticadas do "rei" no programa de Ed Sullivan e teve continuidade na perseguição, de conotações raciais, a qual resultou na prisão de Chuck Berry. O fato é que a média, no início dos anos 1960, não apresentava artistas que oferecessem alguma espécie de desafio ou perigo aos espectadores. 

Porém, apesar de, por essa época, já ter sido extirpado dos holofotes midiáticos, na turma de Elvis surgiu o artista com a postura  que, posteriormente, seria a perfeita definição para o adjetivo "rockeiro": o pianista e vocalista Jerry Lee Lewis. 

Dono de um temperamento extremamente explosivo, "O Matador" (The Killer, seu apelido), desde criança se acostumou a fazer as coisas do seu jeito, não se importando com as consequências. Aos 23 anos, prestes a se tornar, com a já referida convocação de Elvis, o substituto natural em seu reinado, Jerry Lee se casou (pela terceira vez!) com uma prima (embora de terceiro grau) de treze anos de idade. Como se não bastasse, mesmo alertado do perigo, a levou para uma turnê inglesa que internacionalizaria seu nome. Foi o primeiro de uma quantidade infindável de tombos, dos quais ele se levantaria mais intransigente ainda. 

No mundo do rock, Jerry Lee Lewis foi o fundador do comportamento autodestrutivo levado a cabo publicamente, o qual acabou sendo romantizado pelas gerações de rockeiros posteriores. Porém, paradoxalmente, enquanto o seus estilo de vida ceifou muitas "personalidades", aos 80 anos, ele ainda se mantém em pé.

Com uma personalidade forte, nunca se deixou abater, sobrevivendo às mortes dos pais e de alguns filhos, a muitos casamentos fracassados, a doses cavalares de drogas lícitas e ilícitas (as quais abriram sete úlceras em seu estômago), brigas dentro e fora do palco, perseguições de namorados e maridos ciumentos e do imposto de renda  e, além de tudo, o singelo hábito de apreciar o manuseio de armas de fogo, chegando ao ponto de, em certos shows, antes de tocar a primeira nota, aconchegar seu berro sobre o tampo do piano.

Dez anos antes de Pete Towshend e Jimi Hendrix, já havia posto fogo num piano em pleno palco e continuou tocando enquanto as labaredas grassavam. Socava as teclas numa velocidade tão absurda que suas mãos se tornavam invisíveis, quando não as atacava com o salto de sua bota de cowboy ou com a bunda, sem sair do ritmo e do tom e sem depauperar a qualidade altíssima de suas performances. Enquanto as novidades entravam e saiam de moda, O Matador se mantinha irredutível à música que o formou, ou seja, àquela mistura arrasadora de elementos sonoros brancos e negros.




Quando foi queimado pela mídia como possível sucessor de Elvis, encontrou refúgio na música country, para a qual seu contemporâneo Johnny Cash já havia migrado. Porém, mesmo ali o espírito rockeiro se manteve incólume. Bob Dylan que, por essa época também flertava com o gênero, já havia conquistado a simpatia de Cash e, certo dia, passando por um estúdio, ouviu O Matador dedilhando um piano e não se conteve, convidando Jerry para fazerem alguma coisa juntos. Jerry Lee Lewis o fulminou com o olhar, fechando a tampa do piano numa batida e respondendo a proposta com um lacônico NÃO, segundo uma das biografias do próprio Dylan. O Matador não abria concessões.

As histórias desse legítimo vida loka do rock, contadas pelo próprio, apesar de filtradas pelo jornalista Billy Bragg, estão no livro Jerry Lee Lewis - Sua Própria História, publicado no Brasil em 2015 pela editora Ideal. Os exageros egocêntricos do primeiro músico a referir-se a si mesmo, na terceira pessoa do singular, como personagem das letras de suas músicas, fatalmente, poderão ferir suscetibilidades nesse medíocre politicamente correto onde estamos atolados. Mas se tem alguém que pode contar vantagem do alto vertiginoso de uma alucinante trajetória, esse alguém é Jerry Lee Lewis, o último rockeiro vivo.

THE KING IS DEAD? LONG LIVE THE KILLER!

segunda-feira, 2 de maio de 2016

VIOLETA DE OUTONO: VIAGEM PSICODÉLICA ATEMPORAL

Violeta de Outono

Uma das características do rock brasileiro dos anos 1980, também catalogado pela ridícula alcunha "Brock", foi a heterogeneidade, ou a diversidade de elementos sonoros encontrados nas mais diversas bandas. Tinha rock para todos os gostos. O fato é que o mundo da música, na época, assim o permitia. De uma maneira geral, foi o rock inglês do período que deu a tônica dos rumos tomados aqui: o famigerado pós-punk

Em meio a toda essa diversidade surgiu, nos idos de 1984, na cidade de São Paulo o power trio Violeta De Outono, banda que acabaria sendo definida pelos especialistas no assunto como única, pelo fato de assimilar, em sua sonoridade, elementos do psicodelismo de fins dos anos 1970 e do progressivo do início da década de 1970, quando a onda determinava um rumo oposto, o do punk rock. 

Formada inicialmente por Fabio Golfetti, guitarrista e vocalista, Angelo Pastorello, baixista e Claudio Souza, baterista, o Violeta De Outono, de fato, desafinava do coro dos contentes do rock nacional. Sua música era por demais cheia de nuances e texturas impossíveis de se adequarem à cartilha do pós-punk, adepta da pedagogia do it yourself com três acordes.

Mas seria mesmo o Violeta De Outono "único" em sua proposta artística? Em se tratando do rock nacional, sim, assim como algumas outras bandas, com outras características, também foram. Porém, no pós-punk inglês a banda Echo And The Bunnymen, formada na cidade de Liverpool, fazia o que o Violeta de Outono acabou fazendo no Brasil: adequar elementos psicodélicos à estética sonora da época.

Quando ouvimos o belíssimo primeiro e homônimo álbum da banda, lançado em 1987, torna-se clara a presença de influências do Echo And The Bunnymen, principalmente  nos timbres e nas linhas de baixo e bateria. As letras das canções também nos remetem a uma realidade deslocada, que difere do "psicodelismo clássico" por não trazer embutida uma certa celebração colorida como nas de viagens literárias do Syd Barret de The Piper At Gates Of Dawn, por exemplo. Seria uma espécie de lisergia melancólica, mais afeita às viagens de Jim Morrison ídolo declarado e imitado por Ian McCulloch, líder do Echo And The Bunnymen, ou pelo Syd dos álbuns solo. Mas as semelhanças param por aí.

O Echo & The Bunnymen, apesar de underground, compunha no formato das paradas de sucesso. Músicas relativamente curtas com refrões extremamente pegajosos, para cantar junto. Ou seja, era a releitura punk do psicodelismo, onde eram aparados todos os possíveis adereços em nome da urgência estética que se instaura após os Sex Pistols. Não foi esse o caminho seguido pelo Violeta de Outono.





Lançado por uma major da época, a gravadora RCA, o primeiro álbum da banda só foi possível naquele momento, onde os executivos da indústria musical caçavam alucinadamente qualquer banda para capitalizar o mais rápido possível em cima da febre de rock que havia se disseminado pelo país. Apesar de ter nas músicas Outono e Dia Eterno possíveis hits, sendo que a última até chegou a ser executada pelas emissoras de rádio, o disco contava com músicas longas e instrumentais, algo que só poderia receber a chancela dos executivos de uma gravadora com pretensões comerciais numa época onde Infinita Highway e Faroeste Caboclo sofriam execuções maciças País afora, criando a ilusão de que tudo seria possível. Outro fato inusitado é a presença de uma (ótima) versão de Tomorrow Never Knows, o primeiro passo dos Beatles na psicodelia, onde podemos, mais uma vez, atestar a abordagem lisérgica introspectiva e melancólica da banda, comparada à estética sonora extrovertida da original. Segundo a principal revista musical da época, a versão recebeu elogios do próprio McCartney.

Violeta de Outono (1987)
No começo dos anos 1990, já tínhamos voltado à realidade e o axé e o sertanejo grassavam soberanos sobre nossos infelizes ouvidos. Sintomaticamente, o namoro do Violeta de Outono com uma gravadora mainstream terminara em 1989, com o lançamento de Em Toda Parte, o (ainda mais) experimental segundo álbum. Na metade da década de 1990, houve uma reedição dos dois álbuns num único CD, quebrando a magia de ouvi-los separadamente. Com hiatos nas gravações inéditas e mudanças no formato e formação da banda, permanecendo apenas Fabio Golfetti como membro original, o Violeta de Outono ainda está na ativa. 

Em Toda Parte (1989)

Porém, os fã(nático)s de rock costumam se apegar às origens de sua banda preferida. Para estes, há um belíssimo DVD, lançado no ano de 2006, gravado ao vivo no Teatro Popular  do SESI, em São Paulo, pelo trio original, com a participação de uma orquestra de câmara, sob o título Violeta De Outono & Orquestra.


Violeta de Outono & Orquestra (2006)

É ouvir e ver e a  viagem começar.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

FRANK ZAPPA: BREVE HISTÓRICO PARA UMA ARTE DURADOURA


No ano de 1993 os apreciadores da boa música perdiam um dos seus maiores representantes, o cantor, compositor e guitarrista estadunidense Frank Zappa. Dono de uma extensa e incategorizável obra (tanto que os críticos Arthur Dapieve e Luiz H. Romanholli, ao apresentar seu clássico álbum de estreia, Freak Out, no livro Guia De Rock Em CD - Uma Discoteca Básica, publicado no ano 2000, o definem nos seguintes termos: "Cantor e guitarrista americano 'único', em atividade entre 1958 e 1993, quando morreu" [p. 109]), Zappa transitou, ao longo se sua trajetória artística, pelos mais diversos estilos musicais, sendo considerado relevante tanto por críticos de rock quanto de música erudita, além de ser um dos pioneiros na utilização de instrumentos elétricos no jazz, a qual deu origem ao jazz-rock ou fusion.

Uma das marcas registradas de Frank Zappa foi se cercar, desde o início de sua carreira, por músicos de excepcional talento. Sua primeira banda, as Mothers, rebatizada Mothers Of Invenction por imposição da gravadora, estabeleceu uma condição lendária na história do rock. Por outro lado, a personalidade artística e pessoal forte do artista fazia com que os músicos não esquentassem lugar ao seu redor. Isto fez com que, ao longo de sua vida artística, Zappa arregimentasse um verdadeiro batalhão de virtuoses no palco e nos estúdios, tornando-se uma espécie de "selo de qualidade" o fato do músico ter "tocado na banda de Zappa".

A mentalidade artística libertária de Frank Zappa fazia contraponto a uma presença ditatorial, segundo algumas testemunhas, no relacionamento com os músicos com os quais tocou, chegando ao ponto de, em suas experiências com um instrumento eletrônico chamado sinclavier, ver a possibilidade de abdicar da presença humana na execução de suas composições.

Toda a obra de Zappa pode ser lida como um grande manifesto iconoclasta em relação aos valores sociais, políticos e culturais presentes, na segunda metade do século XX, na cultura norte-americana e, por consequência, na cultura do Ocidente. Possuía uma verve extremamente sarcástica, a qual resultava num humor cáustico e destrutivo direcionado a qualquer valor estabelecido pelo status quo. Mitos do rock, como Dylan, Hendrix, Led Zeppelin, entre outros, tiveram sua obra "homenageada" de maneira corrosiva por Zappa. Isto não impediu que, embora sem usufruir da aceitação massiva ostentada por tais mitos, a obra de Zappa passasse a ser considerada fundamental na história do rock, na qual, de maneira redutiva mas não de todo errônea, aparece sempre vinculada ao rock progressivo, por causa do virtuosismo e complexidade necessários à interpretação de suas composições.

Muitos consideram a obra de Franka Zappa fruto de uma mente genial. No entanto, tal genialidade não admite, em sua apreciação, meio termo: ou se ama ou se odeia o trabalho de Zappa pois, dependendo da perspectiva, a genialidade caminha de mãos dadas com o bizarro. Os apreciadores da obra de Zappa tendem, em consonância, a confundir genialidade e bizarria, então, está tudo em casa.

Em quase 60 álbuns gravados ( sendo a maior parte lançada como LPs duplos ou triplos), Zappa não só explorou com maestria os limites da música como, acima de tudo, abusou da já referida iconoclastia  em relação aos valores culturais impostos e/ou aceitos em sua época, os quais eram fulminados por sua causticidade crítica, muitas vezes, em forma de letra de música.

Portanto, ouvir Zappa somente como música, como é possível fazer com o Pink Floyd, por exemplo, ou seja, sem se ater à letra, se mostra tarefa excessivamente enfadonha. Há, em muitas canções, longas introduções ou intermezzos narrativos que, sem o devido entendimento, lembram lições gravadas para uma apostila de aprendizado da língua inglesa ou um noticiário numa rádio americana.

Por outro lado, suas "peças" instrumentais, principalmente quando executadas por instrumentos típicos do rock, como guitarra baixo e bateria, são soberbas. O álbum Hot Rats, de 1969, o clássico ao vivo Zappa In New York, de 1977 e o, também ao vivo, Playground Psychotics, lançado em 1992, mas gravado entre os anos 1960 e 1970, estão recheados delas.

Hot Rats

Zappa In New York

Playground Psychotics
  

Zappa, sem sombra de dúvidas, pelo conjunto da obra é, definitivamente, um músico de rock, principalmente no sentido de contestação, confrontamento, perigo e desafio, com os quais o rock se faz arte relevante mas, no entanto, passa longe de ser apenas um músico de rock. Em seu primeiro álbum, o já referido Freak Out, já estão presentes experiências com música concreta e eletrônica, além de elementos sonoros das mais diversas vertentes roqueiras de então. É como músico de rock que sua postura intransigente na defesa da liberdade de pensamento e expressão acaba sendo vinculada. Tal postura afetou de tal forma a conduta do músico que acabou extrapolando para o lado pessoal, ao ponto de Zappa educar os filhos em casa, evitando assim eles serem cooptados pelas engrenagens do sistema. Entra, aqui, novamente, outro paradoxo: Zappa tinha sérias dificuldades de estabelecer laços familiares afetivos, talvez por deixar a razão falar mais alto, o que acabou gerando  nele uma grande empatia  pela vida na estrada, em turnê, e tudo o que a envolve.

Em tempo, Frank Zappa, por sua honestidade crítica,  foi um dos primeiros artistas perseguidos por uma associação formada por esposas de congressistas conservadores, durante a década de 1980, o que acabou na lei que obriga discos com conteúdo explícito ostentarem um rótulo de advertência na capa. Uma das canções explicitas de Zappa, chamada Penis Dimension é uma fenomenal gozação da obsessão masculina com o tamanho de sua jeba. Vinte anos após a morte de Zappa, é só acessar um site de pornografia, que a quantidade exuberante de anúncios com promessas miraculosas de aumento peniano nos mostra, claramente, a eficácia de um simples rótulo diante de um  dos mais bizarros dilemas humanos. A questão não é resolver e, sim, esconder. Haja hipocrisia!!!



quarta-feira, 2 de março de 2016

JOHNNY CASH: O RENASCIMENTO ARTÍSTICO ATRAVÉS DAS "AMERICAN RECORDINGS"


American Recordings é como são conhecidos os seis álbuns lançados por Johnny Cash, entre os anos de 1994 e 2010, pelo selo American, do conceituado produtor de rock, Rick Rubin. 

Johnny Cash, o The Man In Black, como é, também, conhecido, se iniciou no mundo da música pela mesma porta que Elvis Presley, ou seja, a gravadora Sun Records, propriedade de Sam Phillips, na cidade de Menphis, a qual tinha como uma das principais características de seus fonogramas um soberbo minimalismo até hoje buscado, em vão, por muitos artistas. É só ouvir a gravação de Blue Moon, realizada por Elvis e será praticamente impossível não se perguntar: Como alguém pode ir tão longe com tão pouco? Assim também são as primeiras gravações de Johnny Cash.

Porém, diferentemente do Rei que, rapidamente, saltou para o mainstream, o "Homem De Preto" se tornou uma espécie de porta-voz dos párias do american way of life com canções repletas de crônicas encharcadas de crime e castigo. Numa de suas primeiras canções ouvimos;

"(...) Minha mãe me disse para não brincar com armas de fogo
Mas atirei num homem em Reno, só para vê-lo morrer(...)."

É mais que sabida a forte presença da música country norte-americana na gênese do rock'n'roll. Conforme a década de 1950 ficava para trás, Johnny Cash se tornava cada vez mais um artista de sonoridade country, porém, até sua morte, sua alma foi rock'n'roll. Foi o artista que gravou em um presídio de segurança máxima a pedido dos próprios presidiários, muito antes disso se tornar uma espécie de grife do rock.

Porém, enquanto passavam-se os anos, o mundo foi se tornando fresco demais para acompanhar as atribulações da alma do velho Johnny e ele converteu-se em uma espécie de peça viva de museu. Um dos motivos, levantados por especialistas é que gravadoras e produtores musicais tentavam domar o indomável, ou lapidar pedra bruta, esquecendo a lição do velho Sam: o som de Johnny Cash não necessitava de adereços. Era para ser apreciado em sua essência, em seu estado bruto. 

Isso até o começo dos anos 1990, quando seu caminho se cruza com o de Rick Rubin. É o próprio Johnny que nos conta:

"Achei tudo muito improvável. Ele [Rick Rubin] era um hippie consumado, careca na parte de cima da cabeça mas com cabelos até os ombros, uma barba que parecia nunca ter sido aparada (não tinha) e roupas que deixariam um bebum orgulhoso. Nas prioridades de seu selo estavam rap, metal e hard rock: os Red Hot Chilli Peppers, os Beastie Boys - música jovem e urbana. Eu já estava cansado de fazer testes com produtores e não estava interessado em ser remodelado para algum número de rock. Embora o homem conhecesse meu trabalho, (...) falava um pouco como Sam Phillips -, não o levei a sério. Ele logo perderia o interesse (...).

"Eu estava errado. Ele voltou para me ver (...). Comecei a levá-lo a sério.

"Perguntei como ele faria para me gravar. O que faria de diferente de todo mundo que já tinha tentado?

"Não vou fazer nada. Você vai fazer. Você vai vir até a minha casa e sentar na sala, pegar um violão e começar a cantar. Em algum momento, se quiser que eu faça isso, vamos ligar um gravador e você vai tocar tudo o que gostaria de gravar, mais as suas canções, mais outras canções que posso sugerir e que você ache que vá fazer um bom trabalho com elas. Você vai cantar todas as músicas que ama e em algum momento vamos encontrar uma canção que nos sinalize que estamos indo no caminho certo. Não estou familiarizado com a música que você ama, mas quero ouvir tudo." (*)



Rick Rubin & Johnny Cash

E assim foi. De 1994 até sua morte em 2003 foram lançados 4 álbuns, todos produzidos por Rubin, sendo os chamados vols. III e IV, com a colaboração do filho de Johnny Cash, John Carter Cash na produção. Postumamente, foram lançados mais dois volumes.
O primeiro volume, o único chamado American Recordings, foi de, fato, como Rick Rubin havia proposto: apenas Johnny Cash e seu violão relendo composições de outros artistas misturadas a algumas suas, cujo fio condutor seria a expiação dos pecados ante a inevitabilidade da morte.

Abrindo o álbum, Delia's Gone, uma canção de Cash lançada originalmente em 1962, é interpretada de uma maneira que nos pega no contrapé. Originalmente uma tragicomédia sobre um assassino passional assombrado, em sua cela, pelo fantasma da mulher que matara ganha ares de uma soturnez incomensurável, apesar dos versos "ela tinha a maldade que me faz querer pegar minha submetralhadora." Somente a gravidade da interpretação de Johnny nos faz ouvir acima do politicamente correto que se instaurou na mentalidade ocidental, desde os anos 1950, e que seria louvável, não soubéssemos ele (o politicamente correto) se ater apenas ao palavrório hipócrita. Na julgamento da mentalidade atual, a canção é machista, assim como a mesma mentalidade ainda é (até mais) capaz de atos machistas. Mas a arte sublime do velho Johnny paira imaculada acima dessas pequenas mesquinharias.


No volume IV, chamado The Man Comes Around, o mais louvado pelos especialistas, há uma versão para In My Life, do Beatles que nos faz perguntar se o Lennon de vinte e poucos anos não teria composto a canção apenas para que Johnny a gravasse dali a uns trinta anos.

Nick Lowe, Glenn Danzig, Tom Waits, Nine Inch Nails, U2, Depeche Mode, Leonard Cohen, Nick Cave, Simon & Garfunkel, Sting, Eagles, Beck, Tom Petty, Bruce Springsteen e Sheryl Crow, entre muitos outros, apesar da disparidade nas características de suas obras são interpretados por Johnny Cash com tamanha intensidade que fica-nos a impressão de, antes deles terem composto as canções para Cash, compuseram canções canções de Johnny Cash. O Homem De Preto nos deixou pra trás da maneira mais digna possível, fechando com chave de ouro a obra de uma vida. Uma dádiva reservada somente aos grandes homens.


American I: American Recordings - 1994


American II: Unchained - 1996

American III: Solitary Man - 2000

American IV: The Man Comes Around - 2002

American V: A Hundred Highways - 2006

American VI: Ain't No Grave - 2010

(*) Trecho extraído do livro:
Cash, John
     Cash: a autobiografia / John Cash, Patrick Carr; tradução de Angélica Freitas. - São Paulo: LeYa, 2013. pp. 212-13.






sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

TOP 10: O BURACO É MAIS EMBAIXO


Reza a lenda que quem, de fato, manda na banda é o contrabaixista. Lenda com um fundamento bastante sólido, já que o instrumento é responsável, nos arranjos, pela intersecção entre ritmo e harmonia. Instrumento de características abrangentes. 

Desde o surgimento do rock que o contrabaixo desafia sua condição de instrumento coadjuvante na música, graças ao fato de alguns músicos, que a ele se dedicaram, imprimirem tamanha personalidade interpretativa, deixando assim gravado, em grave e bom som, seus nomes na história do rock.

Abaixo estão listados dez nomes do contrabaixo que reúnem as características acima apontadas: músicos que deixaram composições, arranjos e interpretações soberbas fundamentados nas quatro cordas. Muita gente vai se perguntar qual é o sentido de Jaco Pastorius encabeçar uma lista de contrabaixistas roqueiros, mas a resposta é de uma simplicidade religiosa: Jaco é Deus e Deus é onipresente, ou seja, está em qualquer lista. Se concordarem, bem. Se não concordarem, amém.

1.JACO PASTORIUS






2.PAUL McCARTNEY





3. JOHN ENTWISTLE




4.JACK BRUCE




5.JOHN PAUL JONES




6.GEDDY LEE




7.STEVE HARRIS




8.PETER HOOK




9.FLEA




10.LES CLAYPOOL


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A PILLOW OF WINDS - PINK FLOYD (TRADUÇÃO)

Pink Floyd


A canção A Pillow Of Winds, composta por David Gilmour e Roger Waters, foi lançada, pela banda Pink Floyd, no álbum Meddle, em 1971.

Capa do álbum Meddle

UM TRAVESSEIRO DE VENTOS

Um cobertor de nuvens se desenha ao meu redor
Suavizando o som 
Da hora de dormir quando me deito com meu amor ao meu lado
Ela respira lentamente e a vela se apaga

Quando cai a noite você fecha a porta
O livro vai ao chão
Enquanto chega a escuridão e as ondas passam
As estações mudam e o vento é morno

A hora da coruja acordar e do cisne dormir
Veja o sonho, o sonho se foi
Campos verdes, a chuva fria
Cai na aurora dourada

E nas profundezas do chão os sons do alvorecer
Eu me abaixo
A hora de dormir quando me deito com meu amor ao meu lado
Ela respira lentamente
E me levanto como um pássaro
Na névoa quando os primeiros raios tocam o céu
E os ventos da noite morrem