The Good & Old Rock'n'roll

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Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

FRANK ZAPPA: BREVE HISTÓRICO PARA UMA ARTE DURADOURA


No ano de 1993 os apreciadores da boa música perdiam um dos seus maiores representantes, o cantor, compositor e guitarrista estadunidense Frank Zappa. Dono de uma extensa e incategorizável obra (tanto que os críticos Arthur Dapieve e Luiz H. Romanholli, ao apresentar seu clássico álbum de estreia, Freak Out, no livro Guia De Rock Em CD - Uma Discoteca Básica, publicado no ano 2000, o definem nos seguintes termos: "Cantor e guitarrista americano 'único', em atividade entre 1958 e 1993, quando morreu" [p. 109]), Zappa transitou, ao longo se sua trajetória artística, pelos mais diversos estilos musicais, sendo considerado relevante tanto por críticos de rock quanto de música erudita, além de ser um dos pioneiros na utilização de instrumentos elétricos no jazz, a qual deu origem ao jazz-rock ou fusion.

Uma das marcas registradas de Frank Zappa foi se cercar, desde o início de sua carreira, por músicos de excepcional talento. Sua primeira banda, as Mothers, rebatizada Mothers Of Invenction por imposição da gravadora, estabeleceu uma condição lendária na história do rock. Por outro lado, a personalidade artística e pessoal forte do artista fazia com que os músicos não esquentassem lugar ao seu redor. Isto fez com que, ao longo de sua vida artística, Zappa arregimentasse um verdadeiro batalhão de virtuoses no palco e nos estúdios, tornando-se uma espécie de "selo de qualidade" o fato do músico ter "tocado na banda de Zappa".

A mentalidade artística libertária de Frank Zappa fazia contraponto a uma presença ditatorial, segundo algumas testemunhas, no relacionamento com os músicos com os quais tocou, chegando ao ponto de, em suas experiências com um instrumento eletrônico chamado sinclavier, ver a possibilidade de abdicar da presença humana na execução de suas composições.

Toda a obra de Zappa pode ser lida como um grande manifesto iconoclasta em relação aos valores sociais, políticos e culturais presentes, na segunda metade do século XX, na cultura norte-americana e, por consequência, na cultura do Ocidente. Possuía uma verve extremamente sarcástica, a qual resultava num humor cáustico e destrutivo direcionado a qualquer valor estabelecido pelo status quo. Mitos do rock, como Dylan, Hendrix, Led Zeppelin, entre outros, tiveram sua obra "homenageada" de maneira corrosiva por Zappa. Isto não impediu que, embora sem usufruir da aceitação massiva ostentada por tais mitos, a obra de Zappa passasse a ser considerada fundamental na história do rock, na qual, de maneira redutiva mas não de todo errônea, aparece sempre vinculada ao rock progressivo, por causa do virtuosismo e complexidade necessários à interpretação de suas composições.

Muitos consideram a obra de Franka Zappa fruto de uma mente genial. No entanto, tal genialidade não admite, em sua apreciação, meio termo: ou se ama ou se odeia o trabalho de Zappa pois, dependendo da perspectiva, a genialidade caminha de mãos dadas com o bizarro. Os apreciadores da obra de Zappa tendem, em consonância, a confundir genialidade e bizarria, então, está tudo em casa.

Em quase 60 álbuns gravados ( sendo a maior parte lançada como LPs duplos ou triplos), Zappa não só explorou com maestria os limites da música como, acima de tudo, abusou da já referida iconoclastia  em relação aos valores culturais impostos e/ou aceitos em sua época, os quais eram fulminados por sua causticidade crítica, muitas vezes, em forma de letra de música.

Portanto, ouvir Zappa somente como música, como é possível fazer com o Pink Floyd, por exemplo, ou seja, sem se ater à letra, se mostra tarefa excessivamente enfadonha. Há, em muitas canções, longas introduções ou intermezzos narrativos que, sem o devido entendimento, lembram lições gravadas para uma apostila de aprendizado da língua inglesa ou um noticiário numa rádio americana.

Por outro lado, suas "peças" instrumentais, principalmente quando executadas por instrumentos típicos do rock, como guitarra baixo e bateria, são soberbas. O álbum Hot Rats, de 1969, o clássico ao vivo Zappa In New York, de 1977 e o, também ao vivo, Playground Psychotics, lançado em 1992, mas gravado entre os anos 1960 e 1970, estão recheados delas.

Hot Rats

Zappa In New York

Playground Psychotics
  

Zappa, sem sombra de dúvidas, pelo conjunto da obra é, definitivamente, um músico de rock, principalmente no sentido de contestação, confrontamento, perigo e desafio, com os quais o rock se faz arte relevante mas, no entanto, passa longe de ser apenas um músico de rock. Em seu primeiro álbum, o já referido Freak Out, já estão presentes experiências com música concreta e eletrônica, além de elementos sonoros das mais diversas vertentes roqueiras de então. É como músico de rock que sua postura intransigente na defesa da liberdade de pensamento e expressão acaba sendo vinculada. Tal postura afetou de tal forma a conduta do músico que acabou extrapolando para o lado pessoal, ao ponto de Zappa educar os filhos em casa, evitando assim eles serem cooptados pelas engrenagens do sistema. Entra, aqui, novamente, outro paradoxo: Zappa tinha sérias dificuldades de estabelecer laços familiares afetivos, talvez por deixar a razão falar mais alto, o que acabou gerando  nele uma grande empatia  pela vida na estrada, em turnê, e tudo o que a envolve.

Em tempo, Frank Zappa, por sua honestidade crítica,  foi um dos primeiros artistas perseguidos por uma associação formada por esposas de congressistas conservadores, durante a década de 1980, o que acabou na lei que obriga discos com conteúdo explícito ostentarem um rótulo de advertência na capa. Uma das canções explicitas de Zappa, chamada Penis Dimension é uma fenomenal gozação da obsessão masculina com o tamanho de sua jeba. Vinte anos após a morte de Zappa, é só acessar um site de pornografia, que a quantidade exuberante de anúncios com promessas miraculosas de aumento peniano nos mostra, claramente, a eficácia de um simples rótulo diante de um  dos mais bizarros dilemas humanos. A questão não é resolver e, sim, esconder. Haja hipocrisia!!!



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