The Good & Old Rock'n'roll

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Traduções de músicas & textos sobre o rock'n'roll e sua história.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

LOBÃO: "DECADÊNCIA COM DESELEGÂNCIA"?

Depois de uma década, o velho Lobo ataca novamente com um álbum de inéditas, financiado via crowdfunding, cujo tema básico é a realidade política brasileira mas, ou não havia como o conceito artístico assumido escapar da pobreza artística, mascarada em pretensão, ou a relevância do artista é mesmo peça de museu.


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Seguindo o caminho de seu ídolo Arnaldo Baptista, Lobão resolveu, pela primeira vez, tocar ele mesmo todos os instrumentos na gravação de seu mais novo álbum. Talvez por isso, essa inocência do principiante, musicalmente o álbum dá a impressão de pecar pelo excesso ou, mais inclementemente falando, possui uma sonoridade pretensiosa, descambando facilmente para o poluído. Viradas de bateria desnecessárias, pistas coaguladas de guitarras, linhas de baixo saturadas e teclas "mezzo clássicas" parecem nos perguntar a todo instante: viram como eu toco bem? Por outro lado, o próprio Lobão, na divulgação do álbum, não poupou referências às unanimidades da música clássica na descrição das músicas. Então?

Outro ponto complicado são as letras. Música de protesto ou é oito ou oitenta. Se não for uma obra prima é um porre. Em seus melhores momentos (que, ao contrário do que afirma muita gente, não são poucos), Lobão esteve escudado por grandes letristas. Quando assumiu a pena, escreveu grandes letras, como as do álbum "Nostalgia Da Modernidade", por exemplo, mas já deixava entreouvir uma certa verborragia que, no ótimo "A vida É Doce" e no nem tanto "Canções Dentro Da noite Escura", se acentuou. Em seus melhores momentos (quando consegue se ater a um certo lirismo), o novo álbum parece sobras de estúdio do último.

A divulgação midiática do álbum esteve sempre resvalando nas definições de "épico". Porém, todo épico o é pela posteridade. É a trajetória de uma obra que a define como tal. Toda pretensão artística de compor uma obra épica corre, fatalmente, o risco de resvalar no caricato. Mas não se pode dissociar, hoje, o artista Lobão de suas posições político-ideológicas. Se há algo que não deve ser subestimado no velho Lobo é sua sagacidade. Pode ser que a mediocridade que perpassa todo o conceito artístico por detrás de "O Rigor E A Misericórdia" seja, na verdade, o artista adequando sua arte à mediocridade político-ideológica de sua época. Por isso, e só por isso, leva um 5, mesmo estando o artista se nivelando por baixo. Para terminar, é sintomático o fato do álbum ser precedido por um (outro!) livro contextualizando as gravações. Talvez, como um grande músico, Lobão esteja se tornando escritor.